Atrito

2600 Palavras
No raiar do dia seguinte, o capitão Gulian, Vitto e eu fomos até o palacete do conde Nieo Enennai após, ter no caís do porto Sadéu, um soldado convidando-nos a entrar na carruagem. Eu estava bem vestido e pomposo, como sumo de madame rica. Subíamos pela avenida principal da cidade rumo ao palacete. De longe, a construção se mostrava bela. Ficava no topo de um dos morros e um pouco abaixo do nível das nuvens. A moradia do conde era a única coisa bela naquele fim de mundo penumbroso que, mesmo de dia, e por causa da fumaça, o sol não costumava brilhar com a mesma beleza que brilhava fora da muralha. Vitto me olhava, frio e impassível. Eu não conseguia me permitir olhar para ele por mais que um segundo e desviava os olhos para então olhar novamente e o pegar me olhando. A minha presença sumia ao lado do capitão Gulian e à frente de Vitto, naqueles bancos macios e confortáveis, enquanto eu olhava toda a cidade pela janela e imaginava muita vida sofrida lá em baixo. FLASHBACK - O LIVRO DE MAGIA JÁ NA MINHA SALA DE ESTUDOS, abri o livro e me deparei com a primeira sessão, que era o dos alertas. Várias páginas alertavam coisas que podiam dar errado. Não me prendi a isso, folheei logo e cheguei ao primeiro capítulo: levitação. Eu sentia meu coração batendo forte, querendo acreditar que havia um jeito de um sumo poder praticar magia. Eu queria devorar cada letra no capítulo de levitação, mas a minha curiosidade me forçava a folhear o livro e descobrir o que vinha depois: poção. Meu coração ardeu e então fui folheando e vendo como se planta alguns dos ingredientes principais daquelas poções, até sair daquele capítulo e ir para o próximo: encantamentos básicos, e o capítulo seguinte: encantamentos intermediários. Além de, a cada capítulo ir melhorando os temas, tinha uma sequência proposital. Devia-se dominar a arte do primeiro capítulo para pular para o próximo. Li isso quando vi os temas de todos os capítulos e voltar para trás e começar a ler os alertas. Eram cento e sessenta e oito modos de fazer algo muito errado. Li tudo. Logo em seguida li as doze páginas do capítulo de levitação e foquei num objeto, mas a minha insegurança em fazê-lo mexer de lugar me fez desistir e voltar a ler o capítulo desde o início. Para alterar a localidade de um objeto, de acordo com o livro, a pessoa deve conseguir enxergar o espaço pelo qual ele percorrerá, ou seja, deve-se primeiro aprender a olhar para o vazio. As palavras que mais se repetiam no livro era que a pessoa deveria ter: Emoção, controle, concentração e foco. Deveria poder sentir com força algo, mas ter um controle sobre essa emoção; tendo também concentração mental, esvaziando todo o cérebro, ainda que sentisse alguma emoção em excesso; e focar no espaço vazio onde o objeto percorrerá. Ou seja, impossível. — Como supostamente devo aprender a olhar para o nada, tendo algo depois disso com cor para ser visto? — me perguntava repetidas vezes, desesperado em aprender. — Como devo aprender a olhar para um espaço vazio entre mim e o que está à minha frente? — gritei com o livro. Depois folheei suas páginas, procurando onde explicava isso. — Vamos! Sendo vencido pela asneira de Anaua Uhrim, que foi quem escreveu essa teoria, voltei a focar numa página do livro, na tentativa de folheá-la sem a intervenção física. Fiz de tudo o que eu sabia fazer: embacei as vistas para ver se enxergava o campo antes da folha, usei a mão, senti a alegria da bebedeira de mais cedo e misturei tudo. Era muito detalhe para prestar atenção e ao mesmo tempo ter a mente vazia. Fechei o livro, revoltado com as tentativas fracassadas e saí da biblioteca. É impossível! Os sumos deveriam ser diferentes mentalmente dos humanos nesse sentido. Eles deveriam ter essa capacidade de enxergar o nada, esvaziar o cérebro e ao mesmo tempo sentir algo muito forte. Aquilo tudo era simplesmente impossível para mim, e me fazia sentir uma raiva revoltante. Não era atoa que eu nunca tinha ouvido falar, em nenhuma fase da história dos sumos, de um que manipulasse a magia.             DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS DA HISTÓRIA... — QUERO QUE VOCÊ ME DEIXE dar o primeiro soco — Vitto pediu, enfado. — Não foi só a você que ele recusou o encontro. O capitão Gulian assentiu com a cabeça, ainda que sério. Ele não se desligou do pensamento que o devorava visivelmente para dar a atenção que seu primo esperava. — Senhor — disse, após sentir pela proximidade, que ele parecia necessitar de alguém que o trouxesse à realidade; de alguém que o desprendesse de seus pensamentos. Ele não me deu atenção, assim como quase não deu a Vitto, mas eu era um sumo: naturalmente irritante e ultimamente insistente. — O marquês Verton Baraqsi la Capré. — Ao dizer seu nome eu imediatamente consegui sua atenção —, primo do duque de Tamre, foi quem matou os seus pais. — O olhei, inexpressivamente por um bom tempo. — Deve estar sentindo muita raiva. Vitto, que parecia não se lembrar do parentesco do duque de Tamre com o marquês assassino de seus tios e pais, arregalou os olhos na direção do capitão e balbuciou. — Eu vou matar o conde hoje — Gulian anunciou antes de deixar que Vitto dissesse algo. — E vou incendiar Malpes como lembranças à família Baraqsi la Capré. — Mas e se o duque... — O conde não nos chamaria se o duque ainda estivesse nesse lixo — respondeu, m*l humorado, e olhou para mim por fim. — Vou acabar com tudo e você vai me ver agindo, Telo. Quero que escreva uma crônica do episódio de hoje. — Sim, senhor — respondi. Logo o capitão abaixou a cabeça e seu olhar me contou que ele voltara a pensar sobre a família Baraqsi la Capré. Procurei uma distração e olhei pela janela, vendo a cidade esfumaçada ficar cada vez menor, assim como a muralha e a baía guardada, enquanto subíamos o morro. Após certa altura, a avenida até o palacete não era mais reta. Começava a contornar o morro até chegar ao topo dele, quase na altura das nuvens. De lá podíamos ver a floresta virgem atrás da muralha. Era tão verde. Foram raros os momentos que pude presenciar o verde de uma floresta após a ascensão do capitão Gulian. Logo chegamos ao destino e, uma pequena muralha, com não mais que dois metros de altura separava o palacete do conde do resto da cidade. Ela era toda de tijolos de barro branco com pequenas pedras cinzentas. O portão era vermelho de madeira que, junto à cor branca e cinza da muralha, completavam as cores da casa Enennai. Descemos da carruagem em frente ao palacete também branco com detalhes cinzentos e avermelhados. Não era nada muito grandioso e expansivo, mas claramente muito belo e aconchegante. Quando o soldado nos direcionou para dentro do palacete, notei o assoalho de madeira do salão de entrada bem ilustrado. Havia uma escada no canto da parede direita e mobílias caras e com belos detalhes espalhados pelo lugar. Enquanto ficamos parados no meio do salão, o mesmo soldado se direcionou a um cômodo ao lado esquerdo e, na porta dupla de madeira envernizada, deu duas batidas e a abriu, revelando o gordo conde Nieo Enennai detrás de uma mesa de madeira, com cadeiras com forros de pelo de lobo branco à frente. Afastado dele e espalhado pela sua sala, tinham mapas da cidade, da ilha, do reino, do continente e do mundo. Tinham também retratos pintados de sua pessoa e quadros únicos e famosos que já li em diversos livros da arte antiga e contemporânea. — Sejam bem vindos a Malpes! — Nos recebeu com uma cortesia calorosa ao se levantar de sua cadeira almofadada de cor vermelha. Antes de entrar, o capitão me puxou e me deu leves empurrões para eu ir junto a ele e Vitto. O conde logo se colocou de pé, saiu de trás da mesa e mancou, de braços abertos, em nossa direção. Assim que chegou perto e percebeu que a ideia do abraço não era recíproca, desfez o sorriso e arrumou a posição. Um nó entre as sobrancelhas se fez. — Sinto por tê-los feito esperar. É que o duque de Tamre e eu não estamos num momento muito bom. E ele não tem bom gosto por piratas. Além do mais, muitas pessoas estão morrendo pela fumaça de Malpes e estamos discutindo meios de resolver isso. — Mexeu com os ombros. — Dizem ser perigosa para os humanos e a muralha ajuda o fato de o vento não circular muito o ar na cidade. Antes de umas reparações que fizemos na cidade, a fumaça se dissipava e ia para a floresta, mas agora ela tem ficado por aqui. Infelizmente não podemos desfazer as reparações, por isso estamos buscando outras formas de melhorar a situação. — Ele apontou na direção da porta, acrescentando: — Juntem-se a mim ao desjejum, cavalheiros, antes de tratarmos de negócios. Antes de qualquer resposta, o capitão Gulian e Vitto o encararam de forma que até eu senti medo. Seria o conde quem os dois gostariam de devorar, mas como deveriam estar famintos, seguiram o homem sem dizer mais uma palavra. Direcionamo-nos até a sala de jantar onde a mesa já estava posta. Lá estava o filho caçula do conde e as duas filhas mais velhas, gêmeas, gordas e ruivas igual ao pai. Seus cabelos jogados acima dos ombros e pendidos em cachos perfeitos, inebriaram os meus olhos que sempre se sentiram encantado por cabelos avermelhados. Diferente das irmãs, o caçula tinha um cabelo loiro enferrujado, e este era pequeno e franzino. Encostei-me à parede, enquanto o capitão Gulian e Vitto se aproximavam da mesa. As gêmeas se levantaram das cadeiras, usando aqueles vestidos grandes que era um salmão e outro amarelo, passaram os guardanapos em suas bocas carnudas, caminharam até os galantes e afamados homens do navio mais odiado do mundo e fizeram gestos corteses. — Milady — ambos disseram em uníssono ao beijar as mãos das gêmeas, cada um com uma, e revezaram. Elas os conduziram até os lugares onde eles se sentariam e avistei tudo ali de longe. Percebi que o garoto que não deveria ter mais que dez anos, me encarava com aqueles dois pedaços de oceano. — Telo — o capitão me chamou, fazendo com que meus olhos encontrassem os seus imediatamente. — Sim? — Sente-se! Percebi no mesmo instante a indignação do conde, arregalando os olhos e boquiabrindo-se numa inquietação que o fez se mexer na cadeira larga para caber sua grande b***a. — Claro, sumo — disse o lorde, forçado. Os olhos ainda esbugalhados. — Junte-se a nós. — Ele ergueu uma das mãos, estalou os dedos e uma criada se aproximou. — Conduza o sumo até uma... u-uma... cadeira — mirou, mesmo tendo dado a ideia de me levar a uma cadeira aleatória — e o sirva de tudo que ele quiser. A serva, inclusive, se indignou com a ideia de servir um sumo numa mesa de jantar. Percebi seu moderado susto à distância. Nesse instante eu me permiti olhar o que tinha em cima da mesa. O capitão Gulian iria fazer questão de me engordar à custa do conde que ele jurou desde o dia anterior que mataria. A criada veio até mim e me conduziu, contornando a mesa até me colocar ao lado do pequeno sir Enennai. Sentados chegávamos a ser da mesma altura. Já no meu lugar, vaguei meus olhos por todo o cômodo, fazendo pequenas pausas de rosto em rosto, que me olhavam com repulsa por estarem comendo na mesma mesa que um sumo. Eu já me deparei com muitos desses olhares inexpressivos, porém flamejantes em várias situações da minha vida, mas nunca me senti tão machucado como ali. Abaixei a visão, envergonhado. Queria sair do palacete. Preferia lidar com a fome a lidar com esses humanos. Logo a criada encheu o meu prato com um pouco de tudo e, mesmo sem eu tocar em nada, ela tirou todos os talheres que encostaram nos alimentos conduzidos até o meu prato, foi à cozinha e trouxe outros. Olhei para o capitão Gulian, implorando pelos olhos para que ele me tirasse dali, até Vitto parecia, àquela altura, complacente ao meu favor, mas os dois não aparentavam querer me ajudar. Ao contrário disso, me usavam para aborrecer o conde. — Então vamos comer — o conde anunciou, ao aproximar o garfo cheio de comida à sua boca. Não parecia mais ter a mesma disposição. As gêmeas me olhavam de cima, com suas cabeças em planos baixos, frente ao prato de porcelana cheio de alimento. — Eu não quero comer perto dele — sir Enennai disse. — Pai, pede para Edelis tirá-lo de perto de mim. Vidrei, neste mesmo instante, meus olhos no prato, com até o meu espírito dolorido, esperando o toque da criada nos meus ombros, para me guiar a outro acento. Meu coração batia acelerado. Comecei então a sentir cada nervo do meu corpo se enrijecer, envergonhado. Meu sangue passava correndo por minhas veias que chegavam a queimar. Eu sentia o calor tomando conta do meu corpo e uma onda de apavoramento que insistia em tomar controle do meu ser, me forçando a ter fantasias de sair correndo dali até o Dergo, onde eu me sentiria amparado novamente. Minimamente desejado, ao menos. Após esse coquetel de sentimentos, voltei a olhar para o capitão Gulian, desta vez meus olhos marejavam lágrimas. Mas não fiquei com a visão erguida por muito tempo e logo tratei de abaixá-la. De fato sentimos tudo. Somos como eles; somos tão instáveis a ponto de pessoas quaisquer poder nos fazer sentir ainda mais baixo do que acreditamos que somos. Ali entendi o porquê de o capitão brigar tanto. Ele sentia tudo com muita intensidade. Li isso uma vez sobre humanos que sentem mais do que outros. Eu mesmo estava sentindo mais do que o costumeiro para um sumo. Encolhi meus ombros ao ouvir o trovejo do capitão: — Ele vai ficar do seu lado, garoto! Ergui a visão e olhei rapidamente à minha volta. Percebi que todos olhavam para o conde, como se esperassem seu veredito, pois ainda que temível, o capitão Gulian era só um visitante e o grande peso de uma decisão era do lorde dono do palacete. — Coma logo, meu filho — disse ele, envergonhado, sem nem ousar a olhar para o seu pequeno sir. Não tinha o que discutir, ninguém iria contra os desejos do pirata ali do outro lado da mesa. Olhei para o capitão Gulian e ele mirou para o meu prato com o seu queixo. Ainda me sentia indesejado, mas com ele ao meu lado nada poderia me acontecer fisicamente. Então relaxei um pouco os ombros e soltei o ar preso nos pulmões. Minhas mãos que formigavam por baixo da mesa por eu as esfregar no brim da calça, nervoso, eu as conduzi até os talheres do prato e repetidas vezes à boca. A comida estava saborosa, mas um gosto amargo de humilhação sobressaia qualquer sabor. Conforme mais garfadas eu levava à boca, mais eu enterrava na memória aquela cena e mais saboreava o desjejum. Não prestei atenção em boa parte de toda a conversa que se sucedeu. No fim, só sabia que o capitão Gulian estava cortejando uma das gêmeas e Vitto a outra.
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