Enlouquecendo.

1553 Palavras
Tento me convencer, repetidamente, com frases consistentes e ensurdecedoras, que tudo o que vi foi apenas um sonho. Mas ainda tem uma parte do meu cérebro que não quer aceitar isso, como se eu tivesse me dividido em duas Alices. Essas dois pensamentos contraditórios ficam martelando em minha mente, uma de que o que tive ontem foi só um sonho e que estou louca, outra de que eu realmente recebi um sinal da natureza. Blaine não se parece com aquele outro homem de costas, então por que haveria de ter visões sobre alguém que não conheço ou não me lembro? E se eu fosse ter que dar mais ênfase - não que eu esteja insana ou algo assim- , mas eram costas muito bonitas. Eu não poderia esquecer uma costa daquela. E também não tinha como esquecer daqueles cabelos. Eram cor de mel. Nesse momento eu estou esperando Gal no nosso lugar de sempre. Ela nunca era de se atrasar, nosso horário de não ficar dopado e preso no quarto era um tempo precioso. Mexo nas minhas unhas e nos meus cabelos finos e pequenos, tentando me distrair. Eu conheci uma mulher que geralmente acompanhava alguns pacientes daqui até a alimentação (talvez para que eles não tentassem fugir ou matar alguém), a minha acompanhante se chamava Jany. Ela é uma das mulheres que mais se veste bem aqui para trabalhar. Nós pacientes não entramos nessa lista, nós só usamos niforme, um uniforme não muito agradável. Estamos sempre usando branco, as mangas ficam largas em mim, como se estivesse vestindo uma camisola em vez de uma blusa. A calça também não cabe muito em mim, fica soltando alguns fios ás vezes. Acho que não fizeram nenhuma questão de nos colocar em roupas bonitas. Até por que, estando em um ambiente cercado de loucos, por que você se preocuparia com roupas? Mas eu ainda me preocupo com o que estou vestindo. Não sei, me sinto desconfortável. Desnorteada. Quero vestir algo que dê certo com meu corpo e com minha personalidade. Isso aqui que visto parece que estou usando andrajos, cheia de panos velhos. Já Jany... Ela é impecável, com seus cabelos trançados e olhos castanhos. Sua roupa deve ter sido tecida com todo o cuidado, a cor azul clara combinando com o ambiente de trabalho e até mesmo com seu óculos redondo. Porém não deixo de notar que talvez seu rosto redondinho combinaria mais com o cabelo curto, e que ele de preferência ficasse solto na maioria das vezes. O seu sapato preto é uma graça, mas combinaria melhor um sapato mais claro para o ambiente. De qualquer forma, a maioria aqui não tem nem escolha sobre o que vestir. E sinto falta de um espelho. Estranhamente, não me recordo da minha família, mas me recordo que minha família tinha um espelho e ficava horas me arrumando. Eu ficaria feliz se pudesse me olhar no espelho alguma vez e ver como me aparento, para poder saber em como posso melhorar. Blaine chegou na nossa mesa. — Bom dia, Alice. — Olá, você demorou chegar. — Comento e abro espaço para que ele se sente ao meu lado. — Na verdade, ontem você desapareceu. Ele apenas sorriu e assentiu. Ele não falava muito. — Você sabia que ontem fez sol? Você perdeu. Aqui não é um lugar que se aprecia o calor, aqui é um forno, mas é legal ver a cor amarelada do sol ás vezes. Raramente isso acontece. Ao ver que ele não me respondeu, perguntei: — Por que não veio ontem? — Tinha muito trabalho pra fazer, não dava pra descansar. Por algum motivo tenho a impressão de que ele esteja mentindo. Ele trabalhava como zelador daqui, nunca parecia ter muito trabalho, já que haviam mais funcionários com ele. — Onde está Gal? — Perguntei. Devo ter deixado á mostra toda minha impaciência, mas é inevitável. Eu gosto de conversar, de pessoas abertas com assuntos divertidos.. Blaine é muito sério... parece um morto. — Ela está morrendo. — Ele disse abruptamente. — Não me mate de susto, sou muito nova ainda.— Disse sorrindo. Ou tentei sorrir. Eu estava muito preocupada. — Ela foi transferida para a isolação. — Isolação? Você não pode estar falando sério. Isolação era o lugar onde mandavam pessoas que estavam com febre tifoide, pois é uma doença um tanto transmitida facilmente, até mesmo diretamente, como contato pelas mãos. Mas Gal? Gal não estava doente. — Ela não pode estar doente.. — Pessoas ficam doentes.  —   Ele falou. Sua conformidade, sua aceitação, sua indiferença, me fez não reconhecê-lo mais. Como se ele fosse um estranho. A morte nunca deve ser dada com conformidade. Pessoas que amamos estão indo embora, você não pode apenas aceitar isso como um problema comum. É trágico. É doloroso. — Pensei que fossem amigos ou até mesmo mais do que isso.— Comentei.— Até amantes. — Acorda, ela tem 65 anos.— Ele falou em um tom chamativo e irônico. Mas ele também não era assim tão novo. Eram fofos juntos.. pareciam unidos.. felizes. E agora ele olhava como se seu lápis de cor favorito tivesse caído no chão e não como se sua companheira de anos (muito antes que eu chegasse) estivesse doente. Me levantei da mesa com raiva, nem sequer tomei aquela comida fria e nojenta. Mais nojento do que aquela comida, era aquele homem que estava na minha frente. Jany, meu piolho, me acompanhou até o quarto. Quando Jany chegou ao quarto comigo, já ia pegando mais remédios, quando peguei a primeira coisa que estava perto de mim e atirei em sua direção. — Me deixe sozinha!  —   Gritei. E pelo incrível que pareça, ela me deixou só. Obrigada pela consideração Jany, não poderia ficar comigo um pouco? Sei que nunca conversamos, mas pensei que fossemos amigas.                                                                                     ❦❦❦❦❦ São 5 horas da manhã, as portas do manicômio se abrem automaticamente. Gal sai em direção à um muro cinza, o muro que nos prende aqui. Ela procura em vão fazer a escalada. "Gal, o que está fazendo? É impossível." eu tento gritar, mas não possuo forças. Mas ela não parece ter escolha, ela age desesperada, correndo de alguém. Alguém sombrio, perigoso. Blaine parece ouvi-la, ele vai atrás dela, para ajudá-la. Eles se abraçam, mas Blaine a abraça além do normal. Ele não percebe que a está machucando? Gal está pedindo para ele soltá-la, mas ele finge não ouvi-la. Ela grita "me solte!", mas ele continua apertando ela contra seu corpo e, o mais estranho, a morde como um lobo contra sua presa. O QUE ESTÁ FAZENDO BLAINE? ELA ESTÁ MORRENDO! Tomo um susto de repente, feliz por acordar. Mas então percebo que estou sentada na cama, e me lembro que dormi a tarde toda a ponto de não conseguir pegar no sono a noite. Não foi um sonho. E então observo o relógio de quartzo - nunca percebi como é tão lindo e moderno - mas vejo que são exatamente 5 horas da manhã. A porta do meu quarto se abre automaticamente. As luzes se acabam, como uma ordinária falta de energia. Não deveria fazer o que estou fazendo: saindo do meu quarto, como uma desesperada, tentando provar a si mesma que pode ser que por apenas algum minuto estou certa, que não sou maluca e, ao mesmo tempo, desejando que eu seja maluca e que nada de r**m tenha acontecido a Gal. Deveria ir para a área de isolação, mas a multidão que saia de lá estava desnorteada e caminhava de um lado a outro. Gal já deveria ter saído. Corro para a saída, para o muro alto e cinza. Vejo se repetir exatamente o que já tinha visto. Ele a está devorando, ela não transmite nenhuma resistência. E continuo correndo o mais rápido que posso, mas não consigo ser rápida como ele. Posso sentir sua dor de onde estou e tento chegar a onde nunca consigo chegar. As luzes se ascendem. A energia volta. Eu grito pedindo ajuda, mas ninguém aparece. Só ele consegue me enxergar. — O QUE ESTÁ FAZENDO BLAINE? ELA ESTÁ MORRENDO! Ele olha pra mim com seus olhos negros, e com um simples gesto, a joga no chão, empurrando-a para a morte. Ele pula o muro. Um muro de 15 metros. Eu fico ainda mais assustada. Posso enfim encontrar Gal, que estava tão distante de mim. Não ouço sua respiração ou seus batimentos. Não vejo nenhum movimento. Só vejo sangue. Ele a matou. Como se ela fosse uma boneca da qual não gostasse e pudesse simplesmente arrancar-lhe a cabeça. — Gal!  —   Grito desesperada. Não. Não. Isso não está acontecendo. Eu quero Gal de volta. Quero poder conversar com ela o dia todo. Quero poder sair com ela desse ligar juntas e unidas. É difícil tentar me convencer de que isso não é real, mas estou perdendo a noção do real e imaginário, se é que imagino coisas. Estou perdendo as forças, a coragem, a vontade de lutar por algo ou alguém. Eu só quero me embolar em um abraço e chorar para o resto da minha vida. Eu continuo gritando, mas ninguém vem ao meu encontro. Eu sou invisível pra eles. Esse lugar, esse lugar está me enlouquecendo. Eu não posso continuar aqui.                                                                                   ❦❦❦❦❦❦❦
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR