EM CHAMAS

2493 Palavras
O capitão Gulian olhou de relance para mim, depois para os homens, com os olhos apertados pelo brilho do sol. Assim que Vitto sumiu de vista, o capitão deu de costas e entrou outra vez no palacete. Subimos as escadas e fomos guiados ao quarto do duque pelos seus gritos. A porta estava trancada, mas alguns chutes e golpes seguidos fizeram com que ela se espatifasse no chão. O conde, que fazia bandagens na cabeça do duque, parou no mesmo instante e foi para trás. O duque pegou uma espada, obrigando o capitão a desembainhar a Jafees. Com ela, ele só bateu na espada do duque e ela caiu. O silêncio se fez no cômodo enquanto a espada quicava e ressoava contra a cerâmica. — Homem frouxo — o capitão Gulian murmurou, com desgosto, e apontou a Jafees no meio do peito dele. — Como o seu primo acabou com o primeiro Dergo? Indo para trás, guiado pela Jafees em seu peito, o homem de poder engoliu em seco. — Com fogo — disse após muito tardar. — Advinha — o capitão Gulian disse e o duque arregalou os olhos. — Neste mesmo instante meus homens estão derramando um líquido inflamável em todo o palacete. Depois disso uma faísca fará tudo queimar. — Oh, não! — exclamou o conde. — Deixe meus filhos saírem. Por favor. Por favor. Um sentimento que sempre me chamou atenção foi o do progenitor pelas suas crias. Quase todo o ser humano dá sua vida por aqueles que trouxeram ao mundo. Tal sentimento seria um fingimento que com o tempo se torna algo quase/ou real? Uma obrigação requerida pela sociedade para formar humanos sociais assim como seus antecedentes? Havia tantas coisas sobre os humanos que eu não sabia. — Meus homens têm ordens para tirá-los da casa. Até você vem comigo. Só o duque de Tamre morrerá. Caero olhou para mim, desesperado. Ele não foi incluso na lista das pessoas que sairiam e nem na lista de quem ficava. Imaginei o quão desesperado ele podia estar com a dúvida. Ele, que já tinha a pele bem rosada, estava vermelho, talvez desesperado com a ideia de morrer queimado. Eu só mantive os olhos nele por alguns instantes e logo voltei a olhar para o capitão, que guardava a Jafees na cintura e dava de costas. Nesse momento, o duque agarrou o meu senhor pela camisa de algodão, fazendo o capitão se virar em imediato e socar o cotovelo na costela do homem. O duque rinchou feito animal ao cair no chão. — Sumo, faça alguma coisa! — exigiu, mas Caero se mantinha imóvel e amedrontado. Sei tão bem como é isso. — Vai comigo ou prefere morrer com o duque? — o capitão indagou ao conde. O gordo hesitou e gaguejou. Olhou para o duque e o duque para ele. O homem deveria estar numa encruzilhada de dever e desejo. — O duque morrerá? — O conde indagou e o capitão fez que sim com a cabeça. — Certeza absoluta que ele morrerá? O capitão Gulian arqueou as sobrancelhas. — Certeza absoluta. — Então eu vou com você, capitão — o conde divulgou, assentindo com a cabeça. — Agradeço pela bondade. — Seu verme! — o duque gritou estridente. — Seu fraco! Prefere se curvar a misericórdia de um pirata que ficar ao lado de seu senhor? Então o conde gritou num tom firme de voz, mostrando-me o homem que realmente tinha por dentro. Arrepiei-me até. — Eu sou o meu próprio senhor. Eu sou o senhor dessa cidade! — Respirou fundo e soltou os ombros. — Era, pelo menos. Agora estou livre de te adular e procurar fazer sempre o melhor para você, seu desgraçado. Espero que você sofra muito, antes de morrer. Quando o capitão decidiu sair, o conde e eu o seguimos para fora dali. Ainda na escada, eu cutuquei o capitão Gulian e ele me olhou. — É necessário que o sumo do duque morra também? — É, Telo. É necessário. Pelo seu tom, presumi que não era certo insistir para salvá-lo, ainda que meu coração apertado me implorasse para o fazer. Terminamos de descer a escadaria e foi só os homens do Dergo nos ver passando pela batente da porta para começarem a atar fogo no palacete. Custaram alguns minutos para que o fogo dominasse o andar de cima, mas o duque insistia que não seria daquele jeito que morreria e, do alto, vi sua figura, em meio à fumaça, se chocando contra a janela de vidro e ser lançada pelo ar até colidir contra o chão perante nós. — Ah! — gritou de dor. O capitão Gulian gargalhou e logo o restante dos homens também, vendo aquele homem deplorável e agora todo quebrado na altura de nossos pés, colocando sangue pela boca. Olhei para o conde e vi nele algum prazer em ver aquilo. Já eu me agonizava. Era um homem passando por um momento de extrema dor e com a certeza de que morreria ainda naquela manhã, com todos contra ele. — Nem para morrer ele serve — alegou o capitão. Em seguida, ele caminhou até o duque, o puxou de qualquer jeito, fazendo-o berrar ainda mais e o segurou em seus braços. — Você morrerá queimado, seu desgraçado. Eu queria cumprir a minha palavra e te decepar, mas a morte vem tão rápido assim... Seria até misericórdia te matar decapitado. O capitão caminhou com ele até o palacete e entrou na casa outra vez, passando pelo fogo que dominava a porta e sumindo de vista. Seus homens boquiabriram-se pela estupidez do capitão, mas diferente deles, eu não poderia deixá-lo lá dentro para morrer, então contra todos os meus instintos de sobrevivência, corri e passei pelo fogo que dominava toda a batente da porta, sentindo aquelas chamas que me esquentaram rapidamente, como se me lavasse, mas não encostado em mim a tempo de grudar para começar a me queimar. Lá dentro eu não vi o capitão Gulian. Só fumaça e grandes pedaços de madeiras que caíam ao meu redor. A fumaça entrava em meus pulmões e queimava e ardia como se eu pegasse fogo por dentro. Partes do corrimão e da escada estavam em chamas, e mesmo temendo pela minha vida, corri até ela e a subi na pressa. — Capitão! — eu gritava, mas o fogo dominava tudo ali no andar de cima, inclusive a minha vista e a minha audição. — Capitão Gulian! — Socorro! — ouvi a voz de Caero quase tão baixo quando o som de um inseto, e sem demora alguma saí à sua procura por aquele corredor do segundo pavimento repleto de fogo ardente. — Caero, onde você está? — perguntei. Todos os sumos são amigos, ainda que inimigos. Por outro sumo somos capazes de desobedecer ao próprio senhor, pois sentimos uma grande empatia pelos da nossa espécie e isso nos faz ser capaz de tudo. Se tivesse como, seríamos capazes de doar a nossa vida por outro; embora, como em todos os casos, houvesse aqueles que não se importavam nem um pouco com o próximo. Mas esses eram como Lida que tinha controle total sobre os sentimentos. — Aqui — sua voz fenecia, então entrei correndo no cômodo a minha esquerda e o vi com um pilar de concreto sobre seu tronco. — Caero — eu disse seu nome num tom de lastima que eu, tão pequeno e fraco, não seria capaz de ajudá-lo. — Tenta. Só tenta — implorou. Seus olhos quase mortos me fitavam enquanto ele tossia ao falar. — Por favor, Telo. Tenta. Olhei à minha volta, nada poderia me ajudar. Resolvi apelar para a solução mais óbvia e certa. — Capitão! — berrei em meio a todos aqueles estrondos do palacete caindo em pedaços. — Não, ele não! Ele vai me matar — afirmou. Ele tinha razão. Caero era sumo de um Baraqsi la Capré. O capitão Gulian jamais salvaria um sumo qualquer, ainda mais este. Nem mataria para que seu sofrimento passasse. Deixaria que morresse sozinho e queimado. Enquanto eu pensava, uma madeira caiu ao meu lado e seu fogo respingou no meu terno. Senti logo o calor excessivo e, desesperado, arranquei-o de mim e o vi queimando próximo ao meu pé, em meio à fumaça que invadia o ar e se proliferava pelo cômodo como praga. Juntei coragem e tentei levantar o pilar com as mãos. Diferença alguma deu, mas persisti. Enquanto isso, uma tora de madeira desgrudou um de seus lados de onde estava preso no teto, me acertou em cheio e me jogou contra a parede do outro lado do cômodo. Espatifei com força contra a parede e cai no chão já zonzo. Outra madeira ainda maior se soltou do teto e caiu sobre mim e sobre alguns entulhos ao lado. Não sei quanto tempo depois abri os olhos. Eu estava assustado, ouvindo a voz ainda mais baixa de Caero, me chamando: — Telo. Telo, acorde. As coisas desabavam ao nosso redor e a fumaça tampava as minhas vistas a modo de quase não ver mais nada. — Eu desmaiei por quanto tempo? — E então me situei ao dar duas tossidas seguidas. — O capitão! Ele deve ter ido embora; deve ter pensado que morri por ter entrado depois dele e não ter saído. — Não. — Vamos morrer. Vamos morrer. — Desesperei-me, agitado. — Tinha tanta coisa para eu ver na vida. Tantos livros que eu poderia ler. — Telo... — Eu nem cheguei à crise dos vinte e cinco anos — interrompi Caero, voltando a tossir outra vez. — Eu nem tive essa crise. Eu quero... — Só se passaram uns trinta segundos desde que desmaiou. Eu estava resmungando baixo, enquanto ele falava, e ao entender o que ele me disse, me calei e a histeria se foi rapidamente. Mas com isso, fui me situando na realidade cada vez mais e pude sentir que o peso sobre meu tronco fazia com que eu conseguisse respirar muito pouco. As tosses foram aumentando gradativamente e eu estava começando a morrer sufocado, com o nariz e todo o caminho do ar até os pulmões ardendo pelas impurezas da fumaça. Não conseguia ser lógico, não com tão pouco oxigênio. Nisso, me permiti um novo desespero. Eu me debatia, chorava, tentava empurrar a madeira que me prendia, mas nada ajudava. Depois eu busquei ficar em silêncio comigo para ser racional e pensar numa saída, mas não conseguia pensar em nada. Parte do meu cérebro não estava disponível para mim, o que me fazia ficar ainda mais desesperado. Numa epifania, entre lutas e choros, juntei a força que eu quase não tinha e dei um grito alto: — Capitão! Soou o mais agudo que já ouvi. Eu não estava pronto para morrer, ainda tinha vinte e três anos e tão pouco aprendi do mundo. Desesperei-me outra vez, desta, um pouco esperançoso, e consecutivamente comecei a engolir aquela fumaça com mais força. Com mais força também tentava empurrar aquela madeira que me esmagava de pouco em pouco, até que por instinto eu simplesmente a projetei voando de mim e parando longe. E assim aconteceu. FLASHBACK - PARTINDO DE ANDORRA O CAPITÃO GULIAN AVISOU MAIS CEDO que aquele seria o nosso último dia em Andorra, portanto, adiantou que eu fizesse logo tudo o que eu planejava fazer, devendo estar no Dergo antes do dia escurecer. Fui correndo até a biblioteca e arranquei do livro todas as informações de mais necessidade para que eu me iniciasse nesse meio. Então calejei meus dedos ainda mais, ao escrever páginas e páginas no meu pequeno livro. Revoltado, percebi que não caberia tudo ali, mas eu era o sumo do capitão Gulian Beho, eu poderia facilmente arranjar outros livros em branco com o homem da recepção. Eu não precisava. Tudo já estava gravado na minha cabeça, mas quando a informação é valiosa demais, os sumos não podem se dar ao luxo de negligenciar a aprendizagem e permitir deixá-la salva apenas na mente. Às vezes, pelo menos umas cinco vezes na vida, nós temos esses brancos que duram dias, semanas, fazendo com que esquecemos até de nosso nome. Quando voltamos ao normal, muito do que aprendemos na vida se vai e nunca mais conseguimos lembrar. Fixo nessa ideia, escondi o livro abaixo de uma pilha de outros, tranquei a minha sala e fui até o balconista. — Olá — me apresentei e ele logo arreganhou os lábios, mostrando-me seus dentes amarelados. — Deseja algo, Telo? Fiz que sim com a cabeça, mas estava nervoso. Eu estava me aproveitando de um humano; isso simplesmente não era de meu feitio. Mas quando a necessidade aperta é aí que as coisas acontecem. — Livros vazios. — Engoli em seco. Ainda nervoso, mostrei não estar. — Preciso copiar algumas coisas e no meu não caberá tudo. — Tentei fazer a pose de frio, objetivo e imparcial do capitão quando inquere algo. Os outros sumos me fitavam com olhos interrogativos. Imaginei o que deveria estar passando em suas mentes, mas não me deixei abalar. O jovem balbuciou, mas se deparando com a minha pose, logo se abaixou e do meio daquele balcão tirou dois livros maiores que os meus e me entregou. — É o suficiente? — Fiz que sim com a cabeça. — Faça bom uso. — E sorriu falsamente ao terminar com um aceno de cabeça. Saí dali, boquiaberto. Consegui me aproveitar de um humano. Como eu me explicaria com o capitão? Mentiria? Isso não. Balancei a cabeça para afastar o pensamento dela, cheguei a sentir uma tontura passageira, forçando-me a parar para não tropeçar em meus próprios pés. EU ME APROVEITEI DE UM HUMANO! Era tão eletrizante que meu rosto não conseguia esconder o sorriso. Bastou alguns dias com a corda do meu pescoço mais frouxa para que eu começasse a me sentir como eu me sentia antes do capitão ser capitão. Na verdade, eu me sentia ainda mais livre que antes. O dia foi longo e graças ao fato de eu conseguir escrever rápido, pulando também as partes onde havia muitas enrolações e resumindo outras, consegui encher meio livro de informações e o sol ainda ardia lá fora. Escrevi todos os alertas depois. Não os precisava na frente, já tinha noção de que existiam dezenas de maneira de fazer coisas erradas e eu já as sabia de cor. Aproveitei o tempo extra para vagar na biblioteca, averiguando se não tinha deixado nenhum outro livro de magia perdido passar despercebido, mas ainda que achasse, não daria tempo de lê-lo, já que usei todo o restante do meu tempo procurando pelos diversos pavimentos da biblioteca, idolatrando e imaginando que livros maravilhosos não teria naquele último andar onde eu nunca estaria. Acabou que não foi necessário que eu me explicasse com o capitão Gulian sobre os livros que levei ao Dergo, ele não notou. Nunca notava como eu estava e o que carregava.             DE VOLTA AOS DIAS ATUAIS DA HISTÓRIA...
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