Ela ficou séria, quieta, pensativa. A Suzan foi no quarto e voltou com papéis, tirando de uma pasta, falou colocando em cima da mesa:
— Eu ia esperar essa turbulência passar, mas acho melhor te falar tudo agora, de verdade, está cada vez mais difícil lidar com você, eu tento não falar nada e relevar, mas eu conheço coisas boas, seus sapatos, suas roupas, se a sua advogada é a esposa daquele Noah que te levou embora, quero só entender o que você faz lá e como tem tudo isso.
— Olha nos meus olhos e me conta a verdade! Se é por dinheiro e você faz coisas erradas com eles, pra ter tudo o que nunca teve, saiba que você vai ter o seu, esse terreno aqui era do seu pai, toda a parte da reciclagem vai ser sua!
— Eu moro de favor no seu quintal e eu trabalho aqui, pra me virar e ter dinheiro para manter as crianças, não estou com o Célio por interesse, se é isso o que você pensa, anda, me conta a verdade!
Lendo as papeladas, a Rebeca falou:
— Eu já te disse, eu ajudo ela, cuido do menino da casa, roupas, sapatos, não são nada pra eles, eu ganhei tudo. Por que você não vai embora comigo? Posso cuidar da gente!
Ela disse que não podia ficar indo de um lugar pra outro assim com duas crianças. A Rebeca se calou, desistiu de falar do passado do Célio, perguntou se podia pelo menos ajudar, mandar dinheiro. A Suzan falou irônica:
— Da sua herança ou do seu salário de babá?
A Rebeca sorriu, disse que era muito feio menosprezar a profissão dos outros. A Suzan respondeu:
— Promete que não vai se meter em problemas? Ou eu te mando pra casa da Alyssa, hein! Viu ela me fuzilando com os olhos? Ela não mudou nada, me chamava de torradinha seca, pela minha cor e corpo!
A Rebeca enrolou, não prometeu nada, disse que achava muito bonitas as pessoas negras. Ela estava com a Kayla no colo, começou a beijar, brincando, dizendo que ia morder ela, que era feita de chocolate. A Suzan se lembrou do Antônio na juventude, contou várias histórias.
A Rebeca ficou bastante tempo lá, deixou o celular de canto e só quando estava indo embora respondeu uma mensagem do Pablo. Ela estava no carro, parada ainda, quando a Kim mandou mensagem falando que tinha ido jantar fora com um amigo. Ela respondeu:
" Que amigo? "
" Tá tudo bem? "
" Onde vc tá? "
A Kim respondeu:
" No hotel mesmo, está tudo bem, depois a gente conversa, aproveita pra ficar com a sua madrinha "
Ela não disse o nome, mas tudo ficou muito claro, era o Dylan com certeza. Ela deu algumas voltas de carro e foi para o hotel. Chegando lá, foi no restaurante e viu a Kim conversando, rindo e beijando outro homem na boca, os dois estavam muito próximos, trocando carinho como um casal, e aquilo foi assustador, surpreendente.
Logo se levantaram e foram para o elevador, de mãos dadas. De longe, a Rebeca ficou olhando, meio atordoada com tudo ainda, saiu e foi para a Arena desligar seus sentimentos.
Ela estava com o carro da Kim e com ele não tinha vontade de correr, com o dela era melhor. Tinham muitas pessoas lá, ela estacionou perto da saída, foi andando em meio aos carros parados, com duas cervejas adocicadas nas mãos, que comprou no caminho, falou com uma colega e foi conversar com o rapaz das apostas.
Ele brincou com ela, perguntou se estava a fim de arrumar briga, ela disse que não, que só tinha ido se distrair mesmo. De longe, ela viu o Noah encostado no alambrado, afastado de todos, meio no escuro, perto das mesas de piquenique. Ela foi até ele, que nem percebeu que ela estava se aproximando. Ela falou encostando ao lado dele:
— Oi. Estou delirando? Você é gêmeo do Noah?
Ele disse sério, frustrado:
— E aí? Gêmeo? Nem eu vocês suportam, imagina outro de mim.
Ela virou o resto da cerveja, abriu a outra, ofereceu. Ele falou acompanhando com o olhar os carros correndo:
— De boa, o que você tá fazendo aqui?
Ela disse que o mesmo de sempre, ele falou que ia correr, com um olhar cético, sombrio. Notando que tinha algo errado, ela disse encarando ele:
— O que aconteceu, Noah?
Ele falou que estava com enxaqueca e foi sair andando. Ela falou segurando ele pelo braço:
— Espera, deixa eu te ajudar! Vem aqui.
Ele estava muito sério, parecia bravo, disse que não queria ajuda dela. Ela entrou na frente dele e falou séria:
— Vai me falar ou não o que está acontecendo? Não vou te deixar correr desse jeito.
Ele disse sentido, parecendo triste:
— Não quero te prejudicar, pode ficar tranquila que não vai acontecer nada, já corri mais de cem vezes aqui. Vai fazer suas coisas e sai do meu caminho!
Ela disse irônica, olhando ele nos olhos, impedindo ele de passar:
— Mas eu não tenho nada pra fazer!
Enquanto se olhavam em silêncio, ela tocou a mão dele sutilmente, foi entrelaçando seus dedos e falou que o dia todo havia sido um porre. Ele respondeu segurando a mão dela melhor:
— Por que você faz isso? Eu tô começando a achar que não é só pra ajudar, sei lá, se te prejudica, tô achando que é isso que você quer.
Ela tomou um gole da cerveja, sorriu e falou mantendo o contato visual:
— O quê? Me machucar?
Ele soltou a mão, falou indo sentar na mesa, com os pés no banco:
— Quantas vezes você já fez isso comigo?
Ela se aproximou, sentou ao lado dele, disse que umas quatro. Ele respondeu sério:
— Não faz mais isso, é sério. Não quero ver você doente por minha causa!
Ela riu irônica, ficou bebendo quieta. Ele perguntou pela Kim. Ela falou séria apreensiva:
— Deve estar dormindo, eu fui jantar na minha madrinha, tô fora há um tempão.
Ele respondeu invocado:
— É mentira e eu tenho certeza que você sabe disso. A gente terminou e dessa vez é pra valer, eu achei que ia me sentir melhor, cansa, sabe?
— Tantas brigas e cobranças, ano após ano. Eu gosto muito da Kim, mas ela é fria e egoísta, de uma maneira que eu não consigo ser!
— Ela quer me punir pelo que fiz com você, aproveitou a oportunidade pra chamar aquele cara e vai esfregar ele na minha cara, não deixa eu me aproximar e não fala nada da gravidez pra mim, ela é capaz de não me deixar ver meu filho e não perde a oportunidade de dizer que eu nem quis nada, eu só não queria ver ela sofrendo com outro aborto.
— Eu tô muito f.u.d.i.d.o, nada tá dando certo e já faz tempo! Estraguei tudo.
A Rebeca disse que sentia muito, por tudo o que causou a eles. Ele estava quase chorando, falou levantando de costas pra ela:
— Não é culpa sua, antes de você aparecer a gente já não estava bem. Eu queria que você nunca tivesse me ajudado!
— Que p***a de vida.
Ela se levantou também, o abraçou forte por trás, disse sentida:
— Eu não vou nunca me arrepender disso. Não fala assim!