Capítulo 3

1805 Palavras
Cameron O vovô anda mancando e se apoiando em uma bengala. Ele está na casa dos oitenta e ainda faz uma caminhada de três quilômetros pela natureza selvagem do Texas todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, calor ou frio, embora seja principalmente apenas calor. Ele para no topo de uma elevação, e nós observamos o sol se derramar sob as colinas. Tenho que admitir que é uma bela visão: grama dourada ondulada na brisa da manhã enquanto a luz vermelha e laranja brilha através do céu. — Não sei quantos desses ainda me restam, Cameron — diz o vovô sem olhar para mim. Não sei bem como responder, então não digo nada. É melhor deixá-lo aproveitar do que estragar tudo, mas posso dizer que a mente do vovô está em outro lugar. Ele tem estado quieto nos últimos dias, o que não é do feitio dele. Meus primos têm estado em cima dele, perguntando o que há de errado, mimando-o como crianças, como se ele fosse um inválido ou algo assim, e posso dizer que isso o está irritando. Mantive distância e esperei, e agora sou recompensado com isso. Uma caminhada ao raiar do dia. Mas eu sei que é importante, senão ele nunca teria me trazido. O vovô gosta de fazer caminhadas sozinho, a menos que tenha algo grande em mente. — Vamos — ele rosna e se move novamente, acelerando o ritmo enquanto descemos a colina e fazemos uma curva ao longo de um caminho que contorna um vale raso. — Tenho pensado muito no seu pai, Cameron. Há quanto tempo ele se foi? — Dez anos — digo e olho para a escova, lembrando-me do corpo retorcido e quebrado do meu pai caído no pé da escada. — Dez anos. Parece que foi ontem que meu filho ainda estava comigo. — Vovô ri amargamente. — O tempo passa rápido quando você chega na minha idade. — Por que você está pensando nele? — Eu pensei que seu pai me sucederia um dia. Esse era o plano por muito tempo. Minhas sobrancelhas se erguem. — Isso é novidade para mim — digo, e estou praticamente zumbindo de excitação. O vovô nunca, nunca discute sucessão, nem mesmo quando perguntado diretamente, e esta é a primeira vez que ele sequer menciona a possibilidade. Eu não sabia que meu pai era o primeiro da fila e duvido que qualquer outra pessoa soubesse, incluindo meu velho. Caso contrário, ele poderia ter se recomposto, forçado a ficar sóbrio, e ele ainda poderia estar aqui hoje. — Não fique tão surpreso. Seu pai era o único que realmente se importava com o restaurante. O resto dos meus filhos inúteis acha que é abaixo deles administrar uma rede de restaurantes, mas eles não entendem o valor do trabalho duro. Eles só veem o nome da nossa família e acham que isso deveria ser o suficiente. — O vovô cospe no chão e balança a cabeça. Ele é um velho bastardo rude, um tipo de texano corajoso e esforçado que acha que ainda é um cowboy, embora passe a maior parte da vida no luxo e não ande a cavalo há pelo menos vinte anos. — Estou mais surpreso que você esteja trazendo isso à tona. Todos nós notamos que você não gosta de discutir sobre seu sucessor. — Vovô bufa. — Você gostaria de falar sobre isso? Você quer falar sobre como você vai ser colocado no pasto um dia? — Não, mas é sensato ter um plano. — Eu tenho um plano. — Sua mandíbula se move por um momento e seu ritmo diminui. — Eu fiz muita coisa na minha vida, Cameron. Eu comecei a Madero quando a família estava no seu pior momento e salvei todos os nossos traseiros criando um império. Eu ganhei apostas, casei com mulheres bonitas, tive uma família grande, viajei pelo mundo. Eu matei um touro na Espanha e beijei uma garota na Torre Eiffel. Eu fiz tudo o que eu sempre quis, e ainda estou inquieto. — Você teve uma vida infernal. — Eu sorrio para ele firmemente e não me incomodo em mencionar a sequência de divórcios e a longa lista de escândalos e confusões que ele causou fazendo o que quer. Não que eu possa culpá-lo — na posição dele, eu teria feito exatamente o mesmo. Poxa, eu ainda estou planejando isso, e é por isso que estou aguentando essas bobagens desconexas dele. — Uma vida e tanto — ele concorda, balançando a cabeça. — Mas ainda não acabou e ainda há trabalho a fazer. Há um objetivo que nunca alcancei, e é o único objetivo com o qual mais me importo neste mundo. É por isso que você está aqui. — Seja o que for, ficarei feliz em ajudar. — Não me bajule, p***a. Já estou farto dos seus primos enfiando o nariz na minha merda e cheirando e me dizendo o quão bom é o cheiro. — Ele para e enfia um dedo no meu peito. Tenho um momento estranho em que me lembro de outra vez em que alguém fez exatamente isso comigo, exceto que ela era jovem e estúpida e tentava ser sedutora, enquanto o vovô é velho e inteligente e está tentando me intimidar. Estranho como o mesmo gesto pode significar duas coisas completamente diferentes. — Vou pedir para você fazer algo difícil. Você não vai gostar. Mas se você conseguir, prometo que farei valer a pena o esforço. Eu o encaro. — Você me fará seu sucessor. — Claro que vou. — Ele me encara de volta, o que significa que isso é grande. Isso é muito grande. Estou suando agora, o coração disparado. Isso é o que eu sempre quis a minha vida inteira — minha chance de sentar à frente da família e comandar o império Arc, e tudo o que eu tenho que fazer é riscar um último item da lista de desejos do vovô. Se o velho quer que eu o carregue de cômodo em cômodo em algum bordel doentio e sujo nas profundezas mais profundas e sombrias da Rússia Siberiana, eu farei isso, p***a. Eu farei qualquer coisa para que isso aconteça. Anos e anos de trabalho duro me trouxeram a este momento. Anos lutando contra meus primos, lidando com suas besteiras, suas traições, suas mentiras de duas caras, suas agressões. Anos trabalhando diligentemente na empresa e não aceitando desaforo de ninguém. Anos com meus tios me desprezando, com minhas tias falando m*l de mim pelas costas, tudo para acabar nessa caminhada com esse velho no deserto. Estou tão perto. Tão perto pra c*****o. Está bem ali e tudo que eu tenho que fazer é pegar. — O que você precisa de mim? — Você conhece a família Lawrence. Isso não é uma pergunta. Todo Rockwell conhece os Lawrences. Há uma rixa que remonta aos nossos dias de criação de gado e, por algum motivo, o vovô está se apegando a ela mais forte do que a maioria. Ele despreza Richard Lawrence, o atual chefe da família Lawrence, talvez porque a família deles seja tudo o que costumávamos ser: ricos independentemente, politicamente a influentes, imensamente poderosos. Perdemos tudo isso graças aos maus investimentos do pai do vovô, e só conseguimos recuperar uma parte de nós mesmos por meio da engenhosidade do vovô. Eu nunca dei a mínima para essa rixa. Lawrence, MC laren, hilton, eu não dou a mínima para sobrenomes. O Vovô e os outros podem se distrair com fantasias estranhas de vingança, como se fôssemos a versão rica dos Hatfields e dos McCoys, mas a ideia de odiar algumas pessoas só por causa de merdas que aconteceram antes de eu nascer é extremamente absurda. Ainda assim, o vovô é a espinha dorsal da nossa família. Ele é o solo em que todos nós estamos plantados. Sem ele, não sei o que seríamos, e todos nós lhe devemos respeito. Continuo dizendo isso a mim mesmo, mesmo que eu ache que essa rixa seja infantil. — Você nunca me deixou esquecê-los — digo com um sorriso forçado. Ele resmunga em resposta. — De tudo que eu queria fazer, destruir aquela família sempre me escapou. Não me olhe assim, garoto. Eu sei que pareço um vilão de história em quadrinhos agora, mas é a maldita verdade. Tenho oitenta e cinco anos, e é hora de eu me aposentar, mas não antes de destruir aqueles idiotas de Lawrence tanto que eles nunca me esquecerão, e eu quero que você seja minha arma. Vovô para de andar e me encara novamente. Eu o encaro vibrando com a energia. Finalmente, finalmente, o velho bastardo está falando sobre aposentadoria. Ele tem oitenta e cinco anos e mais do que a idade em que deveria ter desistido do controle, mas finalmente chegou a hora, e tudo o que tenho a fazer é jogar junto com seu pequeno delírio de vingança. — O que você quer que eu faça? — Tem uma moça. Ela é a neta mais nova de Richard. A mãe é aquela v***a drogada da qual eles sempre têm tanta vergonha. Ouvi dizer que Richard está procurando um bom par para ela e planeja casá-la em breve. — Ele se aproxima de mim. — Quero que você intervenha. Seduza-a. Case-se com ela. Destrua-a. Encontre algo que eu possa usar contra aquela família. Meu sorriso aperta. — Você quer que eu me prostitua? — Eu quero que você f**a eles. f**a a garota também, por mim, embora eu tenha ouvido que ela não é nada especial. — Por que Richard me consideraria? Ele odeia você tanto quanto você o odeia. — Ele não faria isso, mas a garota pode. Convença-a. Não importa como. Eu respiro fundo. Isso parece profundamente, profundamente errado, e é a última coisa que eu quero fazer — por que arrastar essa pobre garota para essa merda estúpida? Mas eu faria qualquer coisa para assumir o controle da família, e se eu tiver que f***r uma garota estúpida de Lawrence para fazer isso, então eu vou colocar meu melhor terno e meu melhor sorriso e comer sua b****a até que ela conte todos os seus segredos. — Qual o nome dela? Ele começa a andar novamente. — Kaylee Lawrence. Atende por Kiki. Encontre-a, conquiste e me dê alguma vingança. Você pode fazer tudo isso e a família será sua. Mas não demore muito, garoto. Eu não tenho a vida toda. Eu aceno e deixo o vovô assumir a liderança. Olho para a grama, para o vale, para os arbustos e as pedras, e para o sol subindo no céu, e me pergunto até onde irei por isso, o quanto de mim estou disposto a dar a esse velho. E eu sei que desistiria de tudo, faria qualquer coisa, mataria qualquer um para conseguir o que quero. Incluindo Kiki Lawrence.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR