Já no reino de Dabinlat, na cidade de Pirante Taé, conhecida por ter o maior porto de rio do reino, Gulian e Vitto furtavam como nunca. Os portos viviam cheios de comerciantes de todos os tipos, com todos os produtos. Dava até dó, pois eles vendiam e lucravam só para que os dois primos pudessem furtar uma parte.
Eles sorriam alegres por estarem prestes a quebrar o recorde de mais meudi que conseguiram num dia. Isso até decidirem roubar de uma garota de cabelo n***o e comprido, liso como de uma típica genoasoten, de olhos escuros como a noite e de pele clara e pálida, contrastando com a pele parda de todos os outros Dabinlatcos. Após ela perceber que foi furtada, a moça interrompeu Gulian de seguir, revelando da manga de seu vestido uma corda que jogou no ar, atravessando o espaço dela ao nosso, na direção de Gulian, enrolando em suas pernas e o derrubando ao puxar a corda de volta em sua direção.
Vitto tentou salvá-lo no instante seguinte, mas com a outra mão a garota fez o mesmo que fez com Gulian, só que acertou o braço de Vitto e o puxou na sua direção, o fazendo cair do cais ao rio.
— Está louca?! — vociferou Gulian.
— Devolve meu meudi — exigiu a garota, dizendo em catísdi.
A garota puxou a corda e voltou a lançar na direção de Gulian. A corda não o enrolou desta vez, só lhe deu uma lapada nas costas que o fez as envergar e gritar em choro.
— Não estar com nada de você! — respondeu ele na língua da garota.
Vitto se ergueu do rio e correu na direção da garota. Se atracou com ela com o corpo pingando água. Ainda sendo os únicos brigando ali, não era o suficiente para chamar atenção das pessoas. Elas apenas passavam, desviando da briga.
A garota soltou da corda e sem esforço algum deu uma surra em Vitto, como se fosse um homem treinado para matar, só que veloz e com todo o desempenho de uma garota irada.
Sem muito esforço voltou a lançá-lo ao rio e tornou com os olhos para Gulian, ou para onde ela achava que ele estava.
Gulian já tinha, a esta altura, me pego em seu colo e sumido por entre as pessoas apressadas do porto, correndo num ritmo desesperador. Percebi a fúria da menina vendo a sua expressão por de cima das cabeças das pessoas entre nós.
Gulian só parou minutos depois, após ter certeza que já havia distanciado o bastante para que a garota nos perdesse de vista.
— Estamos seguros agora — garantiu.
— E Vitto? — perguntei.
— Ele nos encontrará no outro lado da cidade, como é combinado — disse. Seu peito inflava e desinflava com pressa. A menina m*l tinha dois terços de sua altura e mesmo assim o fazia correr de medo. Fazia-o correr como uma menina em perigo. — Você viu como ela luta?! Ela nem me deu tempo de reagir.
Dei um riso seguido de uma gargalhada estranha, garantindo:
— Ela é boa.
— Só por causa daquela corda — ele resmungou. Sem seguida voltou a correr.
— Ela bateu bastante no Vitto sem elas — rebati e ele cortou o ar, me lançando um olhar desgostoso.
— Você está do lado de quem?
— Do seu lado! — tentei dizer o mais indignado e rápido possível.
— Então mostre que está! — Gulian rosnou, franzindo a testa.
Logo ele parou de andar outra vez, me colocou no chão, levou as duas mãos até o joelho, inclinando o tronco para frente e pegou todo o ar em volta. Sua respiração chiava, enquanto gotas de suor escorriam incessantemente de sua cabeça.
— Gulian!
A minha exclamação só deu tempo de ele levantar o corpo para cair em cima do meu. Machucou o meu braço, mas ninguém parecia se importar, já que rapidamente ele se levantou, passou a costa de sua mão no rosto e se arrumou para brigar outra vez com ela.
— Você deveria estar olhando caso ela nos seguisse — murmurou, sem se dar ao luxo de me olhar para brigar comigo.
Segurei forte o meu braço, abaixo do cotovelo, mas acima de onde estava ralado e muito dolorido, e chorei de dor.
— Devolve o meu meudi — repetiu a garota na sua língua.
— Não roubei seu meudi — respondeu Gulian em nossa língua.
A garota deu um curto grito e correu na direção dele novamente. Gulian conseguiu desviar dos golpes dela por um tempo, não muito. E quase foi uma briga justa, pois ele tinha força, enquanto ela a agilidade. Pensando bem, não era justo para ele, considerando o quão ágil ela era. Mas se Gulian acertasse um daqueles socos nela, a desmontaria. Não que ele fosse acertar, pois querendo ou não, ela era muito boa mesmo.
Distanciando um pouco, após dar alguns tapas e chutes precisos nele, que mesmo sem muita força o machucava, ela respirou e repetiu, agora em nossa língua:
— Devolva o meu meudi!
Talvez por estar cansado de repetir, ele simplesmente assumiu que o tinha com uma única palavra:
— Não!
— Ladrão!
— Cretina!
Ela, que estava alguns passos distantes dele, voltou a correr em sua direção, saltou e girou no ar, encaixou suas pernas no pescoço de Gulian, girou seu corpo, forçando-o a seguir os movimentos dela e o derrubou como uma fruta verde abruptamente colhida.
A garota o manteve no chão, tirou o saco de moedas de sua cintura, o abriu, enquanto com as mãos ele tentava impedi-la. Os dois se tapearam no chão, com a cabeça do menino entre as pernas dela. E no fim, a menina tirou seu meudi roubado e nem uma moeda a mais.
Do nada, Vitto voou em cima dela e a fez bater com a cabeça no chão. Ele saiu rolando e o meu pequeno corpo foi seu freio. Meus dedos dos pés quase encontraram com a minha canela e nisso soltei um berro.
Esse meu grito foi o suficiente para chamar a atenção das pessoas e logo alguns homens nos cercaram e pegaram Vitto, mas não a menina, já que mesmo com a testa cortada, ela se levantou e correu. Outros foram até Gulian, mas ninguém me pegou. Fiquei no chão, com o braço machucado e o tornozelo luxado.
— Me larguem! — Gulian exigia enquanto tentava se soltar.
Mesmo que fossem homens mais baixo que ele, e provavelmente mais fracos, juntou uma massa para carregá-lo dali.
— Para aonde estão nos levando? — Vitto interpelou. Se debatia tal como se colocassem uma coleira bem apertada numa cobra.
Como era um pouco menor e mais leve que Gulian, os homens levantaram Vitto do chão e conseguiram levá-lo nos braços.
Como eu fui sendo deixado para trás, peguei o saco de moeda do chão, fechei e os segui aos mancos. Mas a cada passo dado eu sentia aquela dor responder com socos na minha alma.
Gulian simplesmente não podia desejar um pior aniversário que aquele. E o resultado? Eles foram para um lar de órfãos, onde, para assegurar que Gulian e Vitto continuassem nele, me tirou de perto deles.
Eu era a fortuna de garantia de que Gulian e Vitto não fugiriam. Por isso fiquei preso num instituto de educação para crianças nobres. Era um prédio velho e assustador bem no centro da cidade, onde tudo rangia. Foi lá onde a maior parte de meus conhecimentos vieram. Ainda novo, muito novo, me colocaram como mentor de uma classe. Mas isso só após semanas de intensivos estudos e testes.
Eu tinha tempo de aprender para ensinar. Ensinar não era o ponto alto do meu dia. Vivia xingando aquelas crianças burras na cabeça. Não havia formas de ensiná-las; não havia formas de alcançá-las; não havia formas de enfiar aquelas informações em seus cérebros lerdos. Mas depois descobri que a culpa era parcialmente minha. Adotei então, através de sumos mais velhos e mais experientes, técnicas de ensino.
As visitas de Gulian eram muito rápidas e monitoradas por guardas fortes e maiores que ele. Então eu culpei a política da cidade por a minha amizade com o Gulian ter ficado estranha nessa época.
Outra regra que Gulian adotou era a seguinte: nunca mais roube de uma garota magra que venda coisas sozinha no porto. Pois se pensar bem, no porto há ladrões. Muitos. E se uma menina está sozinha vendendo, significa que não se amedronta com eles; que pode cuidar de si própria ou que é estúpida demais para mesmo sem garantia, arriscar ser roubada. De qualquer modo, havendo a chance de serem garotas lutadoras ou burras, Gulian não pretendia mais roubar de nenhuma delas.
Era como Jado vivia dizendo: a experiência faz a pessoa.
Foi aí que eu comecei a fazer planos para os quase três anos que nos restariam em Pirante Taé, já que Vitto tinha só quatorze anos e só aos dezessete que seria liberado do lar de órfãos. Gulian era um ano mais velho que o primo, e por isso um ano antes estaria pronto para ir embora. Mas Gulian não deixaria Vitto para trás.