GULIAN AVALIOU E DEFINIU A ROTA. Eu sugeri coisas, mas eram raras as situações em que ele me dava ouvidos.
O Poder Marítimo talvez esperasse que seguíssemos em linha reta para o meio do continente, buscando nos esconder deles, mas ao invés disso, seguimos pelo litoral até voltarmos à cidade de Isnarestra.
Havíamos encontrado um viajante na estrada e ele nos instruiu a procurar por Senhorita Geislin. Disse que ela era uma das mais procuradas e poderosas bruxa da região.
Após cinco dias de viagem chegamos à cidade. Gulian estava desmotivado a entrar numa taverna de quinta para pedir favores a Excedentes. Tampouco para se alimentar.
Muito vínhamos nos alimentando de pequenas caças. Eu que as pegava e então fazia a fogueira e as assava. Gulian estivera, durante esses dias, num estado de vegetação ambulante. Muito andava, muito pensava, e quase nada falava ou sequer ouvia o que eu falava. Estava sempre preso no pensamento. Sempre com aquele nó saltado entre os sobrolhos.
A tal bruxa Senhorita Geislin morava no bosque, um pouco afastado da cidade. Sua cabana era velha e saía fumaça da chaminé. Aproximamo-nos e batemos na porta. Ouvimos um som de alguém dizendo que já viria. Então passos distantes trouxeram alguém à porta. Senhorita Geislin tinha a pele n***a. Seu cabelo branco e liso não tinha mais que dois centímetros. Apesar do cabelo branco, sua aparência era de ter pouco mais que vinte anos. Não era alta, mas por ser esbelta, parecia.
Suas vestes eram várias camadas de tiras de panos limpos e todos em tonalidades e cores claras. O maior pedaço de pano estava jogado por sobre os ombros e caído nas laterais de seu corpo.
— Pois sim? — ela disse em Uinh.
— Senhorita Geislin? — Gulian perguntou. “Senhorita” era a única palavra que ele sabia falar em Uinh. Ele ouvira o homem falar e perguntou para mim porque o homem falava essa palavra antes do nome da bruxa. E então eu traduzi e ele entendeu.
— Quem quer saber? — ela indagou olhando para o Gulian. Ele olhou para mim e eu me apressei em traduzir para ele e responder:
— O meu senhor tem... — Limpei a garganta, passando um olhar para ele. — Ele tem o que podemos chamar de maldição.
A bruxa mudou a expressão para algo zombeteiro imediatamente.
— Oh! Ele fez alguém perder a paciência com ele, foi?
Ergui a visão para o Gulian e o vi cerrando o maxilar. Só as risadas dela era o suficiente para ele entender.
— Hmm... — Suspirei profundamente, enquanto pensava no restante: — Não entendo nada sobre maldições, minha senhora, mas tenho uma forte convicção que esta é uma das piores.
— Todos acham que a maldição jogada sobre eles é a pior de todas — ela continuou, seu jeito de pensar aliviou minha alma e me fez acreditar que o problema de Gulian não era tão r**m assim.
— E todos esses amaldiçoados disseram que uma legião de demônios os visitou depois da maldição e que os demônios mataram quase todos os que estavam pertos?
Ela pesou um pouco a expressão e olhou para o Gulian. Demorou para voltar a olhar para mim outra vez.
— Entrem, por favor, e me diga o máximo que você souber sobre a maldição jogada sobre ele.
Entramos e eu contei cada detalhe depois de Enara ter aparecido no navio. Nada foi chocante até o momento em que os demônios entraram na história. Senhorita Geislin ficou abismada. Ouvia cada uma das palavras que eu dizia com extrema curiosidade.
Quando a história acabou, ela vagou pela sua cabana, abriu livros, os folheou, foi até suas estantes, passou o dedo pelas lombadas e pegou um livro. Ela estalou a língua no céu da boca e devolveu o livro ao lugar. Depois procurou por mais um tempo, até se virar e caminhar até nós.
— Eu não tenho o livro aqui para me certificar, mas existe um punhado de leis que esta bruxa quebrou. Maldições são para corrigir falhas na personalidade da pessoa ou por simples maldade, que seja, mas todas devem ter uma solução para que a maldição acabe.
— Neste caso — adiantei — A solução não seria ele não matar mais ninguém?
Ela parecia estar em dúvidas quanto a isso.
— De certo modo... Ele não envelhecerá se não matar ninguém, mas ainda assim esta não é a solução, sumo. A solução seria ele poder fazer alguma coisa para não estar mais amaldiçoado. E se ela não apresentou a solução, é porque não há uma solução. Ela não queria mudá-lo ou melhorá-lo. Enara quis puni-lo de forma irreversível. — Ela andou pelo cômodo. — Qualquer bruxa sabe que ela pode ser penalizada à morte sem uma solução em sua maldição.
— E a maldição seria cancelada se ela fosse morta?
Ela deu de ombros.
— Não sei no caso dela — Senhorita Geislin suspirou. — Ela não é uma simples bruxa. Nenhuma bruxa humana conseguiria invocar demônios. Ela é uma Concubina.
Encarei ela, esperando o restante da explicação, mas parou ali.
— E o que uma Concubina é?
— Você não lê? — Senhorita Geislin me encarou. — Nunca leu as histórias dos antigos profetas de Canuóri? Demônios faziam as mulheres dos profetas serem inférteis para que eles procurassem concubinas férteis e tivessem filhos com eles. Essas Concubinas eram filhas mestiças de demônios, ou descendiam pelo menos de uma mãe ou avó mestiça de humano com demônio, para incluir crianças profanas em lares cristãos.
— E Enara é uma Concubina? — indaguei, descrente. — Mestiça de humana com demônio?
— Eu não posso te ajudar. — Ela nos empurrou porta a fora. — Ninguém vai querer te ajudar.
Gulian olhou para mim, esperando uma resposta para àquilo. Eu tinha muito tempo para lhe explicar o que aquilo significava e pouco para entender os motivos da bruxa, por isso ignorei sua reação.
— Por que mudou de ideia?
Quando estávamos já do lado de fora, ela trouxe a porta com tudo em nossa direção para fechar, mas o Gulian interveio e forçou do outro lado da porta, para que ela não fechasse.
A mulher desistiu e voltou a aparecer no nosso campo de visão.
— Ter mexido com uma bruxa não foi o suficiente, pirata? Quer irritar outra?
Puxei o Gulian para trás, segurando em ambas suas mãos.
— Ela vai te amaldiçoar também se a irritar, ela disse — traduzi já interpretado. Depois olhei para ela. — Por favor, senhora, nos explique ao menos o motivo de sua desistência. Somos dois leigos neste assunto sem entes que possam nos ajudar. Gostaríamos de ter, ao menos, um norte para nos orientarmos no meio desse confuso caos.
Ela ficou pensativa por um tempo, com a mão na porta, como se a fosse bater na nossa cara a qualquer instante.
— Em Andorra há apenas um clã. E ele é... — Estalou os dedos, buscando uma palavra. — Ele é... — Suspirou. — Tá! Deixa-me mudar isso. Entre as bruxas há um regime hierárquico semelhante aos dos piratas. E o clã de Andorra faz parte do grupo de clãs mais impiedosos e poderosos que existe em todo Uenoque. Eu — apontou para si — sou só uma bruxa de um clã poderoso, mas que não chega perto nem da sombra desses clãs. O que eu estou te dizendo é que ninguém vai ter coragem de enfrentá-la. Imagino que nem um clã tão poderoso quando o de Enara o faria. Numa batalha de bruxas podemos perder os nossos poderes e até nossas vidas. Ninguém vai se arriscar para salvar alguém por causa de uma maldição sem solução. O que Enara fez foi aleijar a alma e o corpo de seu senhor. E mesmo a lei exigindo que tomemos a dor de alguém injustiçado por uma maldição dessas, ninguém vai fazer isso.