Alguém a altura

2535 Palavras
NO DIA SEGUINTE, quando o sol pairava no meio do céu, eu subi o castelo da popa para levar o almoço do capitão, que não largava o leme desde a noite passada, ainda ziguezagueando com o Dergo pelo oceano aberto. Precisei segurar o prato de barro enquanto ele se alimentava com uma mão e com a outra guiava o navio. Demorou até que ele terminasse. Meus braços já doíam e era difícil me manter ereto e parado o tempo todo com o movimento do navio. — Como Caero está? — ele perguntou. Seu novo amigo? — Bem. Ele me olhou e me analisou; senti isso ao ser invadido com seus olhos que em instantes me tiraria alguma informação. — Não precisa se preocupar quanto a sua posição no Dergo. Não inferiorizarei você por ter mais um sumo. O meu plano de fazê-lo viver tudo o que vivo ainda vai continuar. Viverá colado em mim e terá sua parcela de liberdade quando visitarmos as cidades. Nada mudará. Abaixei a cabeça, sabendo que o que ele me prometera não era o que eu estava vivendo ultimamente. Ele vivia me ignorando para estar com Caero. Imagina só quando chegarmos em alguma cidade. Ele irá preferir mostrar o brinquedo novo, que o velho, aos amigos. — Senhor, não precisa se explicar para mim — informei. — Eu sou o seu sumo, só seu sumo. Ele riu, talvez achando graça de minha inferioridade. — Não. Você não é só o meu sumo. — E voltou a olhar para frente, me deixando ansioso pelo resto. Me fazendo até erguer a cabeça e olhá-lo atentamente em busca da continuação. — Não percebe, Telo? — Parecia estar revoltado. — Você é como meu irmão caçula. Sempre esteve comigo; sempre tive que aturar suas esquisitices; suas caras feias ao rir forçado; seu mau humor. Acha que não percebo essas coisas? Senti uma ardência no coração e uma inundação de alegria me tomar conta. Eu era o irmão postiço do meu senhor. — Mas... — Desisti, antes de tomar liberdade e julgar sua definição de irmão. — Fala. — Não, não precisa, senhor. Ele me olhou, desta vez doce. Nunca o vi me olhando assim. — Fala — repetiu. Balbuciei, buscando a melhor forma de lhe dizer aquilo. — O senhor me trata como um nada, me ignora... — Mas não é assim que irmãos mais velhos tratam os mais novos? Ponderei, desviando meu olhar dele e o perdendo na vastidão do oceano. — Alguns, eu acho. — Encolhi os ombros. — Não sei. — E agora que tem idade para ver a vida como um adulto e não mais um moleque, eu estou te inserindo no mundo, te dando a liberdade para se tornar um homem. Eu não faria se você não me pedisse para descer em Andorra. Eu pensei que você não gostava de sair, por isso nunca te sugeri. Mas há muito tempo eu venho querendo isso o que estamos fazendo agora. — Ele olhou para mim. — Meu pai e o seu, me aconselharam, quando criança, a não fazer isso; e na adolescência e juventude era Onmbo. Mas você sempre foi aquele pestinha que me atormentava. — Ele sorriu. — Lembra como você era uma espoleta na infância? Sempre queria brincar, dar palpites, sempre tinha voz no trio, até que de tanto eu te recusar, te limitar, acabou se fechando como todos os sumos. Pensei em dizer que não era sua culpa eu ter me fechado, mas calei-me. Eu não poderia interrompê-lo. O esqueleto de Jado sairia do mar e me carregaria com ele. Só que segundos se arrastaram num silêncio vergonhoso, e vendo que ele já tinha terminado de falar, ousei explicar: — A alegria é só uma fase da infância. E ela sempre passa, capitão. Mesmo se você não me recusasse sua amizade na infância e adolescência, ou me interrompendo de falar algumas coisas, por me lembrar que eu era só seu sumo, eu perderia aquela alegria constante. O capitão balançou negativamente sua cabeça, e mechas soltas de seu cabelo voaram. — Eu não acredito. Eu estava bêbado, mas me lembro muito bem de como você dançou, sorriu e gargalhou. Você até cantou lá na taverna. Abaixei a visão e percebi um calor subindo às bochechas. — O senhor não deveria me dar essa liberdade — comentei. — Isso está me fazendo sentir coisas que eu me desacostumei a sentir. — É a intenção! — ele exclamou, me olhando. Parecia entusiasmado com a ideia. — É perigoso para um sumo sentir, senhor. Ficamos audaciosos, e não sabemos controlar direito o que sentimos a princípio. Ele formou um belo sorriso no rosto e voltou a olhar para a imensidão do mar. Fiz o mesmo e percebi nuvens negras se aproximando. — Percebi — ele respondeu. — Mas foi a minha intenção, Telo. Eu não gostava de como o Vitto te tratava. Ele fazia isso com você desde quando você era mais novo, mas ultimamente comecei a me incomodar. Eu mesmo me sentia incomodado pelo modo como eu te tratava. Eu sei que passei do limite e o fato de você se sentir um nada é minha culpa, mas não foi assim que planejei a nossa vida quando eu era um moleque — Ele semicerrou os olhos. — Olha, está vendo como você é uma parte importante da minha vida? — Demorou para continuar e olhou para mim. — É fácil falar com você sobre o meu interior. Assenti com a cabeça, concordando falsamente com essa suposição. Não era por me considerar algo que ele se confidenciava a mim e se abria para sugestões e conversa. Eu era um sumo. Humanos tendiam a se desabafar conosco. Somos bons em ouvir, já que não era de nosso feitio julgar e apontar erros e falhas. — Eu vou descer, senhor. Deseja algo a mais? Ele acenou com a cabeça fixando bem seus olhos em mim. — Me chame de Gulian, e não de senhor, capitão ou capitão Gulian. Só Gulian. — Ele voltou a olhar para o mar e depois para mim outra vez. — Só Gulian. Como quando era criança. Meu coração quase chegou ao cérebro, pois não deu tempo de reduzir a velocidade para fazer a curva e sair pela boca. Engoli em seco e assenti com a cabeça. Só Gulian parecia bom. Fechei os olhos e respirei fundo. Aonde isso vai me levar? Aonde toda essa mudança, essa liberdade me levará? Já me sentia diferente por poder sair do navio ao chegar a alguma cidade. Agora eu poderia chamá-lo de Gulian de novo. Só Gulian! E para a comprovação de que aquilo era real e não simplesmente um sonho, ouvi a voz de Octávio, interrompendo aquele meu momento único, anunciando algo: — Um grande navio se aproxima. Vitto estava perto e olhou para o capitão... Gulian; só Gulian. Só Gulian, Telo. Só Gulian. Conversaram visualmente sem a necessidade de sons, e o primo maior abaixou a cabeça, em sinal de que estava pensando e acatando o pedido não verbal de Vitto, pela primeira vez. Não demorou muito e ele a ergueu, dizendo: — Se o navio passar pacificamente por nós, não faça nada. Mas fique de olho em qualquer movimento deles e me avise a todo instante. E voltou a olhar para o nada a sua frente. Meus olhos se perderam em seu rosto e várias perguntas se formularam em minha mente. Olhei para o horizonte e percebi as nuvens negras mais próximas. Alguns raios clareavam e mostravam o outro navio. Parecia que o coitado do outro capitão estava fugindo do temporal. Mas como ele conseguia se movimentar rápido daquela forma contra o vento? Vitto, que sempre exigia que o primo maior o escutasse, apenas saiu de perto, como se Gulian devesse essa a ele, não recebendo isso como um presente, assim como eu imaginava que aconteceria. — O navio está vindo à nossa direção, sem ter desviado um só grau — Octávio comunicou e ficou à espera de uma resposta de... Gulian, que se mostrou perdido nos pensamentos por uns dez segundos. — Capitão — sussurrei em seu ouvido. — O navio parece estar fugindo da tempestade. Não deveríamos fazer o mesmo? — Se ele estar fazendo isso, é um capitão muito inexperiente. Já enfrentamos tempestades muito piores, Telo. Mas... — Ele ficou pensativo. — Como ele consegue navegar contra o vento nesta velocidade?  — Exatamente! — sussurrei. — Quero que fiquem preparados para qualquer eventualidade — ele anunciou. — Mande que encham os canhões e chamem os homens para se juntar a nós aqui em cima — proferiu, enquanto Octávio se virava. Demorou, mas o capitão Gulian continuou: — Mas só ataque se eles atacarem. — Octávio acenou com a cabeça e voltou a se distanciar. Capitão olhou para mim, sorriu e disse: — Vai para o meu armário. Uma vergonha me inundou outra vez a ponto dos meus olhos esbugalharem. — Senhor, se puder eu gostaria de estar aqui em cima numa batalha por vontade própria pela primeira vez — menti, pela vergonha da verdade. Abaixei minha cabeça. Agora estava desrespeitando uma ordem direta. Fechei os olhos e levemente balancei a cabeça, desgostoso comigo mesmo. Jado arrancaria um de meus dedos se me visse agora. Ergui novamente a visão. — Desculpa, senhor. Já estou indo para o armário. Dei um passo, me distanciando dele, mas fui interrompido com sua voz serena e calma: — Não se cobre. Isso é exatamente o que eu pretendia ao te dar espaço. Eu queria que você pensasse por si só, que mostrasse o que você quer e falasse sobre, Telo. Não se preocupe — Ele sorriu outra vez. Por que ele está sorrindo tanto? Preferia quando dava as ordens, assim eu poderia suprir a falta de coisas da minha vida, xingando a sua espécie. — Fique se quiser. Só tenha cuidado. Você ainda é a minha mente. E agora não é mais senhor, é Gulian. Lembre-se disso. É uma ordem! Forcei um sorriso, para não o deixar sorrir sozinho, contra vontade e ele logo desfez as expressões pacificas. — Não faça isso, ainda te acho horrível quando sorri assim. Voltei a ficar sério. Espécie nojenta, racista, egoísta. — Capitão — Octávio voltou a falar —, nada ainda. O navio continua no nosso rumo. Permiti que meus olhos saíssem daquele canto e, dali de cima da popa, vi que o navio já estava próximo, muito próximo. Estranhei ao perceber que era um modelo idêntico ao Dergo, que carregava um estandarte de um crânio com dois ossos atravessado à frente dele, preto, com todo o fundo branco, pendido num mastro, que ondulava com o vento soprando a sua volta. — Outro Joinkty? E com listras iguais ao do Dergo ainda! Nunca vi esse navio — Gulian murmurou. — Nunca o vi. — Ele olhou à volta. — Alguém já o viu antes? Todos falaram um “não”, agitando a cabeça de um lado ao outro. Temi naquele instante à morte e repensei sobre voltar para o meu canto seguro em momentos perigosos. — Capitão... — Octávio olhou para ele, esperando que Gulian fosse sensato e mudasse a direção do navio. Eles já estavam a ponto de colidir se nenhuma ação fosse tomada. — Gulian! — Vitto exclamou de longe. — Vire o leme, agora! — e enfatizou a última vogal, seguido de uma agitação com os braços. De repente todos estavam desesperados. Olhei para Gulian e tentei me forçar a ser o único a não desacreditar de qualquer método que estivesse usando. Ele jamais sacrificaria o Dergo por uma batalha. O Dergo e a Jafees eram tudo para ele. Eram, respectivamente, seu coração e sua alma. — Ele vai virar... Ele vai virar — dizia Gulian mais para si próprio, não tirando os olhos dos navios prestes a colidir. Seria um desrespeito aos feitos de Gulian o capitão daquele navio não virar o leme e desviar do Dergo. Pelas lei e pelo orgulho, não era Gulian que deveria fazer aquilo. E então todos se abaixaram, subitamente, amedrontados e esperando o estrondo ao encontro dos dois navios. Todos os pelos do meu corpo eriçaram e senti cada nervo doer ao ver ambos os navios se transpassando sem dano algum. Olhei para Gulian, que estava boquiaberto e meu corpo foi forçado a ir para trás com um pavor gigantesco. — Um navio fantasma — alguém gritou correndo. Lendas diziam que todas as tempestades no mar seguem navios fantasmas. É um aviso de morte. O Dergo sempre cruzou tempestades porque o capitão era bem cético a respeito de lendas. Ele sabia que lendas são criadas com enfeites e bravuras, às vezes irreais. No mesmo instante em que cruzamos com o navio pirata, a tempestade n***a de raios violentos nos alcançou também. Uma figura feminina estava bem ao meio dele e, curioso, Gulian soltou o leme, direcionou-se até a escada da popa e desceu. Ele caminhou com passos lentos até o meio do navio. Tudo a nossa volta se desacelerava de forma incrível enquanto os navios se transpassavam numa lentidão aterrorizante. Segui o Gulian até o meio do Dergo/Navio fantasma, após descer a escada da popa. Meus olhos saltaram quando vi que a figura diabólica era conhecida. — Enara? — Gulian indagou. Seu tom de voz entregava seu medo. Enara era uma poderosa bruxa. Para fazer algo do tipo imagino que cresceu conjurando magia. E não me assustaria se descobríssemos que ela tinha mais anos do que aparentava ter. Enara, que estava com um vestido preto, todo rasgado, com o cabelo que parecia estar dentro do oceano, voando lentamente, pousou selvagemente sua pequena mão no peito de Gulian e apregoou: — Corações você quebra; vidas você tira. Por isso estou te amaldiçoando a tudo o que você fizer, pagar. A cada vida que tirar, um ano envelhecerá. Então eu te recomendo, Capitão Gulian Beho: corra! Se esconda! Pois a partir deste instante eu anunciarei para os quatro cantos do mundo que você está vulnerável, e o mundo inteiro irá te caçar. E dependendo da quantidade que você matar, sua vida a natureza naturalmente ceifará. O homem viçoso que todos vocês conhecem! — Olhou por um curto instante para os lados. — Já não mais será quando o próximo dia raiar, pois será neste instante, iniciado com a noite de hoje e uma visita inesperada, que a maldição se ativará. — Ela deu uma risada alta e maléfica. — Morrerá de velhice, mas tão jovem ainda estará. E então sua figura cinzenta se desfez como uma fumaça junto a todo o navio em que ela estava. A velocidade das coisas voltou ao normal nesse instante e a tempestade também se foi, como se nunca estivesse ali. Todos os que ainda estavam no chão se levantaram e encararam Gulian, que parecia desnorteado. Seus olhos divagavam sem vida pelo horizonte. Ele ameaçava dizer algo, mas não conseguia. Sua voz sumiu no instante em que pronunciou o nome daquela que o amaldiçoou. Errei quando pensei que Enara era como qualquer uma das tantas mulheres que Gulian se aproveitou e depois descartou. Enara simplesmente tirou tudo o que o ele tinha; tudo o que ele sabia fazer. Matar.
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