Ela correspondeu ao abraço, deu um selinho e disse séria:
— Você sabe que isso não pode acontecer, nós dois sabemos. A gente pode só curtir? De boa?
Se afastaram, ele respondeu irônico:
— Se eu aguentar, vamos. Eu tenho muito mais em comum com você do que pode imaginar. Nem sempre eu fui assim, seguro de mim, satisfeito com a minha aparência e, mesmo sendo bem de vida, rola um preconceito com a minha cor, os pais da Kim mesmo não me aceitavam de verdade, o Armando também não, as pessoas julgam minhas tatuagens, mas eu gastei muito com elas, mais de quinze mil.
— Eu sigo minha dieta e meus treinos porque aderi isso como um projeto de vida, eu era gordinho, todo desastrado e até vergonhoso, eu sei que é gostosa a sensação de ser desejado, notado, porque ninguém me notava no passado, quando eu mudei e vi que podia ser diferente, comecei a gostar muito de mim.
— Tive essa fase de chamar atenção e ainda tenho, eu gosto de flertar assim como você, por isso te entendo quando te vejo com graça. Na verdade, quase sempre eu sei o que esperar de você, porque é só pensar no que eu faria no seu lugar.
Ela respondeu rindo:
— Deixa eu ver você antes? Tem foto? Devia ser fofo! Minha madrinha é mais n.e.g.r.a que você e as crianças dela são lindas, eu babava na pele da sua irmã, não tinha nada, lisinha e brilhava, eu sempre falo isso, acho muito bonita a pele de vocês, são de chocolate. E a boca? O cabelo?
— Eu me acho meio sem graça, sabia? Apagada! Olha, não reclama não por ser n.e.g.r.o, porque eu sou enferrujada e não posso tomar sol, que eu amo, nem me disfarçar no meio da multidão com esse cabelo laranja, e imagina eu toda m*l vestida pegando lixo na rua com um cabelo desse brilhando de longe?
— Meu cabelo era bem curto, meu pai me levava na barbearia com ele até uns doze anos, era muito feio meu corte.
Ele disse rindo:
— Não preciso imaginar, eu já vi isso, mais de uma vez, sabe que eu já te vi pequena? Lá no ferro-velho, cercando o meu carro, faz uns dez anos isso, e eu lembro de você justamente por ser enferrujada assim, diferente, estava você e o Neto de bicicleta, depois, quando eu fui embora, vi vocês no pasto, na beira da estrada, provocando uma vaca, você sempre foi doidinha, né? Aventureira!
Ela começou a rir muito, disse que era feliz e não sabia, logo ficou chateada se lembrando de coisas, falou que realmente não devia ter saído nunca do lixão. Ele respondeu segurando a mão dela:
— Às vezes a gente não escolhe, nosso destino é traçado, a gente só vive. Não fica se culpando pelo que deu errado! Você é muito nova, tem uma vida toda pela frente.
Ela disse que não tinha pai nem família, que achava o dinheiro um problema e que estava com um mau pressentimento sobre o retorno da mãe, confessou que tinha medo dela e de ficar sozinha, vulnerável, que por isso ainda estava com a Kim. Ele respondeu surpreso:
— Você não está sozinha, eu já te disse isso, a gente pode brigar, mas se precisar todos nós vamos te ajudar, do que você tem medo? Sua mãe não pode te fazer m*l. Você já é maior de idade, não precisa dela!
Ela respondeu quase chorando:
— Eu preciso parar de fumar essas coisas, me dá uma onda r**m, que porcaria você me deu, hein?
Ele disse que orégano. Ela continuou falando:
— Minha mãe era como eu, especial, e ao engravidar de mim isso acabou. Talvez eu seja parecida com ela, porque ela ficava com o meu pai e o meu tio, os dois brigaram e meu tio quase morreu, ficou em coma, acho que ela gostava mesmo dele e com meu pai era só fogo, na gravidez não funciona essa coisa de ajudar.
— Ela chorou por ele os nove meses, até que eu nasci e, em troca de me colocar pra ajudá-lo, ela deixou meu pai sumir comigo no mundo, a família sabia da traição e viraram as costas pro meu pai, ele largou tudo, a vida boa, e foi morar na reciclagem pra me esconder.
— Eu nem fico brava de saber que eu não tinha as coisas que todo mundo tinha, enquanto ele tinha dinheiro escondido, porque ele só queria me proteger do mundo e eu era feliz, eu nem ficava muito triste com a minha vida, estava acostumada com a simplicidade, eu só sentia raiva das pessoas que gostavam de desfazer de mim, na escola, por exemplo.
— Enquanto eu tinha o Neto, eu era de um jeito, depois que ele mudou, deixei o cabelo crescer, comecei a tentar me vestir melhor, o Neto me deu umas coisas da mãe dele, fiquei super feliz, eu nunca vou me esquecer disso e do meu primeiro sutiã.
A moça do carrinho de lanche chamou pelo nome dela. Ele falou irônico, se afastando pra ir buscar:
— Não vai esquecer porque quem tirou sua pureza foi ele, né?
Ela respondeu rindo:
— É, ele dizia que preferia eu sem, sutiã!
Ele foi pegar os lanches e deu risada também. Os dois sentaram pra comer no porta-malas do carro, ela disse que podiam jogar, trocar perguntas sobre coisas que os dois queriam saber. Ele disse que não iria pegar leve e que não ia mentir. Ela falou pedindo pra trocar de lanche:
— Por que você estava indo perto da minha casa quando te ajudei?
Ele respondeu irônico:
— O quê? Acha que eu estava indo atrás de você? Me desculpar por causa da nossa briga? Eu lembro, sabia? Não estava em um bom dia e você me tirou do sério.
Ela disse séria:
— Não enrola, Noah, sei que você não estava atrás de mim, me conta a verdade sobre o Célio.
Ele começou a contar tudo desde o começo, há muitos anos, quando era ainda um moleque, disse que o Célio ajudava com a revenda de peças, desmanche de carros roubados. Ela falou surpresa:
— É claro, vocês faziam corridas falsas pra faturar nas apostas e apreensões, roubavam do pátio e não tem lugar melhor pra esconder porcaria do que no lixo.
O Noah falou que não queria o lanche dela, destrocou. Ela falou indignada:
— Também não quero, Noah. Ele não queria mais fazer essas coisas? O que mudou? Por isso você não gostava do Neto?
Ele respondeu:
— O Ramon te contou essas coisas, né? Acho que o Célio, diferente de mim, viu que tinha muito a perder, nessa vida é assim, um dia temos tudo, no outro podemos não ter mais nada. Independente do Célio ser um c.u.z.a.o. do c.r.l.h.o., seu amigo é bem c.h.a.t.o., sabe quantas vezes fui te procurar e ele me atendeu?
— Muito m*l, por sinal? Ele sabia que você era a fim de mim e se mordia de ciúmes, não tiro a razão dele. O Célio tinha medo e mandou o Neto pra longe por isso, eu estava indo falar com ele, pedir ajuda, naquela noite.
— Não que você não merecesse meu pedido de desculpas, mas eu não ia pedir. Odeio ser acusado pelo que não fiz, eu nunca iria te oferecer dinheiro pra sair comigo, no máximo te roubar um beijo, mas nem isso, porque você era do tipo que só precisava ser tocada da maneira certa pra se entregar, lembra do seu aniversário? Fala aí, se não fosse pelo Neto, tinha rolado, não é?