A Kim falou segurando na mão da Rebeca por alguns instantes, acariciando:
— É, eu tô. Tristeza, insegurança e medo não são doenças. E você? Tudo bem?
Séria, a Rebeca falou:
— Só raiva mesmo, o de sempre.
A Kim sorriu e tirou a mão, disse que elas iam precisar ir direto para o fórum, por causa do horário. Já estavam na cidade, a Rebeca retocou a maquiagem, passou batom, ajeitou o cabelo. Foram descendo do carro, a Kim atendeu uma ligação enquanto caminhavam, era um funcionário da diretoria do hotel, ela estava conversando e as duas chamando muita atenção desde que saíram do carro.
A Kim estava com um vestido tubinho off white na altura do joelho, blazer rosa que disfarçava a barriga, salto alto preto, muito bem maquiada, cabelo escovado, com as joias dela de sempre, delicadas e finas, relógio de ouro e uma bolsa e pasta de grife combinando.
A Rebeca estava com uma calça jeans de marca caríssima, lavagem escura, clássica e fina, camisa social azul-bebê com detalhes em flores bordadas, um sapato escarpim preto com solado vermelho de cerca de três mil reais e uma bolsa também de marca. A Kim desligou o celular, falou para a Rebeca:
— É bem provável que só o advogado deles venha.
Elas se aproximaram da recepção, a Kim começou a conversar, passar os documentos delas. A Rebeca estava quieta, muito séria, olhando para a Kim enquanto ela conversava. Uma mulher falou se aproximando apreensiva:
— Rebeca?
Elas se viraram juntas para ver, era a Alyssa, mãe da Rebeca, branca, ruiva com o cabelo mais avermelhado escuro, muito elegante usando um conjunto de alfaiataria preto. Ela falou emocionada, chegando mais perto ainda:
— Meu Deus, como você está linda, eu reconheceria seus olhos em qualquer lugar do mundo, filha, eu esperei muito por esse momento. Posso te dar um abraço?
Muito séria, sem esboçar qualquer reação, a Rebeca falou a olhando com desdém:
— Na verdade, não, então por que mesmo estamos aqui? Eu só queria entender qual o seu interesse nisso!
Com espanto, a Alyssa ficou olhando pra ela, balbuciou algumas palavras, chorando:
— Eu não... Sinto muito... Rebeca, eu...
O advogado dela se aproximou, amparando a Alyssa, disse que não era pra ela falar nada fora da audiência. Atrás deles chegaram o Célio e a Suzan. A Rebeca estava encarando a mãe, quando viu os dois entrando, friamente passou pela Alyssa, olhou pra ela com desprezo e foi até a Suzan, que estava muito séria também. As duas se abraçaram, a Rebeca falou:
— Oi, madrinha, você veio!
Ela respondeu desconcertada:
— É claro que eu não ia te deixar sozinha, tudo bem? Fica calma, vai dar tudo certo!
A Kim se aproximou deles. A Alyssa falou chorando:
— Ahhhh, é claro que essa daí já encheu sua cabeça contra mim, quanto tempo, Suzan, não esperava ver você aqui. Rebeca, não acredite em nada que essa mulher diga, é uma oportunista, ela quer se vingar da nossa família!
A Rebeca sorriu irônica, abraçada com a Suzan, deu as costas para a Alyssa, foram para o cantinho. Ela falou com o Célio:
— Oi, você foi intimado, né?
Ele disse segurando a mão dela:
— Fui sim, ela não vai conseguir tirar o Antônio daqui, nunca foram casados e a filha é você. Fica tranquila!
A Rebeca agradeceu, perguntou pelas crianças. A Suzan falou:
— A Kayla está na escolinha e gosta de brincar no seu quarto, mas eu já disse que não deve mexer nas suas coisas! Você vai ficar, né? Por favor, fica uns dias com a gente!
A Rebeca disse que ia ver se dava, mas que com certeza ia ver as crianças pelo menos um pouco. Foram chamados pra entrar na sala, os advogados estavam falando um de cada vez, em defesa de suas clientes. A Kim foi muito bem preparada, estudou o caso todo e listou os pontos sensíveis, disse que não era nem justo, afetivamente falando, que alguém de qualquer grau de parentesco tentasse fazer aquilo com uma garota de dezoito anos que foi criada só pelo seu pai, disse até que era muito oportuno que eles fizessem manipulação, chantagem emocional com ela, em um momento tão frágil, depois dela ter perdido o único familiar que tinha, insinuou até que estavam atrás dela por conta da herança.
O advogado rebateu que a família sempre a procurou e que queriam levar ela e o Antônio pra perto, onde era o lugar deles, disse que o único interesse deles no testamento era em ajudar a Rebeca a receber tudo o que era dela por direito. A Alyssa começou a falar chorando como uma vítima:
— Eu te procurei por todos esses anos e não existiu um único dia em que eu não pensei em você, filha, sei que deve ter ouvido muitas histórias e com certeza tem raiva por ter crescido naquelas condições horríveis, sendo privada de tudo o que a vida te roubou, por causa de seu pai.
— Mas essas escolhas foram dele, ele te deixou crescer no meio do lixo como uma coitada, eu nunca quis nada disso pra você, muito pelo contrário, sempre sonhei em te dar de tudo, cuidar de você e te dar todo o meu amor.
— Eu só quero a chance de te mostrar tudo isso e nós todos queremos que você vá pra casa conosco. Deixa eu cuidar de você!
A Rebeca falou irônica, encarando Alyssa friamente nos olhos:
— Talvez tenha sido melhor ter ficado no lixo, isso me fez forte e eu aprendi a lidar com todo tipo de gente. Sempre fui muito feliz, inclusive, eu tinha tudo o que precisava.
— E não preciso que você queira cuidar de mim agora, meu pai deu o seu melhor e eu não preciso de você, nem da sua família!
— Foi aqui nessa cidade que ele passou os últimos anos de sua vida, ao lado de gente pobre e humilde, comigo, aqui que ele morreu e é aqui que vai ficar, se você insistir nisso, pode ter certeza que vai ser a pior escolha da sua vida, mamãe!
A Alyssa disse chorando, nervosa:
— Eu a amo demais, você acredite ou não, é minha filha, eu te gerei e dei à luz a você, te amei desde que soube de sua existência em meu ventre e nada vai mudar isso.
O advogado disse que era um desejo da mãe do Antônio que ele fosse colocado junto dela, começou a contar que o Antônio abandonou a família e que a mãe dele morreu deixando a parte dele muito bem intitulada no testamento e desejando que a família se reunisse de novo um dia.
A audiência de conciliação foi suspensa por falta de acordo. O Célio foi ouvido, se posicionou em defesa da Rebeca e contou até que a falecida esposa tinha um grau de parentesco com a Alyssa e que a família delas nunca foi unida ou próxima, falou que o Antônio criou a Rebeca sozinho e que nunca teve interesse em levá-la pra perto da Alyssa.
Tudo foi muito tenso e o clima ficou super pesado, não teve acordo algum, tudo só se complicou mais e marcaram outra audiência para dali a alguns dias. Todos estavam saindo, a Suzan e o Célio foram embora na frente. No estacionamento, a Alyssa tentou conversar novamente com a Rebeca, disse que queria encontrá-la em outro lugar, dar uma volta, conhecer ela melhor.
A Kim estava muito próxima, falou tomando a frente da Rebeca:
— Acho melhor você dar um tempo pra ela, o dia já foi muito intenso pra todos. Me passa seu número e a gente entra em contato! Aproveita pra pensar bem na situação, porque nós não vamos parar, já entrei com o pedido de DNA!
A Alyssa não gostou, falou intrigada, atacando a Kim:
— Deixa ela falar, quem é você mesma? Isso é um assunto de família, você não faz ideia de onde está se metendo, é a minha filha, vejo que está grávida, então, se não sabe, vai logo saber o que é ser mãe, pode cuidar dos processos legais dela, mas isso, nossa relação, não é da sua conta! Rebeca, posso falar com você a sós, um minuto?