Fogo.

2816 Palavras
                                                                                           ❦❦❦ Estou muito ansiosa, sinto meus nervos pularem do corpo. Fico imaginando todas essas pessoas queimando pelo que fizeram. Por todas suas curas mentirosas, toda sua alusão e método abusivo. Criminosos doentes. O mundo vai ser melhor sem eles. Blaine bate na porta e a abre sozinho, já que ele tem essa força que não tenho. Ele me perguntou como sabia que Gal morreria naquele lugar e eu decidi dizer a verdade, embora não tivesse fé que ele fosse acreditar em mim. Sua expressão foi confusa quando disse que posso ver o futuro, mas não foi atordoada.  Ele acreditou tão facilmente, como se eu não tivesse afirmado o motivo de estar aqui e ser acusada de feiticeira e louca pelos meus próprios vizinhos. Ele disse que traria alguns objetos amanhã, e antes que continuasse, falei "algodão e maças''. Rimos juntos, porque começamos a levar meu "superpoder" como uma brincadeira em que fazíamos.  Eu não me sentia bem com sua presença depois do ocorrido com Gal, e embora eu ainda não confiasse nele, era como se as coisas tivessem se amenizado. E assim foi passando o tempo, não havia mais Gal, mas ainda havia uma parte de Blaine. Eu me reaproximei do seu lado "bom". Viramos mais amigos do que éramos.  Com o tempo eu quase me esqueci que ele era uma criatura que se alimentava de sangue. Um dia como qualquer outro, eu decidi enfim comentar sobre o plano do incêndio que faríamos. — Como vai ser exatamente? — Perguntei depois de relembrá-lo sobre que queria queimar esse lugar. — Você não falou aquilo sério, falou? — Ele diz. — Nunca tive tanta certeza. — Mas você já pensou no que está realmente querendo? Você matará pessoas inocentes. — Eles não são inocentes! — Gritei. — Não discordarei de você — ele falava calmamente — apenas acho que você não quer fazer isso de verdade, está fazendo por impulso. — Aquelas pessoas.. elas merecem morrer. — Falei. Ele suspirou. Ele não queria me ajudar, mas não me importo com o que ele queira. — Vai ser só eu e você, Blaine. Depois que sairmos daqui, vai ser apenas nós dois. Juntos. Eu me aproximo dele e o abraço. — Precisamos de um tempo pra planejar tudo com mais calma. — Ele falou, parecendo receoso. Como se eu fosse mudar de ideia. — Hoje à noite. — Reafirmei. — Tudo bem... Vamos tentar algo.. Sorrio. — Fico feliz por me ajudar. Você deve isso a Gal, você sabe disso.                                                                                              ❧ Conversamos a tarde inteira e não peguei no sono a noite. No fundo estava desesperada, apenas porque tenho uma impressão r**m. Porém, em algum momento da nossa conversa, eu acabo por receber como um choque e começo a ver outro cenário com outras pessoas.  Um vampiro letal está à solta e ele ama perseguir pessoas queridas por outros vampiros.  Eu sou querida pra Blaine e então ele cumprirá com seu hobby. Em minhas visões, a maneira como ele me mata, é muito pior do que a morte de Gal. Nenhuma da qual já tinha visto. Ele gosta de torturas. Eu corro muito, minhas pernas doem.  Ele me devora pouco a pouco, ele me bate, me da socos, me humilha.. ele me diz como isso é divertido...   Eu volto à realidade e encaro meu amigo que estava do meu lado, perguntando diversas vezes se eu estava bem. Não está nada bem. A não ser que... Não, não posso fazer isso. Mas, se bem que ser forte, imortal e fazer tudo o que quer quando bem querer, é uma ideia tentadora. E mesmo se me parecesse uma ideia horrível, era a única que tive para conseguir sobreviver. Estou acreditando em minhas visões, faço o possível para que esta não se realize.  Não sei se de fato enlouqueci ou se sou mesmo uma feiticeira. A vida não é algo em que eu acho prazeroso ou alegre, mas não estou pronta para morrer.  Ser vampira não deve ser tão difícil assim. E eu posso me controlar, muito mais do que Blaine. Eu serei diferente, não serei uma assassina compulsiva. Eu espero não ser.                                                                                               ❧ Já estava tudo pronto ás 18 horas, embora não tenha comentado nada sobre minha visão anterior pra ele, mesmo que tenha insistido bastante.  Blaine saiu do hospício um pouco antes de anoitecer, aproveitando que o o dia estava nublado e me trouxe uma grande quantidade de álcool. Não sei como ele conseguiu trazer aquele material, mas estava tão absorta em minha vingança que nem sequer havia me lembrado de perguntar. — Tome cuidado.— Ele falou. — Começaremos pela madrugada. Se conseguir tudo hoje, vai dar tudo certo.                                                                                           ❧ Ele abriu a porta do meu quarto trancado com sua força, mas dessa vez sua pressa fez com que arrancasse junto a maçaneta. Juntos derramávamos álcool em todo o lugar, abríamos as portas onde os pacientes estavam e mandávamos que eles corressem.  Eles estavam saindo tranquilamente para fora do manicômio, sendo guiados por Blaine, que havia feito uma própria passagem discreta em um curto período de tempo. Enquanto ele tirava todos daqui, eu continuava absorta em jogar todo o litro de álcool em toda a área, até que o vejo aparecer novamente, olhando em expectativa pra mim. — Está na hora.— Ele avisou. Ele pegou o isqueiro (morria de medo daquilo, era moderno e tudo o que é moderno me assusta) e colocou em minhas mãos. Estava deixando tudo por minha responsabilidade, estava lavando as mãos. Mas ele está junto nessa comigo, ele é culpado por tudo... Ou talvez não. Talvez ele não seja culpado por isso.  Enquanto segurava o isqueiro, minhas mãos tremiam. — Não posso. — Sussurrei.  Meu Deus, o que estou fazendo? Eu estou pronta para...para fazer a maior loucura que já pensei... em toda a minha vida.. Quando me assusto, estou chorando. — Alice — Ele murmurou meu nome. Estava com pena? Compaixão? Ou ele tentava ser gentil ao constatar que eu era uma tola? Ele me abraça. — Não posso fazer isso — Digo. Ele me olha intensamente. — Essa não é quem você é. Então me rendo ao seu abraço, me rendo ao meu choro e guardo o isqueiro no bolso da minha calça. Era um bolso muito pequeno para evitar que os pacientes colocassem fazas ou isqueiros ali, mas foi o suficiente para colocar o isqueiro, que ficou bem apertadinho com menos chance de cair. E então ouço um barulho. Ele chegou. James, meu assassino. Ele chegou. Não.. ele vai chegar..  Está correndo incansavelmente.. Ele quer a minha carne.. Ele quer todo o meu sangue.. Eu preciso correr. — Tem como ser uma de você, sim? Me disse que alguém havia feito isso.. Me transforme... Ele me olha surpreso.  — O que está acontecendo? — Ele me pergunta assustado. — Não sei. — Eu realmente não entendia o que estava pensando. — Não importa. — Eu o encaro, negando com a cabeça. — Está tendo alguma visão?  Confirmo com a cabeça. — Nunca será mais como é agora. — Ele murmura calmamente.  — É o que quero. — Digo apressadamente. — Quero arrancar esse corpo frágil de mim. Quero ser melhor. Ele me levou a um lugar mais isolado do manicômio. Depois me puxou pra perto, bruscamente deixou seus dentes afiados à mostra e mordeu meu pescoço.  Sinto uma dor agoniante, como facas enfiadas repetidas vezes em meu corpo. Estou sendo totalmente espancada por dentro. Estou sendo torturada.  Meu corpo não quer aceitar o que estou me tornando, tudo arde, até mesmo meus olhos. Me debato no chão automaticamente, sem conseguir ter algum controle do meu próprio corpo.                                                                                               ❧ Quantos horas se passaram? Ou foram dias? Conseguia olhar para o lado às vezes e podia ver que Blaine ainda estava ao meu lado, segurando minha mão. E então ouço barulho de alguém se aproximando. Não foi uma visão dessa vez, eu sabia. Mas não podia fazer nada a não ser sentir dor. Não havia tempo pra pensar, não havia nem como me concentrar no que estava acontecendo. Ele não deveria demorar dias para me encontrar? Escuto os passos do meu amigo saindo da sala onde estávamos, provavelmente para poder ver quem estava chegando. — Que saudades de você, meu amigo — Disse aquele homem das minhas visões. O reconheço pelo seu modo de falar, como exatamente havia escutado. — Nunca pensei em que te veria novamente. Novamente? Eles se conheciam? — Você? — Blaine respondeu como se estivesse com desdém. — O que faz aqui? — Eu? — Ele pergunta — Eu apenas vim me alimentar do que é meu. Eu adoro presas de vampiros apaixonados. Consigo abrir os olhos bem quando vejo Blaine acertar um soco em James, mas depois não vejo nada mais do que vultos rápidos, imagens em velocidade máxima. Meus olhos doem e pisco algumas vezes. Não consigo acompanhar quem está ganhando ou perdendo. Quando abro os olhos de novo, vejo Blaine jogado ao chão. Sem nenhum sangue, mas sem... sem um braço? MEU DEUS. James corre em minha direção, ele ri de mim e consegue entrar na sala que eu estava. Ele me enche de chutes, um após outro, sem cessar. Eu tento ter forças para gritar, mas isso é além do fogo que queima dentro de mim, agora é a humilhação de estar sendo espancada por esse homem. — Foi por causa dela que você me deixou? — Ele perguntou a Blaine, que parecia estar sendo segurado por outro alguém. Então era tudo por vingança? Matar alguém por vingança? Isso é tão doentio. E pensar que eu estava prestes a fazer isso também.. Blaine se recupera dos braços de alguém e consegue chegar até a sala novamente.  Eles continuam brigando em formas rápidas e impossíveis de serem visíveis com clareza. Mas é como se eu estivesse morrendo... Eu estou.. Até que eu não consigo enxergar nada, a escuridão toma meus olhos e o meu corpo se estremece ainda mais. Por que meu corpo não aceita esse veneno que quer entrar em mim? Por que ele insiste em resistir? E então uma mão me agarra por trás, me puxando com força, me levando até a parede. — Continue lutando com ele, amor. Eu trago ela até você. — Disse uma voz feminina. Eu reconhecia aquela voz.. Era Victoria, eu tinha certeza. Eu reconheceria essa voz em qualquer lugar, pois ela havia me humilhado com palavras durante um bom tempo. Estava sempre com uma expressão séria e hábitos impacientes. Sempre disposta a descontar seu ódio em algum paciente. Tento me desvencilhar de seus golpes, mas ela é forte e rápida demais. Ela era uma vampira? James a transformou? Por que ela está me atacando? Ela começa a me arrastar em outra direção, puxando meus braços, tão bambos com sua força que pareciam que iriam se arrancar sozinhos..  Eu quero morrer, é tudo o que eu preciso nesse momento. Eu não aguento mais tanta dor... — Já vai aceitar a derrota? — Ela me pergunta friamente. — Saiba, Alice, eu faria qualquer coisa por ele, porque o amo.  — Você quase ajudou a gente. — Ela retomou. — A gente tem vigiado vocês dois por um tempo. Até deixamos você continuar com o seu planinho. Explodindo o lugar poderíamos colocar a culpa toda em Blaine depois que te matássemos. Seria legal. Mas você é inconsequente, imprevisível, gente assim não dura muito. — Você estragou tudo, Alice.— Ela voltou a dizer, rindo. Eu consigo ter forças para abrir os olhos, mas acabo me arrependendo.  Eu acabo por ver James arrancando a cabeça de Blaine, que voou pelo salão como se fosse uma bola de futebol. Assim, de repente. Como se fosse apenas um objeto. Como se não fosse nada. James e Victoria estavam se divertindo e se beijando. Devem achar que estou incapacitada demais, mas estou determinada.  Sem conseguir enxergar direito novamente, como uma visão escura e logo em seguida um clarão, tudo girando e sem exatamente ver alguma forma, eu acabo por me arrastar até a porta mais próxima. Eu pego o isqueiro que tem em meu bolso, o acendo e depois o lanço em direção aos dois ordinários. Fecho a porta depressa. Eu não sei o que houve com os dois depois disso, eu apenas sinto minhas pálpebras não aguentarem mais ficar abertas... E como se não bastasse, o meu corpo começa a tremer compulsivamente de novo. A luta entre o meu corpo e a minha alma começou a ficar ainda mais forte, se é que isso fosse possível. O sobrenatural querendo entrar em algo que já está morto. Eu vou sobreviver? Porque tudo o que eu pensava sobre a vida pareceu não ter importância diante daquele fogo me invadindo... Eu só quero que acabe...                                                                                               ❧ Eu acredito que foram três dias em um tormento entre a vida e a morte. Quando acabou, eu pensei que estava em outra dimensão, mas eu estava no mesmo lugar que havia estado, em uma porta dos fundos fechada, com um monte de cinzas espalhadas na minha frente. O hospício tinha queimado, mas eu não me senti vitoriosa depois disso... Eu me sinti sozinha. Como o primeiro dia que me lembro, no qual acordei em um local estranho, com pessoas estranhas, que agora são apenas borrões. Tudo é como um rabisco, como.. como se eu nunca estivesse existido.. Como se tudo fosse um sonho e eu nunca tivesse sido humana. Eu não me lembro de quase nada, a não ser eu querer tacar fogo nesse lugar por ter estado nele e... Eu não sei quem eu sou e nem o que farei de agora em diante. Minhas pernas me levam para o quintal do hospício, onde ainda haviam cinzas e ratos. De repente, posso enxergar tudo melhor do que antes e escutar melhor. Me sinto mais forte e mais atenta. Uma sede incessante fica em minha garganta e de repente os ratos pareceram muito saborosos.                                                                                                ❧ Jasper Hale. Ou melhor, Jasper Witlock, futuro Jasper Hale e meu futuro marido. Ou é isso que diz minhas visões. Me agarro a isso como uma nova esperança. Jasper me trará luz, me trará felicidade, me ensinará mais sobre meu próprio corpo. Minhas visões afirmam que ele está comprometido com outra vampira e matando quase toda a população do Texas, para marcarem o seu território. Mas, ele vai estar tão arrependido.. Ele.. Ele odeia tanto a si mesmo e.. e ele me amará tanto.. Eu estou tentando voltar ao normal, embora nem sempre consiga controlar meus instintos. Não tenho orgulho de algumas coisas que vi, como beber sangue que achava nas calçadas, como sobras de algum acidente ou ferida. Bebendo sangue de animais sempre que podia e não resistindo ferir alguma pessoa quando ela se cortava ou estava com algum ferimento aberto.  Eu estou tentando ser melhor. Quando mato, tento ser rápida, mas isso não tira a dor que eu sinto. Eu tento apagar da minha memória o que fiz, apagar o sofrimento que causei a outras pessoas. Nunca estou cansada. Nunca durmo. Não consigo apagar o que fiz. E quero Jasper, mais do que nunca. Mas ao mesmo tempo, quero esquecê-lo, pelo menos por enquanto... Porque não será agora que poderei tê-lo e amá-lo me causa muita dor.                                                                                                  ❧ Eu estava andando pela cidade, estranhamente feliz com a sede saciada, quando um homem que estava cercado de pessoas ao redor, me avistou e foi até mim. Me entregou um panfleto e perguntou se gostaria de fazer inscrição. "Estúdio de Modelos Perfeccionistas " Ri no início. Modelo? — Com licença, senhor, o que isso significa? — Estamos fazendo testes com garotas. Você se encaixa bem no modelo da nova sociedade. Branquela, magrela. Um rosto sem espinhas. Perfeito! Nunca achei que ser branquela e magra ia ser uma qualidade. Mas, o que a mídia impõe as pessoas seguem, sem nem perceber. Mas por que não? Eu sou bonita sim!  Todos tem seu modo lindo de ser e o meu é esse. Talvez pudesse mudar meu estilo de vida. Ser uma pessoa normal, trabalhar, ganhar dinheiro.  — Caso você se interesse, lembre-se que você precisa ao menos ficar seis horas em pé no teste. Se prepare, pois não é fácil. O senhor foi se retirando, quando escuto o que ele sussurrar de longe para o amigo: — Novata e jovem demais, vai cansar rápido. Essa daí não vai conseguir. — Talvez não, ela até é bonitinha. — Duzentas inscrições em duas semanas e ela a escolhida? Duvido. Ha ha, o que ele não sabe é que não sou uma pessoa comum, não sou nem uma pessoa. Na verdade, essa dúvida só me fez animar ainda mais. E o que mais me anima é saber que já vou ser escolhida. Bom, o futuro me disse. Odeio o futuro por sempre estragar a minha surpresa, mas dessa vez até que não foi r**m.                            
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