Minutos mais tarde, inofensivos sons de pegadas indicavam que pessoas se aproximavam do cômodo, sendo percebido pelo ranger do assoalho e pela sombra grande e comprida que cada vez mais aumentava. Eram duas sombras misturadas numa só, borrando e nos impedindo de saber as silhuetas de ambos. Mas o conde já sabia, pois se inebriava de um sorriso falso e enorme, cobrindo um pavor óbvio em seu rosto.
Levei um choque no corpo e senti cada pelo do meu corpo arrepiado ao ver ambos os donos das sombras.
— Duque de Tamre! — o conde se levantou da cadeira.
O capitão Gulian se pôs de pé no mesmo instante, em alerta, assim como Vitto. Ambos com as mãos nas espadas. As gêmeas se assustaram com a súbita atitude dos dois. Já eu não me preocupava com o duque de Tamre, só com o seu sumo. Trocamos olhares frios como se fossemos espécies de animais inimigas; dois predadores se enfrentando.
O conde desfez o sorriso ao olhar para os dois piratas que ameaçavam perigo ali. Ele mirou para o seu lugar da mesa, que era o da ponta, estando Gulian na outra, dizendo:
— Sente-se, vossa graça. — E então estalou novamente aqueles dedos gordos para a criada e ela tirou o prato do conde do lugar e pôs na esquina esquerda, ao lado das gêmeas que estavam a minha frente, de costas para a única porta da qual se era possível entrar no cômodo. A criada logo pôs outro prato para o duque e transportou o do conde para seu novo acento. Caero permaneceu em pé. — N-na-não quer se sentar, sumo? — o conde acrescentou.
Caero olhou para o seu senhor e o duque de Tamre, moreno, magro e alto, poderoso e destemido, disse secamente:
— Não. Ele está bem onde está. — E então olhou para mim com descaso. — Prefiro ter um ninho de lombrigas na minha refeição a dividi-la com algum sumo.
Meu corpo me traiu ao ser forçado, pelas palavras ameaçadoras do duque, em levantar da cadeira.
— Fique sentado, Telo! — Vitto vociferou antes mesmo do capitão Gulian. Mas não era ele o meu senhor, o que me fez continuar em pé, olhando para o capitão.
— Senta! — o capitão Gulian disse entre os dentes.
O grandioso lorde de Tamre não os assustava pelo visto.
Ainda assim hesitei ao voltar a minha cadeira. Meus olhos caçavam respostas nos olhares alheios. Foi assim que notei que o duque estava indiferente quanto a toda aquela tensão, enquanto se sentava na cadeira da ponta.
O conde tentava ignorar e manipular as ações de todos só com os olhares, enquanto as gêmeas adoravam todo aquele excesso de masculinidade e faltavam dar gritinhos e sorrisos ao bater palmas.
Aos intervalos que eu percebia toda a ação a minha volta, notei que os olhos de Caero tentavam me dizer alguma. Algo relativo a: você mentiu. Você me enganou.
— Vamos todos nos sentar, tudo bem? — Foi o mais próximo de uma ordem que o conde Enennai conseguiu dar aos dois piratas.
Hesitantes e contra vontade, os dois acabaram por se sentar. Assim que todos estavam sentados, o duque adiantou:
— Vamos direto ao ponto, conde. Como resolveremos a excessiva morte em Malpes pela fumaça das fábricas de borracha?
O conde Enennai respirou fundo.
— Eu andei pensando durante a madrugada e durante esta manhã, vossa graça, e acho, só acho...
— Conde, vai logo ao ponto — o duque o interrompeu.
O conde limpou a garganta de leve, assentiu repetidas vezes e acrescentou com aflição:
— Acho que poderíamos mudar a fábrica para o meio da floresta, além da muralha, assim as árvores cuidam da fumaça e ela não entra em Malpes, do mesmo jeito que quase não sai. — Encolheu os ombros. — Essa foi à única solução que achei, duque. — O conde limpou a garganta. Estava nervoso. — O que acha?
— Não — O duque Baraqsi la Capré gesticulou negativamente com a cabeça. — Isso gastaria muita carra e os donos das fábricas não estão dispostos a gastar para mudar as fábricas de lugar só por que alguns coitados famintos estão morrendo.
O conde Enennai olhou para o capitão Gulian e Vitto, talvez sinalizando que ainda tinha noção de suas presenças.
— Mas, duque, o que faremos?
O homem tossiu.
— Olha isso. Esse cheiro de fumaça está me matando.
Conde Enennai juntou as sobrancelhas e semicerrou os olhos.
— Não é nesse horário que o vento oeste traz a fumaça aqui para cima — explicou. Depois se virou para trás, olhando pelo corredor. A cadeira gemeu com seu movimento.
— Não importa que horas o vento traz ou não a fumaça! — o duque bradou. O conde se desvirou para encará-lo. — Importa que você precisa se virar para que isso pare!
— Então o que faremos?
— Se você que é o lorde de Malpes não sabe, o jeito é abandonar a cidade. Gastaria muitas carras. — Tenteava a cabeça para os dois lados, aborrecido. — E o rei não se alegraria nem um pouco. — Ele levou um garfo cheio de carne à boca e, ainda mastigando, mirou o garfo para o conde e acrescentou de boca cheia: — Você se lembra daquela história que contam para os filhos de lordes? Aquela em que no final o lorde da cidade não deu conta de administrá-la e sua cabeça é decepada?
— Ah! Papai me conta essa história — o pequeno Enennai disse rapidamente, ao se mexer da cadeira com um sorriso no rosto.
O duque de Tamre olhou para ele, friamente, o corrigindo só pelo olhar, e logo os deslizou até o Enennai maior.
— Não é apenas uma história, caro Nieo Enennai. Aconteceu.
Grotesco. Raça desprezível. Humanos sanguinários e irritantes.
— Duque Baraqsi la Capré, eu juro que não vejo outra solução. Eu... — balbuciava, desesperado. — E se talvez abaixarmos a muralha? E se erguermos uma placa no alto? Uma que mude a rota do vento e o guie para dentro da cidade para arrastar a fumaça daqui pra longe?
— Poderia dar certo as duas opções, mas gastaria muita carra. Nem você tem tanta carra para gastar com isso e continuar se alimentando decentemente. — Apontou para as gêmeas. — E gastar em tecido para cobrir essas duas meninas enormes. Malpes é pobre, você tem que pensar numa solução barata, senão... — Ergueu ambas as sobrancelhas.
Logo o duque mudou a direção dos olhos e com desaprovação olhou para mim e em seguida para o capitão Gulian e para Vitto. Olhei também para os dois e notei que o olhar frio e ameaçador era recíproco. E quando os olhares faiscantes estavam prestes a criar fogo, o duque de Tamre voltou a olhar para o conde.
— O rei indicou o sobrinho dele para cuidar de Malpes, caso o senhor não apresentasse uma saída barata e viável. — Mexeu com a cabeça ao passar a língua do lado de dentro da bochecha. — Eu disse a ele que o senhor conseguiria e que a troca de um lorde na Ilha de Tamre daria trabalho, pois além da burocracia que eu enfrentaria, o novo lorde teria de conquistar o povo da cidade. — Ele respirou fundo. Manipulador. — Mas como o senhor não dá conta...
Terminou mostrando que estava aborrecido. Seu teatro quase me fez sentir comovido pelo conde.
— O sobrinho do rei? Qual deles? Qual daqueles estapetados o senhor se refere? O mais velho? O com sangue Jereain?
— O de Candery Ny Fórgea.
Então uma grande reflexão, seguido de um “ahh” longo, com os olhos perdidos, partiu do conde. Ele aparentou estar confuso e perdido nos segundos que se seguiram, até de leve começar a aparentar uma crescente revolta naquele rosto quase desfigurado de gordura.
— Mas... o título de lorde de Malpes pertenceu ao meu pai e ao pai dele, assim como foi de várias gerações anteriores. Nós Enennai somos os fundadores de Malpes.
— Conde — o brado do capitão interrompeu a conversa. — Quando vamos tratar dos nossos assuntos? Não tenho tempo para ouvir sobre política local.
A partir do brado do capitão, o conde Enennai vagou os olhos do duque a ele. Os dois poderiam feri-lo igualmente, mas ainda assim ele demonstrou ter mais medo do duque que do capitão. Que pena!
— Não poderia retornar ao palacete mais tarde para resolvermos os nossos assuntos com mais calma, capitão?
— Não! — O capitão respondeu imediatamente.
De imediato o duque bateu com as mãos abertas na mesa.
— Rapaz, quem você pensa que é?! — É agora que o céu cai no chão. — Conde Nieo Enennai é o lorde da cidade de Malpes e você está dentro do palacete dele, o respeite! Não preciso nem dizer quem sou. Só o poder do conde supera o seu.
O capitão Gulian se colocou de pé imediatamente. Os olhos pegavam fogo.