Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — A Noite Antes do Inferno
— Você só pode estar brincando.
A voz de Aurora Bellini saiu baixa, mas carregada de incredulidade. Seus olhos castanhos brilhavam de raiva enquanto encarava os pais sentados à sua frente na enorme sala de estar da mansão Bellini, em Milão.
Sua mãe evitava seu olhar.
Seu pai parecia dez anos mais velho naquela noite.
Isso só a deixou ainda mais furiosa.
— Eu não estou perguntando, pai. Estou dizendo que isso é uma piada de muito mau gosto.
Giorgio Bellini passou a mão pelo rosto cansado.
— Aurora…
— Não! — ela interrompeu, levantando-se bruscamente. — Você quer me dizer que eu vou me casar… com um homem que eu nunca vi… por causa de uma dívida?!
Silêncio.
E aquele silêncio foi a confirmação mais c***l de todas.
Seu peito apertou.
Seu estômago revirou.
Seu sonho de casar por amor… simplesmente esmagado como se não valesse absolutamente nada.
— Eu sou sua filha, não uma moeda de troca!
Sua mãe finalmente falou, com a voz embargada:
— Estamos fazendo isso para proteger a família.
Aurora riu, sem humor algum.
— Proteger? Vocês estão me vendendo!
— Seu pai pode ser preso! — sua mãe disparou. — Você não entende a gravidade disso!
Ela virou lentamente para o pai.
— É verdade?
Giorgio abaixou a cabeça.
Aquilo foi pior que qualquer resposta.
Aurora sentiu os olhos arderem.
Traída.
Humilhada.
Aprisionada.
— Quem é ele?
Seu pai respirou fundo antes de responder:
— Dante Moretti.
Ela congelou.
Claro.
Tinha que ser ele.
O homem que a Itália inteira conhecia.
O homem que estampava capas de revistas.
O magnata mais desejado e mais temido do país.
O homem que transformava empresas falidas em impérios milionários.
O famoso Rei Midas.
E também o playboy mais arrogante que ela já tinha ouvido falar.
Dante Moretti.
O homem que nunca amava ninguém.
O homem que trocava de mulher como trocava de gravata.
O homem com quem ela seria obrigada a dividir a vida.
Ou pelo menos… um ano dela.
— Quando?
A resposta veio como uma sentença.
— Daqui a três dias.
Aurora sentiu o mundo desabar.
Três.
Dias.
Ela não chorou.
Não na frente deles.
Apenas assentiu devagar, com uma calma assustadora.
— Entendi.
Virou-se.
Subiu as escadas.
Entrou no quarto.
E quando fechou a porta…
desabou.
—
Duas horas depois, Aurora estava sentada no sofá do apartamento da melhor amiga, com uma taça de vinho na mão e o ódio fervendo nas veias.
— Eu vou matar meu pai.
— Você não vai matar seu pai — disse Giulia, sua melhor amiga, pegando a garrafa e enchendo novamente sua taça. — Mas eu apoio emocionalmente.
Sofia, a terceira do grupo, estava quase engasgada.
— Espera. Você vai casar com Dante Moretti? O Dante Moretti?
Aurora revirou os olhos.
— Sim, o próprio anticristo de terno italiano.
— O homem é absurdamente lindo.
— E absurdamente insuportável.
— E absurdamente rico.
— Sofia!
— Estou apenas observando fatos!
Giulia cruzou os braços.
— Certo. Vamos ao mais importante: qual o plano?
Aurora tomou o vinho de uma vez.
Seus olhos brilharam com algo perigoso.
— Vingança.
As duas se inclinaram ao mesmo tempo.
— Explique.
Ela respirou fundo.
— Se ele vai me receber achando que terá uma esposa perfeita, pura e intocada… ele está muito enganado.
Sofia arregalou os olhos.
— Aurora Bellini…
Giulia já estava sorrindo.
— Eu conheço essa cara. Essa cara significa problema.
Aurora colocou a taça sobre a mesa.
— Hoje eu vou sair. Vou para a boate. E vou perder minha virgindade com um completo desconhecido.
Silêncio.
Depois:
— EU TE AMO! — Sofia praticamente gritou.
Giulia bateu palmas.
— Finalmente! Nasceu uma criminosa nessa família.
Aurora sorriu pela primeira vez naquela noite.
Um sorriso perigoso.
— Se vou entrar naquele casamento, não será como a vítima perfeita.
Sofia apontou o dedo.
— Então temos uma missão.
Giulia completou:
— Encontrar o homem mais gostoso da boate.
Aurora ergueu o queixo.
— E eu fico com ele.
—
A boate Velvet era o tipo de lugar onde pecado e luxo andavam de mãos dadas.
Luzes vermelhas.
Perfume caro.
Música alta.
Homens perigosos.
Mulheres ainda mais.
Aurora entrou usando um vestido preto justo, costas nuas e salto suficiente para destruir reputações.
Naquela noite, ela não parecia a filha obediente de Giorgio Bellini.
Ela parecia tentação.
E sabia disso.
— Certo — disse Sofia, observando o salão como uma caçadora. — Escolha estratégica.
Giulia olhou em direção ao camarote VIP.
E então sorriu lentamente.
— Ah… encontramos.
Aurora acompanhou o olhar.
E viu.
Sentado no centro do camarote, cercado por homens igualmente bem vestidos, estava ele.
Terno escuro.
Postura impecável.
Relógio caro.
Olhar frio.
Presença impossível de ignorar.
O tipo de homem que não precisava pedir atenção — ele simplesmente a possuía.
Mesmo de longe.
Mesmo sem sorrir.
Mesmo sem tentar.
Seu coração tropeçou.
— Quem é ele?
Sofia soltou um suspiro dramático.
— O homem mais perigoso desta boate.
Giulia sorriu.
— Perfeito pra você.
Aurora estreitou os olhos.
— Eu consigo.
— Duvido — Sofia provocou.
— Aposto que ele nem olha pra você — Giulia completou.
Aurora pegou a bolsa.
— Assistam.
E caminhou.
Cada passo firme.
Cada batida do salto uma promessa.
Ela subiu até a área VIP sem hesitar.
Os seguranças tentaram impedir.
Um sorriso bastou.
E então ela chegou até ele.
Dante Moretti ergueu os olhos lentamente quando sentiu sua presença.
E, por um segundo, o mundo pareceu silenciar.
Aurora aproximou-se.
Sem medo.
Sem recuar.
Ela sentou ao lado dele como se pertencesse àquele lugar.
Como se pertencesse a ele.
Dante observou.
Frio.
Curioso.
Perigoso.
Ela se inclinou levemente e disse, perto demais:
— Aposto que você nunca ficaria comigo.
Um canto da boca dele se ergueu.
Finalmente.
Diversão.
— Isso depende.
A voz dele era baixa.
Grave.
Perigosa.
— De quê?
Ele aproximou-se.
Tão perto que ela sentiu seu perfume.
Luxo e pecado.
— De quanto você aguenta brincar com fogo.
Aurora sustentou o olhar.
— Eu não tenho medo.
Ele sorriu de verdade dessa vez.
E foi pior.
Muito pior.
— Garotas que dizem isso geralmente são as primeiras a fugir.
Ela inclinou o rosto.
— Ainda bem que eu não sou uma garota.
Silêncio.
Tensão.
Ele analisou cada detalhe dela.
Como se decidisse algo.
Como se estivesse prestes a destruí-la.
Então disse:
— Eu sou perigoso.
Ela respondeu sem hesitar:
— Ótimo. Eu estava procurando exatamente isso.
Os olhos dele escureceram.
— Se você vier comigo, eu não volto atrás.
O coração dela disparou.
Mas sua voz saiu firme.
— Eu também não.
Dante levantou-se devagar.
Estendeu a mão.
— Então venha comigo.
Aurora olhou para aquela mão.
Para aquele homem.
Para aquela escolha.
Talvez estivesse cometendo o maior erro da sua vida.