Revanche

1336 Palavras
Estava tudo certo. Eu já podia até ver o verdadeiro sorriso de Gulian — leve e sem preocupações — se formar em seu rosto. Tudo se encaminhava para o desfecho que o capitão arquitetara e de quebra eu voltava a sentir o remelexo de um navio navegando em mar aberto. Só a coceira da ferida do demônio que me incomodava. Cada navio mancava no mar de sua própria maneira, independentemente de as águas do oceano estarem calmas ou agitadas. Inclinava muito ou pouco, era suave ou duro, sempre da mesma maneira. Era o carimbo que cada um deles deixava em nós. Se você viver ao menos uma semana num navio entenderá seus movimentos e mesmo vários dias depois de ter saído, você o sentirá. Você aprende a andar e equilibrar um copo de água transbordando em água. O mancar do Dergo ficava na minha cabeça. Eu sentia seu balançar no meu corpo como uma palpitação que contrastava com o balançar mais seco do Urso Montanhês. O Dergo era mais largo e maior, por isso era muito mais pesado e não era qualquer água que o balançava. A única parte boa do Urso Montanhês era que as redes balançavam ainda mais que as do Dergo. Seguimos por dois dias afinco na direção que o capitão dizia que o Dergo estava seguindo. Ninguém parecia ter noção de como ele sabia, mas ninguém o contestava. Se ele dizia, o capitão Puaktu ordenava para que seguíssemos. Estava para findar o terceiro dia quando, no castelo da proa, Gulian gritou, apontando: — Lá está! Lá está o meu Dergo. Levantei-me do chão de súbito e deixei meu livro de magia cair de qualquer jeito no chão. O Dergo se encontrava ancorado próximo a uma ilha pequena. À sua volta estavam algumas fragatas. A diferença entre elas e o Dergo era gritante. O Dergo tinha duas vezes o comprimento, quase duas a largura deles e muitas vezes mais alto. Além do mais, o Dergo tinha as listras amarelas e pretas, marcantes e próprias sua, que a identificava dos demais Joinkty. Uma parca iluminação da lua mais escondida já mostrava as suas linhas amarelas. Me perguntei o que o Dergo fazia ancorado ali. Esperávamos que ele estivesse ao menos um dia dali de viagem. Mas talvez Vitto procurasse novos recrutas. O Dergo era o mais rápido de sua categoria, mas considerado de velocidade mediana em questão à velocidade geral dos navios. Mas para atingir toda a sua velocidade, precisava de pelo menos treze homens. Eram muitos mastros, muitas velas, muitas amarras e muita correria. Sem esse total, o ritmo diminuiria e, se precisasse enfrentar algum pirata Excedente no meio do mar, Vitto perderia o Dergo. O capitão do Urso Montanhês o ancorou longe o suficiente para canhão algum o acertar ali. Ninguém sabia o motivo daquele agrupamento de fragatas. E se quisessem guerras, acabaria com o velho Junco de Puaktu lastimavelmente. Vi o capitão olhar de olhos arregalados para o velho. Eu sabia que ele entendia o motivo, mas ele não queria ficar longe. Ele queria ser lendário. Pular de um navio ao outro, começar uma briga com seu primo e tomar de volta a sua b***a. — Desliguem os candeeiros — ordenou Puaktu. Seus homens começaram a ir de lamparina em lamparina e as apagar. Depois, ancoraram o Urso Montanhês e ficamos em absoluto silêncio. No entanto, já havíamos causado muito barulho com a âncora e os gritos de ordem. O capitão Gulian descia das escadas do castelo da proa enquanto o capitão Puaktu descia do castelo da popa e caminhavam até o convés. Eu fiquei parado, observando, até fechar os olhos por uma inundação de luz vinda de uma das fragatas. — É o Poder! — alguém gritou. Ao mesmo tempo outro berrou: — É o Poder Marítimo. Provavelmente o PM estava caçando o Gulian dentro do Dergo. Vitto não tinha a intenção de trair o primo. Se tivesse, já o teria feito nesse tempo. Teria falado que deixou o primo perto da costa de Genoas. Também tinha a chance de estarem atraindo o capitão até ali, mas a probabilidade era mínima. O meu primeiro instinto foi levar a mão à frente do rosto para diminuir aquela luz ofuscante vindo da torre de farol do navio do PM. O meu segundo instinto foi gritar para o Gulian: — Se esconda. — Aquele desgraçado me traiu — ele murmurou antes de colocar-se a correr dali. Quando alcançou o capitão Puaktu, o vi dizendo para ele: — Você será protegido por todo o sempre pelo Capitão Gulian Beho. Sendo assim, intocável por qualquer um que não quiser atiçar a minha fúria. Basta me manter vivo e bem escondido no Urso Montanhês, para que sua vida melhore drasticamente a partir de hoje, capitão. Puaktu hesitou por pouso mais que dois segundos para então assentir com a cabeça, levar a mão do Gulian e o puxar para correr dali. Mesmo com a luz que zanzava de uma ponta a outra do navio, Gulian não estava tão visível, já que o convés estava repleto de marujos e grumetes. Qualquer movimentação era justificável pelo fato de os Excedentes e o Poder Marítimo não serem amigáveis uns com os outros. Eu fiquei parado. Talvez só o atrasasse se eu tentasse o seguir. — Já para suas posições! — gritou algum líder abaixo de Puaktu. — Armeiros, preparem os canhões, fiquem em posição com suas flechas flamejantes, saquem suas espadas e machados. Vamos lutar, se for preciso. Não estávamos pertos o suficiente para sermos atingidos por canhões e nem para atirar. Os inimigos também não recolheram suas âncoras e do Urso Montanhês não chegava qualquer som que indiciasse que uma batalha se aproximava. Aproximei-me mais do estibordo e me agarrei ao parapeito assim que notei uma movimentação. Alguns homens de Puaktu fizeram o mesmo e, no meio do clarão que quase nos cegava, percebi um bote vindo em nossa direção. — Há um bote de aproximando — gritei Assim que foi percebido pelos demais, eles voltaram para trás e sacaram suas armas. Desta vez foi o marinheiro que liderava os demais que se aproximou do parapeito para ver. — São só seis homens — ele anunciou. — Se quisessem nos machucar viriam em mais. — Olhou para trás. — Esperem que eles subam para ver o que querem. — Então fez gesto com suas mãos para que os homens abaixassem seus instrumentos de batalha. — Vamos levantar muitas suspeitas já com as armas em mãos. Por favor, guardem-nas, mas fiquem preparados para o pior. Esperamos que chegassem. Reconheci Vitto cercado por cinco homens fardados de azul marinho, com a insígnia do Poder Marítimo junto à insígnia do príncipe continental de Norneu. A insígnia do príncipe era uma fragata bordada navegando em águas com leves ondas e uma águia de asas abertas, olhando para o lado. A insígnia do Poder Marítimo era um escudo prateado com as letras PM bordada em n***o ao meio. Corri até um barril e me escondi atrás dele. Duas paredes humanas de piratas se formou, desenhando um corredor, enquanto o bote se aproximava e os seis homens subiam no Urso Montanhês. A minha vontade era de enfrentar Vitto, mas eu não sabia se ele estava do lado dos PM, por isso esperei para descobrir. Quando os seis já estavam no navio, notei Vitto revistando o lugar com seus olhos. Como ele tinha o costume de me achar quando eu menos queria, seus olhos passaram pelos meus, percorreu pelo navio e, então voltaram a me encarar. Tinha alguma arrogância no seu olhar que se desfez ao me reconhecer atrás daquele barril. Um PM se virou e olhou para ele e o pegou me olhando. — Viu alguma coisa? A expectativa corroía a minha mente. Meus olhos ficaram mais atentos enquanto, com a mão, abaixei meu cabelo e o mantive baixo. O encarei até ver Vitto balançando negativamente com a cabeça. — Não. Tenho certeza que Gulian já esteja bem longe do mar a esta altura, senhor.
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