Em brasas

1227 Palavras
À MEDIDA QUE EU VISLUMBRAVA as coisas na minha mente, elas aconteciam. Era como um desejo tão forte, impulsivo e até inconsciente, que conforme eu imaginava as coisas na cabeça, elas aconteciam na minha frente com um centésimo de atraso. Foi tudo tão rápido e instintivo. Mas agora eu sabia! Emoção. Precisava de uma emoção forte, muito forte. Isso, e ver o caminho pelo qual o objeto percorrerá, que nesse caso foi facilitado por todo o cômodo estar infestado de fumaça. Eu tive foco e determinei, sem hesitar se daria certo ou não, o que eu precisava fazer. Eu só fiz, como uma explosão de consciência. Num último resquício de pensamento e ordem que me restava. Percebi que Caero me olhou com temor depois de contemplar o que eu podia fazer; o que ele poderia aprender a fazer. Cheguei a perceber dele um fio de interesse e isso me deixou com medo. Levantei-me imediatamente, mas não consegui simular a emoção. Eu não projetei sentir nada da outra vez; minha mente estava tão agitada e ainda assim tão silenciosa. Por isso funcionou. A impressão que eu tive era que se eu pedisse para a magia acontecer, da mesma forma como você pede para o braço se mexer, ele não se mexe. É difícil de entender, mas não se pede para o braço se mexer. Tampouco se faz algum esforço consciente mental. Apenas mexe o braço. Senti a magia funcionar assim. Eu só sabia que eu precisava repetir aquilo, então olhei à minha volta. Tudo desmoronava, o fogo voltava a arder a pele e a fumaça ardia os pulmões e os olhos. Eu precisava me desesperar como se fosse eu ali. Ele é um sumo, sentimos empatia, devo me colocar em seu lugar dentro de minha mente. — Como? — ele perguntou, sua voz estava tão baixa, em meio a todo o barulho à volta que quase não entendi. Mas não precisaria entender. Somado ao fato do que aconteceu e prováveis perguntas em sua mente, ele poderia dizer: “milho”, bem baixinho, que eu entenderia algo relacionado ao que fiz. — Emoção, controle, concentração e foco — respondi respectivamente como li no livro. — De acordo com a teoria. Já de acordo com a minha prática...? Instinto e necessidade. — Telo! — o capitão Gulian exclamou ao me ver da porta. Olhei para ele, apavorado e aliviado. — Capitão, o sumo do duque está preso. O capitão entrou no cômodo, olhou para Caero e se fez pensativo em meio aos olhos ligeiros que acompanhavam afoitos toda a destruição à nossa volta. — Ele é o sumo do duque. Deve morrer junto ao seu senhor — alegou e em seguida me puxou pelo braço. Mas eu me soltei dele e me mantive onde estava. Esperava um soco súbito vindo dele; um soco que me desmontaria instantaneamente, mas o que tive foi só um olhar estranhado. Ele já estava desacostumado a me ver desobedecendo sua palavra. Já fazia tanto tempo que eu não o dizia não. Mas não foi eu quem o desobedeceu, foi o instinto fraterno por outros sumos. Eu entraria em mais contradição ignorando a empatia e deixando Caero morrer que desrespeitando o capitão. — Ele pode nos ajudar, caso o senhor tenha matado o duque de Tamre. Ele provavelmente é mais estudado do que eu. É o cérebro de um duque, poderíamos usá-lo para muitas coisas. — Ele vai morrer, Telo. Olha o sangue abaixo do corpo dele, se espalhando — o capitão alegou com frieza ao me apontar. Parte do tronco de Caero estava esmagado. Talvez por estar em choque, ele não tinha noção da gravidade. — O senhor poderia sequestrar algum médico da cidade e levá-lo conosco no Dergo — argumentei, ainda me opondo ao homem que tinha todo o direito do mundo para me matar, caso desejasse. Ele me empurrou ao passar por mim, como se eu fosse um objeto qualquer à sua frente, abaixou-se e, fazendo força, ergueu o pilar a alguns centímetros. Ele gritava pelo peso e suas pernas tremiam. Corri e puxei mais do que imediatamente Caero de baixo do pilar e, assim que ele estava a salvo, o capitão soltou a coluna. Não esperou nada e logo pegou Caero no colo, com o pobre gemendo de dor, e o levou dali. Segui os dois tenteando com os pés sobre o solo em chamas. Fora do que já foi um belo palacete, os homens do Dergo estavam à espera do capitão. Mero, um marujo, pegou Caero nos braços, do mesmo jeito que o capitão Gulian o havia pegado, e o levou dali, com ordens de deixá-lo a salvo no Dergo. Descemos todo o morro de pé e cerca de uma hora e meia depois chegamos ao navio. Vitto estava nele, revoltado e enojado. A cidade queimava, ardia e pessoas corriam dela por todos os cantos, gritando, chorando e morrendo. O capitão aproveitou que pessoas queriam fugir de Malpes e deu a chance de eles saírem. Isso se aceitassem ser escravos do Dergo, é claro. Nisso, uma porção de gente que não coube nas celas, entrou no navio e em outros menores que ainda estavam lá. Aos capitães desses navios, o capitão pediu para carregarem as pessoas e em troca ficassem com eles como escravos, pagando apenas uma comissão ao capitão Gulian por ter arranjado a “mercadoria” gratuita para eles. Após estar rico com a escravidão de bom grado dos sobreviventes malpesoten, o capitão Gulian deu as ordens que precisava para sairmos de Malpes, ou do que já foi um dia a cidade da fumaça. O crime do capitão foi muito além de queimar toda uma cidade. Se alguém contar que foi o capitão quem matou o duque de Tamre, ele estaria muito encrencado com o Poder Marítimo. Mais do que estará quando chegar ao ouvido deles o que aconteceu ali. O Poder Marítimo era o policiamento dos príncipes continentais. Cada continente tinha um príncipe. Eles cuidavam da ordem de todo seu continente. Tinha um poder semelhante aos dos reis, e cuidava de assuntos da mesma ordem, embora de forma mais superficial, buscando não se intrometer muito nas decisões reais. Chegava a eles apenas os casos mais extremos, aqueles que precisavam de um esforço maior para se resolverem. Caero ficou aos cuidados de Jeão, o chefe de cozinha do Dergo que também servia de médico, junto aos homens feridos da batalha. Juntos, Jeão e eu, determinamos que Caero havia quebrado cinco costelas: três do lado direito e duas do esquerdo, que tinha rompido o baço, um pedaço do fígado e a vesícula biliar. O pâncreas foi machucado, mas não achamos necessário que o retirássemos. Além do que, as chances de Caero diminuiriam. E se vivesse, sua vida seria difícil. Por sorte, o líder da resistência havia desmaiado ao chegarmos ao Dergo, o que nos facilitou mexermos dentro dele. Após termos sido cuidadosos, fechamos o corte com linha de tripa e o deixamos numa talha. A possibilidade de ele viver não era grande, mas tínhamos fé. O cozinheiro lhe deu ervas para tomar por um cano que ia da boca direto ao estômago, e no corte e em toda a ferida deixou algumas folhas que ajudaria na cicatrização, na inflamação e na dor. Alegou ele que tudo naquela região ficaria meio dormente enquanto as folhas ali continuassem.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR