Saímos do mar e tenteamos de quatro pelas pedras negras e limosas daquela região da costa do continente. O frio me inundou quase que imediatamente ao sair da água e sentir o vento gélido daquela noite soprar em nós.
Gulian me ajudou a sair das pedras. Elas eram escorregadias e eu caía e me machucava sem parar. Ele só caiu duas vezes e uma delas me levou junto. Quando pisei em grama silvestre, arfei e tirei a mochila do ombro. Coloquei-a no chão, tirei minha camisa ensopada de água e a torci. O capitão fez o mesmo. Depois a vesti e tirei a calça. Ele fez o mesmo, mas o frio era intenso igual.
— Temos que correr, Telo — o capitão me alertou.
Fiz que sim com a cabeça e, de olhos semicerrados pela irritação do sal da água do mar nos olhos, olhei para trás. O farol da fragata do Poder Marítimo vagava pela água, mas sua luz não chegava nem perto de nós. Perdia a sua intensidade muitas dezenas de metros dali.
— Correr por correr? — Olhei para ele. — Ou correr para algum lugar? Tem algum plano?
— Correr daqui, mas... — Ele passou a mão no cabelo e o agitou, fazendo espirrar água. — Mas vamos até Jeana. Ela vai poder me ajudar.
Jeana Beho aprendeu a arte da magia ainda nova, pouco depois de largarmos ela e Tahira para viverem à custa da cidade. Durante as viagens delas, junto ao pai de Jeana no velho Dergo, todos falavam dos dons mágicos não tão bem desenvolvidos que Tahira tinha. Eu era pequeno e por isso eu ficava fascinado e sempre por perto para ouvir tudo enquanto fingia estar brincando com algum brinquedo que Gulian me fazia.
Acabou que Tahira se envolveu, alguns anos antes de Jeana nascer, num coven de bruxas. Este mesmo, depois de sua morte — agora um pouco mais forte e com as filhas das suas fundadoras —, chamou Jeana para aprender as artes que sua mãe praticava com as mães delas em outras épocas. Ela não aceitou na época. Veio morar conosco e só depois de quase dois anos morando no Dergo, ela decidiu entrar no coven.
A vimos outras vezes, e ela voltou a fazer pequenas viagens conosco, mas nada que durasse mais que um ou dois meses. Sua última visita, nos confidenciou que se mudou para os cômodos suspensos que Vitto e Gulian construíram em Vasars. Ela deu o seu toque e o lugar ficou maior, melhor e mais assustador. O primo a sustentou por anos, até ela se recusar em continuar a ser sustentada por ele, pois dali em diante cobrava por trabalhos feitos por meio da magia. Gulian a visitou depois disso, mas se afastaram e não se viam há cerca de três anos.
— E se fôssemos ao Forte? Lá é seguro, Gulian. Os garotos de lá são seus irmãos de fé. Eles são obrigados por juramento a cuidarem de você. Sem contar que Onmbo fará de tudo para cuidar da situação. Lá tem bruxas. Bruxas poderosas. Várias, para desfazer o que Enara te fez.
Ele me olhou. Não estava sendo muito ele no momento. Estava mais incomodado e agitado que de costume e mesmo eu sabendo que ele estivesse me escutando e me olhando, uma parte sua parecia aérea.
— Você sabe que eu não sou de me esconder, Telo.
— Posso ser sincero com todo o respeito? — pedi e ele fez um movimento com as sobrancelhas. Entendi aquilo como um sim e prossegui: — Você está vulnerável. O que vai fazer no Forte é tirar essa sua fragilidade “sua maldição” para lidar com seus inimigos de igual por igual.
— Meu pai sempre disse — ele começou, já elevando a voz — que se você abaixar a sua cabeça para o inimigo uma vez, você terá de fazer isso sempre, porque se você não conseguiu coragem da primeira, no restante vai conseguir menos ainda.
— Gulian...
— Para mim, Telo — ele me interrompeu, elevando mais ainda a voz — ir ao Forte e me esconder lá, é ceder. — Gulian suspirou. — Além do mais, pode parecer, mas o Onmbo e eu não somos mais amigos. Não sei do que você se lembra de Earadro, mas eu matei o meio-irmão dele. Essa era uma vingança dele, e ele não me perdoou.
Não pude evitar de comentar. A liberdade me deu asas perigosas:
— Eu estava tentando não morrer com aquele corte no pescoço. — Seu rosto mudou de figura e boa parte da arrogância e irritabilidade dissipou do rosto, mostrando vergonha. Seus olhos encararam meu pescoço por um tempo. — Mas no final ele deu aquele discurso de que você era um modelo de exemplo de Irmão do Forte e coisas assim.
— O que eu posso dizer? Ele finge melhor do que eu.
— Mesmo não sendo amigos, acredito que não sejam inimigos. Você era o garoto de ouro dele, capitão.
Ele começou a caminhar. Imaginei que estava me ignorando, por se recusar a me responder, mas então quando peguei a minha mochila e coloquei-me a segui-lo, ele disse:
— Eu não vou me esconder, Telo! E a esta altura não posso arriscar em descobrir se o Onmbo só largou de ser meu amigo ou se é meu inimigo. Um pé meu perto do Forte e eu posso ser morto.
Tenteei com a cabeça, recusando-me a aceitar.
— Faz sentido um pouco.
— Faz todo o sentido — ele rebateu.
Vaguei com o olhar à nossa volta enquanto adentrávamos a mata.
— Capitão.
— Oh, meus Deuses! — ele sussurrou e indagou em tom calmo, mas já irritado: — Oi, Telo?
Hesitei antes de continuar. Ele não podia me recriminar por ser o seu cérebro.
— Se é uma bruxa que procura para reverter o problema, não acha que atravessar o Norneu até Jeana é arriscado demais? Tenho certeza que há pelo menos uma bruxa ao redor de cada grande cidade.
— Faz sentido — ele respondeu depois de um bom tempo.
Pensei em fazer como ele e dizer que faz todo o sentido, mas eu era humilde e me contentava com o simples ganho.