Primos

2117 Palavras
Me abaixei sem causar um ruído sequer. Eu estava certo. Vitto não tinha entregado o primo, mas assim me sobrava outra teoria: a notícia de que o capitão estava amaldiçoado já tinha ido longe ao ponto de ele já ser procurado, ou então o estavam caçando pelo o que ele fez em Malpes. De todo o modo, a notícia viajou tão rápido quanto nós. Enara deve ter dado um jeito de espalhar seu feito por meio de algum artifício mágico. Aparentemente ela tinha poder o bastante para isso. Ouvi a conversa de um PM com o homem que estava liderando os marujos do Urso Montanhês, pedindo permissão para procurar um homem perigoso e já condenado à morte pelo príncipe continental de Norneu. O homem permitiu que procurasse pelo capitão no navio e abriram caminho para que seus homens passassem. Quando Vitto sumiu de vista, junto aos PM, me coloquei de pé e misturei-me aos marujos. Eu já tinha a minha prova de que Vitto não era um problema. E como nada em mim estava estampado ser o sumo do capitão Gulian, não era problema que me vissem. Procuraram por minutos e não acharam o capitão. — Eu te disse. Ele já deve estar bem longe do mar — ouvi Vitto dizendo para o homem enquanto passava por mim e me olhava. Repentinamente o homem se virou. Minha inspiração se transformou num gemido pelo susto e arrumei a minha posição. Ele me passou um olhar, depois me ignorou e olhou para os homens à minha volta. O sujeito caminhou calmamente para trás e depois para a frente, erguendo a visão aos mais altos e abaixando até a mim. Nos observava de um jeito intimidante, como se buscasse respostas olhar. — Aquele que me entregar o capitão Gulian Beho pode ganhar a oportunidade de entrar para o Poder Marítimo e abandonar essa vida nojenta e miserável que seguem. Uma sequência de homens cuspiu no chão, sem procurar encarar o PM. Eu não fiz o mesmo. Se eu faltasse com o respeito com ele, o sujeito poderia, com todos os direitos assegurados, me espancar a modo de descontar qualquer frustração que estivesse tendo. Ele queria que eu fosse seu saco de pancada, pois olhou para mim logo em seguida e para o chão à minha frente. Miserável. Sou inteligente o suficiente para saber meus limites. Quando ele ergueu a visão novamente, a luz do farol se projetou em mim e virei a cabeça de leve, fechando os olhos. Imediatamente fui chacoalhado e, quando abri meus olhos, eu já estava de cara com a barriga do homem, enquanto seus dedos se fechavam em meus cachos. Fiquei parado, resmungando as dores que sentia pelas chacoalhadas. No meio delas vi Vitto me olhando de canto de olho, até que o homem virou a minha cabeça a modo de eu poder ver ele. — Qualquer sumo carrega cicatrizes — virou mais a minha cabeça para trás, a modo de mostrar bem o meu pescoço. — Mas nunca vi nenhum sumo vivo carregando uma cicatriz de um corte grande no pescoço, como as histórias de seu senhor descreve que você tem. Merda! Eu e o meu ego de querer me colocar nas histórias de Gulian. Eu já odiava ser conhecido por estranhos. — Você é Telo. As emoções fazem as pessoas ficarem menos inteligentes. Eu avaliaria tudo para me colocar em um lugar visível a um inimigo de Gulian. Eu nem deixaria que Vitto me visse de longe se eu não estivesse vivenciando tudo o que eu sentia quando mais novo. Caero estava certo que a falta de sentimento nos faz ver melhor as coisas e nos torna, assim, mais inteligentes. Mas o Gulian mudou o seu tratamento comigo e isso me fez expor o que eu guardava, sobrando assim espaço para se criar novos sentimentos. E isso bagunçava a minha cabeça. Eu já não pensava mais tão claramente como o desejado costumeiro. Mas eu era muito bom em pensar em momentos difíceis e de pavor. Todos os sumos são treinados a pensarem rápido, mas eu gostava de dizer que eu nem precisaria de treino para conseguir o que eu conseguia. — Sim, senhor. Sou Telo, o sumo do capitão Gulian Beho que está entrando no Dergo pela surdina neste instante e tomando o seu navio enquanto eu estou aqui servindo de distração. — Seus dois desgraçados — berrou Vitto ao esbugalhar os olhos e colocar-se a correr dali até o estibordo. — Espera! — gritou o PM. — Não tem como seu primo ter ido até o Dergo. Tenho homens olhando a água. Se o vissem, disparariam flechas. O sumo mentiu. Vitto fez que não com a cabeça. — O Telo não mente. Meus lábios se esticaram e quando o homem me olhou, eu sorria. Isso o fez ficar em dúvida. Talvez estivesse dividido entre aquele meu sorriso significar que eu estava sim mentindo ou se o Gulian estava mesmo em seu navio. Ele não sabia o que aquele meu sorriso significava. Talvez fosse por isso que seu punho me acertou no meio da cara logo depois. — Você vem comigo, seu monstrinho mentiroso — ele disse. Gritei de dor e as minhas mãos tamparam meu rosto logo depois, sentindo o sangue morno escorrer pelas narinas. Minha visão ficou um pouco desfocada e a dor do soco latejava com violência anestesiada. Meu mundo girou todo quando o PM me colocou em seu ombro. — Você é precioso, Telo — o homem evidenciou. — Vamos ver se ele prefere o Dergo ou você. Com você, eu compraria um navio daquele e mais uma ou duas fragatas. Ou senão uma frota enorme de fragatas. Ele não vai ser i****a de fugir com o navio dele enquanto eu fico com você. — Não querendo te aborrecer tanto, senhor, mas eu não contaria com esse trunfo. Ele já esteve numa situação parecida e acabou escolhendo ser o capitão do Dergo que o meu senhor. A cicatriz que me entregou como Telo é a prova de que ele sempre vai escolher o Dergo a mim. Leia o livreto A Ascenção de uma Lenda para que o senhor se decide por si só. Ele começou a descer a escada para entrar no bote. Vitto já estava o esperando com os remos seguros e olhando para cima, quando uma janela se abriu ao nosso lado e as mãos de Gulian seguraram o homem pelo braço e o puxou. A escada feita de madeiras amarradas em cordas obedeceu a força do capitão e todos fomos chacoalhados e forçados a entrar janela adentro. Caímos no assoalho de madeira do porão do Urso Montanhês e rolamos. Eu gemia e me lastimava pela dor que senti no cotovelo que bateu ao cair no chão, enquanto o PM já estava nas mãos do capitão, sendo socado repetidas vezes até perder a consciência. Quando o Gulian o soltou, caminhou até onde eu estava e me levantou pelo braço. — Nós temos que fugir daqui, Telo. — Capitão, eu tinha tudo sobre controle — disse assim que ele me largou para que eu o seguisse logo atrás. — Eu vi o seu controle, Telo. Você o seguiria, sabendo que eu não estava lá. O Poder Marítimo iria me procurar o tempo todo no Dergo e não me acharia. E sabe o que aconteceria com você? Você seria morto ou apossado como um ajuste de conta pelo Poder Marítimo, só pelo desconforto que eu os estou dando por não me entregar. — Ao menos o senhor estaria livre para fugir. Os homens já tinham decidido que o senhor não estava aqui. Esse navio estaria livre para que o senhor tivesse outra oportunidade para se apossar do Dergo. — O Dergo sempre será meu, Vitto sabendo disso ou não. Já você, Telo. Você é valioso demais para eu te perder. Você precisa ter mais responsabilidade. Não pode se entregar à morte ou a serventia a outros senhores assim. Você é caro demais, Telo. Não me dê esse prejuízo. Ele olhou para trás. A luz do farol entrava pela janela tão intensa que clareava o corredor. Olhei também, temendo que ele estivesse vendo alguém, mas não vendo silhueta alguma, ergui a visão para ele. — Mas, Gulian... — Mais nada, Telo! Parece até que não pensa direito. Que falta de responsabilidade comigo é essa? Eu esperava mais de você. Meu estômago doeu pior do que se eu tivesse levado um soco. O ar chegou a me faltar e a visão embaçou imediatamente. Depois, a água que se acumulou nos olhos rolou pelo rosto e eu o abaixei imediatamente para que ele, lá do alto, não me visse chorando. — Agora eles me viram puxando o soldado do PM para dentro. Ou seja: temos que fugir. — Ele apontou para o bombordo do Urso Montanhês. A costa do continente está a uns trinta minutos de nado daqui. Espero que você nade rápido hoje, senão a sua lerdeza vai me entregar. Fiz que sim com a cabeça. — Sim, senhor. Vou nadar o mais rápido possível. Colocamo-nos a correr então, mas antes de atravessarmos o navio, cruzamos caminho com os soldados que vieram com o líder já abatido, para a revista do navio de Puaktu. O capitão desembainhou a Jafees ao mesmo instante em que todos eles. E então um círculo se fechou. Quatro inimigos para um único homem. Seria uma batalha difícil, mas o capitão já tinha se encontrado em situações similares. O primeiro investiu um ataque seco e direto com a sua espada para cima de Gulian. O capitão desviou e... Meus olhos cresceram. Eu já o tinha visto dar aquele golpe centenas de vezes e sempre ele passava a Jafees rasgando nas costelas do inimigo, mas ele apenas o chutou e o homem caiu no chão. Outro veio por trás, enquanto ele cuidava de um que veio logo após o primeiro cair. — Capitão! — gritei e apontei. Ele olhou para trás. Ele deu um passo para trás, separando sua espada da espada do outro homem, para que, ele, com uma espada apenas, não acabasse sendo atingido pelo sujeito que chegou do nada. Enquanto o capitão lutava, ouvi passos ligeiros vindo do corredor até nós. Espremi-me contra um pilar por instinto antes de olhar em sua direção. Era Vitto com a sua espada já erguida. O capitão passou um rápido olhar em sua direção e então uma coisa tomou o homem que o fez ser mais veloz nos ataques, talvez almejando estar livre para poder brigar com o primo menor sem empecilhos. No entanto, sua expressão mudou quando percebeu Vitto brigando contra um dos homens que rodeavam o Gulian. Até eu arqueei as sobrancelhas. Eu não o imaginava atacando o primo maior, mas também não previa uma ajuda vinda de sua pessoa. Não havia passado dois minutos para que os PM estivessem gemendo e se contorcendo no chão. No final, Gulian olhou para Vitto. Seus olhos estavam saltados e ele estava com aquele olhar observador. — Não pense que você vai voltar para o Dergo — avisou o primo menor. — Eu não me arrependo de nada do que fiz. Mas também não aceito bastardos miseráveis te caçando bem de baixo da minha vista. — Apontou para a janela. — Eu ouvi você dizendo que quer ir para o continente. Vai! Eu te dou cobertura. E vê se some de vista, seu panaca. Não fica me seguindo para tomar o Dergo de mim. — Quando eu conseguir o tomar de você, não farei nada mais do que você já fez comigo — Gulian berrou. Vitto tinha uma expressão de pena no rosto. Sem desviar o olhar, guardou sua espada, passou um rápido olhar na Jafees, inspirou e disse: — Você não vai ter mais paz, primo. Não vai te sobrar fôlego para correr atrás de mim. A sua bruxa fez tudo o que falou que faria. Não sei que magia ela usou, mas o mundo inteiro sabe que você está frágil. Tem todo o tipo de recompensa para quem te capturar vivo ou morto. E vamos concordar que é mais fácil te capturar morto. — Gulian não disse nada. Vitto apontou para os homens no chão. — Eu não posso ter problemas com o Poder, então vou matá-los e dizer que foi você. — Apontou para a janela. — Agora vai embora! Gulian deu de ombros me fez um sinal para correr e correu. Passei um olhar antes para o Vitto. Queria ter voz para agradecê-lo pela ajuda, mas eu ainda tinha raiva dele por me enxotar do Dergo me jogando ao mar, por isso apenas coloquei-me a correr e, quando cheguei na janela, subi nela e me joguei.
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