CISMAS

1138 Palavras
Com o fim do mar tortuoso e o início das águas do oceano Alazertoi, a maré estava tranquila como costumava ser. O vento que vinha do oeste forçou o capitão a tirar o marinheiro do leme e tomar controle do Dergo, pois só ele sabia contornar bem as rajadas de vento, ao ziguezaguear com o navio, em destino ao sudeste de Genoas, do continente Norneuti. A viagem já durava semanas desde que saímos da cidade da fumaça e quase não tinha mais escravo algum conosco. O capitão havia vendido quase todos nas ilhas. Caero havia sobrevivido e vivia deitado numa rede ao lado da minha, pela noite, para que assim eu o vigiasse enquanto ninguém podia. Às vezes ele gemia com o frio da madrugada e, durante o dia, ele vivia junto aos tripulantes que estavam em recuperação desde a última batalha. Muito ele e o capitão tinham discutido sobre estratégias: assunto este que eu pouco sabia, e que normalmente não me causava interesse algum, por eu saber que o capitão Gulian era muito bom nesse assunto e nunca precisava do outro pedaço da mente para ajudá-lo. Mas ultimamente a lógica foi afastada e eu comecei a me aborrecer com isso. Por tanto acabei me interessando, assim eu teria um assunto a mais para conversar com ele; assim ele não dividiria o seu tempo que tem para mim para conversar tanto com Caero. Eu era o seu sumo mais antigo. O sumo amigo dos humanos, não o da resistência. Por que o capitão Gulian me desprezava enquanto ficava só conversando com aquele sumo traidor e vingativo? No meu canto eu lia um livro ou ao menos tentava enquanto Caero gemia. Parecia que ele tentava me desconcentrar intencionalmente. Oras ou outras eu desejava que ele morresse enquanto dormisse, mas eu me repreendia imediatamente e ficava cuidando dele para que isso não acontecesse e acabasse sentindo remorso mais tarde. Quando eu o via acordado e conversando comigo, eu esquecia do remorso e queria eu mesmo matá-lo. — Gulian sabe que você está aprendendo Aleaço? A língua dos conjuradores? — ele me questionou como se tivesse o direito. — Sabe. — Fui direto e ríspido, nem olhei para ele ao falar. — Gulian sabe que você aprendeu a manipular a gravidade? Respirei fundo e fechei os olhos. — É capitão Gulian para você. — Olhei para ele com desaprovação e por canto de olho, sem tirar o rosto de frente do livro. — Ele disse que eu o posso chamá-lo só pelo primeiro nome — Caero respondeu. Em imediato virei a cabeça para vê-lo bem e o encarei, sentindo uma inundação de ódio percorrer minhas veias do corpo e subir à cabeça, a ponto de esquentar as bochechas. — Ele sabe que você é o neto de Daiel? — o provoquei. — Não faria diferença se ele soubesse. Eu não sou o meu avô — terminou mexendo com os ombros. Ele era igual ao capitão, sempre se esquivava de uma resposta usando gestos corporais para valorar o que havia dito. — Ele sabe que você é o líder de uma nova resistência? — defini melhor a minha pergunta anterior. Caero ficou quieto desta vez e estreitou os olhos num sorriso enquanto me encarava. — Parece que deu empate — assumiu, sorrindo. Tudo parecia tão fácil para ele que me fazia sentir indignado com o mundo. — Eu não conto se você não contar. — Eu não minto — avisei. — Não precisa. — Gesticulou negativamente com a cabeça. — Ele não vai do nada te perguntar se eu sou o líder de uma resistência; ou que participo de uma. Nem que sou neto de Daiel. Então você não mentiria, só omitiria, do jeito que faz com a magia; do jeito que disse que o seu senhor só traficava humanos para mim na palestra. Você realmente me enganou ali. Jamais imaginei que ele era o capitão Gulian Beho, do Dergo, dos livretos de aventuras. Semicerrei os olhos. Foi má ideia tê-lo salvo. Eu e meus instintos suicidas. Ele sorriu enquanto eu o encarava irritado. — Eu não gosto de você — rosnei. — Eu não gosto do perigo que você representa ao capitão. Eu não gosto do seu fingimento. Eu nem sei do que você é capaz de fazer. Parece tão perigoso quanto um humano. — Você ainda é tão inocente, Telo. Tem muito o que aprender. — disse, desfazendo da minha preocupação e do quanto eu o atacava. — Olhando para você, o identifico comigo há pelo menos uns nove anos. Aquilo me enraiveceu de tamanha forma que me fez dizer: — Não temos tanta diferença de idade. — Não é à idade que me refiro, é a experiência de sentir. Você está se manifestando mais do que deveria, provavelmente está começando a sentir coisas. — Pigarreou e gemeu com isso. — Você ainda vai aprender a manejar os sentimentos. Não os sentirá assim para sempre, e aprenderá a limitá-los ao seu favor. — Não sou frio a ponto de manipular meus sentimentos. — Nós somos sumos. — Ele olhou para mim. — Temos um botão de ligar e desligar sentimentos. Me lembrei de Lida. Ela tinha um botão desses. Jado vivia com o dele desligado também. — Isso é impossível! — exclamei, me negando a acreditar. — Não, não é. Somos naturalmente inteligentes. Noventa por cento da nossa espécie possui uma memória incrível de decorar ao bater os olhos. A frieza é só o próximo passo dessa incrível inteligência, nos permitindo ver tudo à distância para ter uma melhor vista e consecutivamente uma melhor definição. Podemos manipular os humanos, os fazendo pensarem que nos têm em suas mãos, como eu fazia com o Duque. — Ele se sentou na rede, voltando a gemer, e fazendo uma pausa demorada. — Somos a pior espécie que existe. Não é à toa que estamos numa posição tão baixa, porque no alto causaríamos estragos. E é por isso que os humanos nos fornece uma educação tão pobre da vida, nos privando de tudo que pode nos fazer sentir coisas. — Eu não gosto de como você pensa; de como vê os humanos. — Você é tão infantil ainda, Telo. — Notei em seus olhos um desgosto superior ao desgosto que sinto por ele estar no Dergo. — Você tem uma inteligência ainda crua. Tão crua que sangra. Pena que não terei tempo de prepará-lo para a vida. — Pretende ir embora? — Juntei as sobrancelhas. — Acha que serei o cérebro de um pirata? — Ele soltou uma risada irônica. Como se tal título fosse humilhante. Me ajeitei na rede. — Tenho uma resistência, se lembra? — Ele me olhou inexpressivamente por alguns segundos. — Talvez um dia você se junte a nós. — Jamais! — respondi imediatamente. — Eu nunca faria isso.
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