• Clara . . .
— Já escolheu a cor que vai passar?
— Já, vou passar essa aqui, ó — falou me entregando um esmalte rosa claro.
Tava no tédio total já, louca pra chegar em casa e descansar. Mas será que ela deixa? Assisti a todos os episódios da terceira temporada de Vis a Vis com ela, fiz bolo e ainda fiquei falando da vida dos outros, já que isso é especialidade nossa. E na hora que eu tô indo embora, ela me inventa de querer fazer a unha.
— Impressionante como ele é mentiroso! Disse que ia resolver problema e agora, na cara de p*u, posta foto em baile, rodeado de mulher.
— Agora você tá vendo como é r**m, né? Lembra que você fez o mesmo com ele?
— Mas isso foi no começo, ele nem lembra mais disso.
— Mesmo assim. Ele só tá fazendo o mesmo que você fez! Sustenta suas gracinhas, parceira. Tá parecendo ciúmes isso aí.
— Ah, tadinha! Eu nem gosto dele tanto assim pra chegar ao ponto de sentir ciúmes. No máximo eu tenho uma quedinha.
— Eu sei bem essa “quedinha” que você tem, viu...
— Você também não pode falar nada, fica aí de implicância com aquele outro. Se eu te conheço bem, na primeira oportunidade tu pega ele.
— Tá de gracinha hoje, hein? Prefiro ficar sozinha! Eu, ficar com um homem insuportável daquele?
— Quem vê assim nem pensa que você também não é. Até nisso vocês dois dão certo — me encarou rindo — é sério, vai me dizer que você não acha ele bonito?
— Acho! Mas do que adianta ser bonito fisicamente e querer se achar superior, só porque é dono daqui?
— Sim. Não que eu esteja defendendo o que ele fez com você, mas você deveria dar uma chance de conversar com ele. Te garanto, ele só tá assim, com essa pose toda, porque você é igual a ele: não leva desaforo pra casa. Tem hora que ele é chatinho, mas pode ter certeza que é uma ótima pessoa. Isso eu te garanto.
— Pode até ser, mas eu não vou dar o braço a torcer puxando assunto. Se um dia a gente conversar, eu tento ser mais legal. Tá aí, parceira, acabei. Ficou lindo porque eu fiz — falei vendo ela tirar foto da unha.
— Nem devia te elogiar porque tu é muito convencida, mas ficou lindo. A unha da cliente também ajuda, né — falou rindo.
— Ata — falei rindo. — Agora eu tenho que ir, já é onze horas da noite — falei arrumando minhas coisas que estavam jogadas pela cama.
— Pera aí que eu levo você lá.
— Precisa não, eu vou sozinha.
— Uma hora dessas?
— Vai dar no mesmo se você me levar, você vai ter que voltar sozinha também.
— Sim, mas acontece que eu sou moradora daqui, geral já me conhece.
— Fica na fé aí, quando eu chegar te ligo — falei saindo do quarto com ela me seguindo. — Tchau, dona.
— Já vai? Achei que você ia dormir aqui hoje.
— Não, amanhã eu tenho que trabalhar cedo e minha mãe já tá ligando aqui também. Vou nessa, beijo.
— Outro pra você, minha filha. Vai com Deus.
— Amém. Me leva lá no portão?
— Não quer mesmo que eu te leve, né?
— Não, tô de boa. Te ligo quando eu chegar, beijo.
Me despedi e segui meu caminho. Como sempre, tava até mais movimentado hoje. Geralmente aqui é mais parado. Só fica cheio mesmo em dia de baile, festa ou algo do tipo.
— Fica de boa e finge que me conhece — falou apertando meu braço e colocando uma arma na minha cintura.
— Calma, por favor, não faz nada comigo — falei começando a entrar em desespero. — Eu te entrego tudo que você quiser, mas não faz nada comigo!
— Não quero nada de valor seu, não, princesa. A única coisa que eu quero aqui é você — falou me puxando pra um beco e me colocando contra a parede, me deixando sem espaço pra sair.
— Por favor, me deixa ir. Olha, eu juro que não conto pra ninguém o que aconteceu aqui — falei chorando.
— Fica suave que eu não vou te machucar, mas pra isso você tem que colaborar comigo — falou tentando me beijar.