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Dói você se sentir como se não tivesse ninguém que pudesse confiar. Sem família, sem passado, sem amigos. Eu vejo pessoas ao meu redor o tempo todo e não consigo me reaproximar de nenhuma delas.
Eu me sinto sozinha. Um vazio se impregnou em mim e não pretende sair de forma alguma, como se estivesse me afundando em alto mar.. me puxando pra baixo.. Meus pensamentos martelando o tempo todo em meu cérebro, em uma canção estridente e socorrista, berrando em minha mente como se eu pudesse fazer algo a respeito.
Preciso de ar.
Preciso retornar a superfície.
Eu não consigo confiar nem mesmo em mim. Tenho medo de saber o porquê que estou aqui e descobrir que realmente não me encaixo ao mundo humano.
O dono do hospício, me disse ontem que minha família não veio me visitar, porque todos estão mortos.
Depois daquela noite, as pessoas seguiram em frente. Encontraram Gal morta depois de algumas horas, porque não acreditaram na minha história, acharam que eu estava gritando porque queria fugir.
O problema de todos aqui é pensar como se eu fosse a droga de uma garota que não pudesse ter sentimentos. Eu não sou um robô, estou sendo entupida de remédios todos os dias mas eu também me apavoro, eu tenho o direito de me rebelar, de ser... de ser eu mesma.
Eu não preciso fugir desse lugar, só desejo ser compreendida. Quero que alguém me ouça verdadeiramente, sem me olhar como se eu fosse uma pessoa insana que não entendesse de nada.
Gritar pedindo ajuda enquanto uma pessoa morre e ser ignorada por pensarem que você estivesse em uma crise; isso me deprime.
Eu sou apenas mais uma paciente nesse lugar imenso sem brilho e sem compaixão.
Nesse lugar, eu não existo. Quando decido fazer qualquer coisa, qualquer coisa, sou entupida de remédios mais e mais vezes. Até que eu seja novamente um zumbi mudo e paralisado, aceitando tudo o que quiserem que eu aceite.
Tudo está a mesma coisa. Apenas eu estou diferente, sentando em uma mesa no canto onde não posso ser vista, comendo menos, não resistindo a remédios ou reclamações. Aceitando desaforos, pois não me importo mais com suas opiniões. Tudo o que faço está sempre errado, então tudo o que faço é comer e dormir, comer e dormir, diariamente.
Não tenho mais forças para existir, nem mesmo para morrer. Ando como se já não houvesse esperança alguma.
Preciso de ar.
Preciso voltar a superfície.
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Estou no meu quarto, me preparando para dormir novamente, quando escuto a porta batendo. Não deve ser nenhum trabalhador, porque eles costumam ir entrando. Só pode ser Jany, mas ela não conversa comigo e a única pessoa da qual tive um contato aqui foi Gal e...AH NÃO!
— Vá embora! — Eu grito.
— Só quero conversar. — Ele falou.
— Me deixe em paz. — Berro.
Não a nenhum segurança para tirar esse verme da minha presença?
— Antes de gritar e fazer escândalo, como sempre faz, eu só queria que você procurasse me ouvir. Parar de achar que está sempre certa e...
ELE ESTÁ ME JULGANDO? Nesse justo momento, onde ele acabou de matar a minha amiga, ele continua agindo como se nada tivesse acontecido? Como se eu não tivesse o direito de gritar para que ele desapareça da minha frente? Quem ele pensa que é?
— Eu não estou te julgando. Apenas saiba que o que fiz, tive motivo. E me arrependo? Sim, mas apenas por sua causa. — Ele retomou a voz, esperando que eu falasse algo.
Que é claro que continuei em silêncio, rezando para que aquela porta nunca fosse aberta.
Mas ele abriu aquela porta normalmente depois de um tempo, ao ver que eu não abriria. Ele tinha aberto aquela porta como se não tivesse trancada de muitas formas diferentes. Seria um ótimo momento para fugir, sair em disparada daquele quarto, mas como se ele já soubesse, agarrou meu braço com força, me impedindo de sair. Ele parecia ser feito de algum material sob humano, não havia como ser tão forte. Tudo o que fazia em resistência, como chutes, socos, gritos, nada disso parecia sequer fazer cócegas nele.
— Então fale. — Disse no tom mais baixo possível. Nem eu acreditava que estava lhe dando uma chance, uma maneira de tentar me explicar o que é inexplicável.
Ele soltou meu braço e então...me contou.
— Eu nasci em junho de 1857, na Colômbia. Vivia em um ambiente muito pobre e miserável. Sem dinheiro para comprar comida ou qualquer outra coisa, acabei morrendo de fome com meus três irmãos.. mas eu fui "ressuscitado", nem mesmo acredito em minhas palavras quando as digo. É estranho estar morto e de repente, estar completamente lúcido e mais vivo do que nunca. — Ele fixou seu olhar em minha expressão confusa, me lançando uma feição como se dissesse "continue me julgando de louco, eu não ligo" — mas eu comecei a sentir uma sede ardente e sufocante, não importava o quanto de água ingerisse, eu sempre continuava com sede.
— Mais tarde eu pude conhecer James, um ser como eu, que me explicou que o que sentia era desejo por sangue, um ardor incontrolável e incurável. Desde então eu me mudei para um lugar isolado, onde eu saciava minha sede sem nunca ser descoberto; pois havia lideres dessa espécie, que James nunca contou exatamente seus nomes, mas que agiam secretamente para controlar o mundo subumano.
— Eu não sei o nome de quem me fez assim, de quem me deu uma nova vida ao procurar beber quase todo o meu sangue. Eu não sei muito sobre quem eu sou e quero apagar todo o m*l que causei. Mas.. Eu sou um vampiro. Eu não posso mudar.
Eu não conseguia digerir o que ele dizia, aquilo parecia tão ilusório e ao mesmo tempo tão nítido e real, como se realmente aquilo fizesse sentido, pois ele não parecia humano.
— Gal iria para a área de isolação, naquele lugar acontecia de tudo, os pacientes eram jogados lá para morrer. Morriam de fome ou sede, maltratados, jogados fora como vermes. Eu a matei, pois sou um bicho faminto, mas ela morreria muito pior. Minhas presas são essas, são aquelas em que já estão morrendo, em que de forma alguma haveria escapatória. Isso me faz sentir menos culpado.
— Eu a matei o mais rápido possível, ela não sentiu nenhuma dor sequer. — Ele continuou. — Não senti como se devesse dizer isso, mas está decepcionada, abalada. Sei que lhe devo uma explicação e só gostaria que você me compreendesse e pudesse me perdoar.
Meus olhos começaram a derramar pequenas lágrimas, as que tinha segurado por meses.
Ele me olhava ansioso, procurando por perdão, mas não havia perdão para o que ele fez.
— Gal morreria do pior modo possível por esse lugar imundo, por gente r**m, mas não foi isso o que aconteceu. Você a matou.— Falei. — Você tirou qualquer esperança que poderia ter sobre esse lugar.
Ele tentava continuar, dizendo que sentia muito, que pararia com isso, que ele fez o certo. Ele odeia esse lugar, essas pessoas cruéis e nojentas, que ele não era como elas.
Mas eu só ia me fechando, ele não conseguia me convencer. Eu não podia responde-lo, porque as palavras tentavam, mas não conseguiam sair.
Quando ele me pediu perdão novamente, consegui olhar fundo em seus olhos. Seus olhos estavam vermelhos, como um demônio.
— Você a matou. Você é o assassino.
Ele negou com a cabeça.
— Eu não a matei, eu a libertei. Ela precisava disso, talvez mais do que eu.
Fico pensando que talvez um dia ele estará com sede e eu serei a próxima. Eu não posso conviver com alguém da qual me sinta insegura.
Ele me puxou para um abraço forçado, e quando reparei, estava ajoelhado perto de mim.
E então, de repente, comecei a rir.
— Para um ser que se diz tão c.ruel, você é até muito sentimental. — Eu disse, enquanto continuava rindo.
Ele ficou confuso com essa mudança repentina de assunto, e embora ele queira comentar, agora era minha vez de falar.
— A morte de Gal me fez abrir meus olhos, como tudo está claro agora.
— O que quer dizer?
— Quero dizer que, embora você tenha sido um cretino, esse lugar também é tão c***l quanto você.
— Ahn, sim. Eu também concordo.
— Por Gal, Blaine, eu te perdoarei.
Ele abriu um sorriso largo.
— Desde que você se vingue por ela. — Falei.— Nós precisamos queimar esse lugar.
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