— Eu sou o capitão Gulian Beho. Não existe poder algum acima de mim, duque. — E acrescentou: — algum! Sou um dos piratas mais respeitados do mundo.
O duque de Tamre arqueou as sobrancelhas. Imagino que àquela altura o comportamento do capitão começou a fazer sentido a ele.
— Anos atrás meu primo me contou uma história de um pobre garoto órfão, cujos pais morreram queimados junto com o navio comerciante deles. Ele explodiu a mãe num barco próximo, tentando fugir e deixou o pai atravessado por uma tora na barriga morrendo.
O capitão Gulian cerrou os dentes com tanta força que me fazia imaginá-los quebrando. Seus olhos flamejavam e lutavam com os olhos indiferentes do duque de Tamre.
Vitto, por sua vez, sempre o pacificador de qualquer briga, puxou o primo e o sentou outra vez. Ainda tinha o que discutir antes da briga de verdade, independentemente do capitão Gulian saber esperar ou não.
— Era Dergo o nome do navio — prosseguiu o duque. — No mesmo instante aleguei que conhecia o nome, ao meu primo. — E então ele começou a encenar —, mas como poderia ser o mesmo navio e o mesmo garoto, se o da história era medroso e fraco que não pôde fazer nada pra salvar a família e se o navio era menor e comum e estivesse no fundo do mar nesse momento, queimando por toda a eternidade?
Percebi que Vitto ainda o segurava pelo braço.
— Homem covarde o seu primo, duque de Tamre — ousei em dizer. Cheguei a perceber os olhares estranhados do capitão e de Vitto. Quando percebi já havia dito. Enfrentei um duque, quando nem o meu senhor se ousava até ali. Mas eu precisava dizer algo. Se não fosse eu, seria o capitão Gulian e ele não precisava de mais um grande inimigo. Não um inimigo do calibre do duque de Tamre; não do primo de quem destruiu uma parte da vida dele.
— Como ousa... — rosnou ao se levantar da mesa, enquanto me olhava com aquela expressão que me indicava uma morte prematura. No entanto, o brado do capitão o interrompeu e conquistou sua atenção.
— Como ousa você em desrespeitar a memória dos meus pais na minha frente! — Ele meteu o pé na cadeira e ela voou estrondosamente para trás. — Eles eram boas pessoas. — O capitão Gulian respirou fundo. — Eu iria me controlar. Qual necessidade você sentiu em me tirar do meu sossego, seu cretino?!
O duque sorriu, indiferente aos berros do capitão.
— Nós dois sabíamos que o seu controle duraria só mais alguns minutos. Você é conhecido por ser impulsivo. Eu li isso num livretinho seu — apontou para mim — talvez escrito por essa aberração. Muitos diriam que você é um coitado que luta contra seus demônios interiores e o jeito é fantasiá-los em seus inimigos, matando-os. Você não aturaria mais ficar olhando para mim, sabendo que sou o primo daquele que te criou; daquele que, segundo um dos seus livretos. Que te motivou a ser esta... b***a. — O olhou de cima a baixo, com seus olhos frios que faria qualquer um se sentir um nada. — Só te conhecendo para ter noção do tremendo exagero que são essas suas historinhas de ação. — Suspirou fundo. — E se alguém começaria alguma coisa, esse seria eu. Porque eu sou o duque de Tamre e querendo ou não estou acima de você, garoto órfão.
O capitão Gulian deu um tapa de mão aberta na mesa que a fez dançar inteira. As gêmeas gritaram e se levantaram imediatamente, usando uma à outra para se agarrar de medo, enquanto o conde retraiu os ombros largos e gordos.
— Eu sou o capitão Gulian Beho, do Dergo, o navio mais destemido dos mares. Eu dito as minhas próprias leis e sabe por quê? Porque eu estou acima de qualquer uma delas, de qualquer rei. Eu sou o capitão Gulian Beho. O pirata acima de vários outros. Mando em todos os mares e oceanos e sou aquele que vai decepar sua cabeça por não dar conta de comandar uma cidade. — Deu outro tapa na mesa, quase tão forte quanto o anterior, e ela dançou sobre o chão. — Porque eu sou o capitão Gulian Beho! Não construí o meu nome com esforço e suor para um sujeito que nunca precisou se esforçar para estar nessa posição me desrespeitasse.
— Está me ameaçando, seu cão sarnento? — o duque indagou.
Gulian pegou da mesa uma faca e a lançou na direção do duque. Ela girou no ar, cortando o vento e de repente o duque de Tamre já não tinha mais um grande pedaço da orelha esquerda e gritava de dor enquanto sapateava e escorria sangue por entre os dedos.
— Guardas! — e repetia: — Guardas! — Ninguém aparecia.
O duque saiu gritando e sapateando dali. O conde ameaçou de segui-lo, mas o capitão gritou:
— Por que você me convidou para o seu palacete estando esse verme ainda aqui? Pensei que ele já tinha ido embora.
— Ele disse que dormiria até tarde. Todos os dias ele acorda após o desjejum — o conde se explicou. — Se eu tivesse noção de que ele acordaria agora e tudo isso fosse acontecer, jamais teria mandado buscar os senhores para falarmos do transporte dos mineradores de Maltir. — Depois fez mesura já se retirando dali. — Com licença, meus senhores.
Caero foi logo atrás, mas antes me passou um olhar. Por alguns instantes me permiti sentir medo por Caero ter descoberto que o meu senhor era o poderoso capitão Gulian Beho, mas ali eu nem me importava mais. Iriamos sair corrido de Malpes mesmo.
— Gulian! — Vitto exclamou, puxando-o pelo ombro. — Ele é o duque de Tamre. — Apontou para a porta do corredor. — Você não tem noção do perigo? Não vamos mais conseguir sair de Malpes. — Deu um soco na mesa e, as meninas, que já estavam assustadas, tencionaram ainda mais seus ombros. — Que ventos! Devemos fugir. Agora!
Vitto saiu de perto do capitão Gulian e minhas pernas o seguiu. Elas eram menores que as do capitão, por isso precisava estar mais adiantado, pois acabaria ficando para trás no meio da correria.
— Senhor, é aconselhável partir de Malpes agora mesmo — eu adiantei, egoísta, ao ver que sozinho ele não sairia do lugar. — Senhor.
— Não corremos risco algum aqui — anunciou, e sem pressa começou a caminhar destino ao salão de entrada.
Vitto e eu o seguimos até estarmos fora do palacete. Lá, ainda escutando os berros e trovejos do duque no andar de cima, vimos corpos ensanguentados ao chão em diversos lugares e percebemos que havia mais fumaça na cidade do que deveria ter. O conde estava certo quanto a este horário não ser o da fumaça ali no alto; não nos dias em que o capitão Gulian não estava ali. Pelo menos não nos que ele estava furioso.
— Mandou que tocassem fogo na cidade?! — Vitto indignou-se.
— Eu não te disse nada para que não tentasse me impedir — explicou o primo maior, nem se permitindo olhar para o outro. Apenas observava, numa pose de poder, o estrago lá de baixo.
— Gulian!
— O quê? — Ele ficou de frente ao primo, sobressaltado. — Eu precisava me vingar de pelo menos um m****o da família Baraqsi la Capré, Vitto. E você viu como ele me afrontou?
— Agora só porque você não pôde subir até o palacete do conde você vai queimar a cidade? — Vitto bufou. — E agora que ele te afrontou? Você vai o quê? — Respirou. — Matar ele ou algo assim?
— É claro que vou! — o capitão garantiu.
A couraça da cabeça de Vitto foi para trás, esticando a pele da testa. Ele estava para lá de transtornado.
— Foi uma pergunta retórica! — E então gritou: — Você está louco, meu primo? Você vai matar o duque só por que ele te afrontou? Você não tem argumentos para afrontar ele de volta e por isso resolve tirar a vida dele?
O capitão não respondeu nada, e Vitto se distanciou do primo com a mão na cabeça enquanto a balançava. Ele sempre foi o primo menos briguento e o mais sensato. Não era o mais inteligente, mas era o mais sensato. O mais sábio, eu até diria.
Tripulantes do Dergo apareceram ao dobrar uma esquina do palacete. Estavam banhados de sangue malpesoten, com suas espadas ainda em mãos. Os últimos seguravam tambores cheios de líquido que derramavam em volta do palacete.
— Parem com isso! — Vitto ordenou, mas sua palavra contra a do capitão Gulian de nada servia. Vendo que os tripulantes não paravam, ele olhou para o primo com as mãos suspensas no ar, esperando uma atitude inteligente partir dele. Inocente. — Faça alguma coisa! Você vai selar o nosso destino. Matar um pirata, um Visconde, até um conde, é uma coisa. Nós conseguimos dar um jeito. Mas matar um duque é sentença de morte, Gulian! Duque é o maior poder abaixo de um rei e de um príncipe. Ainda mais o duque de Tamre. Este é o maior título de duque que já ouvi falar.
— Homem nenhum zomba de mim, do meu passado, dos meus pais e vive para contar história, primo. Sinto muito, mas isso pode me levar à morte que ainda assim não me importo.
Vitto girou em volta de seu próprio corpo.
— Você já tinha dado as ordens para isso tudo acontecer antes dele te zombar.
—Vitto, chega! — o capitão pediu.
— E não é só a sua morte que isso pode levar, seu i****a! — gritava. — É a nossa! A de todos nós. — Apontou para os homens. — E eu não pretendo morrer por que um desgraçado precisa zelar pelo orgulho dele. — Chegou frente ao capitão e lhe deu um empurrão que quase o fez cair. — Você é um desgraçado. Nunca me ouve; nunca leva em consideração o que digo, porque abaixo de você não tem ninguém mais. Caramba, Gulian! Eu te sigo desde quando éramos garotos. E só estou pedindo para que não mate o duque, por favor! O primo dele não matou só os seus pais, matou os meus também.
— Mas os seus faziam coisas com você! — o capitão estourou. Após aquilo se fez silêncio. — A morte deles foi um alívio para você.
Vitto deu outro empurrão no capitão, que parecia não ter intenção de revidar os empurrões ou de machucar o primo menor.
— E você sabe que eu não posso ir contra isso — o capitão disse.
— Claro que não! Porque você é o capitão Gulian Beho, não é? — E saiu de perto, irritado. — E vou para o Dergo. Me recuso a participar.