TEMPESTADE ENGARRAFADA

2439 Palavras
A cidade de Isnarestra ficou para atrás, assim como a autoestima de Gulian que não era nada sem o Dergo. E com uma maldição sem solução, fazendo sua alma e seu corpo ficarem aleijados, se sentia ainda pior. Qualquer um que tivesse amor a sua vida ou a suas habilidades não ajudaria Gulian, e quando eu tentei explicar isso a ele, eu desmontei o ser humano que vivia em algum lugar ali dentro. Sobrevivíamos com pouco, já que Gulian não era bom caçador. Ele decidiu que iríamos até Vasars, a cidade que deixamos tantos anos atrás. Ele precisava da prima Jeana. Ela sempre dissera por cartas e em nossas visitas o quão poderoso era o seu clã. Eu esperava que fosse ao menos tão forte quanto o de Enara. Meus pés m*l aguentavam meu corpo leve. Doía muito e as pernas latejavam. Eu andava mancando, tomando cuidado em cada lugar onde pisaria para que não machucasse ainda mais a sola dos pés. Já Gulian, que tinha pés cascudos, andava como se começasse agora. Talvez fosse só o treinamento que teve na juventude para não demonstrar nada de si para o oponente ou para qualquer outra pessoa, porque no fundo ninguém quer saber se suas pernas estão doendo ou que seus pés estão sangrando e têm bolhas de água que estouram a cada maldita pedra pequena que você pisa. Ninguém se importa profundamente se você não está satisfeito com algo, apenas são educados e demonstram interesse ou revolta por você. Interesses e revoltas tão superficiais que, cegos por atenção, muitas vezes, não enxergamos ou fingimos não enxergar. Ao menos era isso o que ensinavam no Forte. Apressei os passos para seguir os de Gulian naquele serrado. Esperava no fundo que ele soubesse que aquele caminho era o certo, porque eu não fazia ideia. Olhei para ele e brinquei de tentar adivinhar o que se passava ali. Quais palavras, quais cenas ele vivenciava ali. Imaginava se termos sido visitados por demônios estivesse lhe atormentando; imaginava se termos perdido o Dergo e não termos conseguido o recuperar por causa do Poder Marítimo estivesse lhe incomodando; imaginava que se pudéssemos desfazer a visita a Andorra, ele desfaria. Não havíamos discutido nada disso mas, sozinhos, pensávamos. Um zunido passou raspando em mim e uma flecha perfurou a tora de uma árvore logo a minha frente. Antes de conseguir reagir, Gulian se abaixou e puxou meu braço para eu fazer o mesmo. Olhamos para trás e vimos a saraivada de flechas voando em nossa direção. Deslizando pelo chão, o Gulian terminou de subir a serra e nos escondemos atrás de uma grande pedra cinzenta. O coração quase saía pela minha boca e eu temia em tirar a minha cabeça da proteção da pedra e uma flecha acabar me acertando. — Miséria! — praguejou o capitão. — Quem poderia ser? — Qualquer um. Vitto disse que a sua captura, vivo ou morto, vale todo o tipo de recompensa, não foi? Gulian estirou o pescoço e uma flecha passou raspando sua cabeça. Ele se abaixou imediatamente e me encarou. — Será que foi a bruxa? — Pode ser que sim. Talvez ela esteja esperando cair nas graças de Enara ao ajudá-la a te desgraçar. — Mas e as leis que ela falou sobre as bruxas? — ele me indagou. — Humano algum respeita as leis! — Tá. Tá. — O capitão ergueu a cabeça e mais outra saraivada de flechas irrompeu o ar em nossa direção. Logo suas mãos alcançaram a minha bolsa transversal. Reagi franzindo a testa, para depois o ajudar. Gulian tirou do meio das minhas coisas um vidro tampado com uma rolha de madeira. — O que é isso? — indaguei. Ele ergueu o frasco de vidro com um conteúdo todo cinzento enevoado, sorrindo. Estava escrito em Uinh: tempestade vaporosa. Abismei-me com o tamanho que o poder de uma bruxa pode chegar. Elas conseguiam até aprisionar, num frasco frágil de vidro, tempestades e a selar com uma rolha de madeira? — Eu roubei da bruxa, quando estávamos na cabana dela. — Deve ser por isso que esses homens estão aqui. Ela deve tê-los mandado para pegar o vidro dela. — Ameacei de pegar da mão de Gulian, mas ele levou a mão para trás. — Deixe que eu entrego a eles o vidro. — Mas quem te disse que eu vou entregar isso a eles, Telo? Nós vamos usar essa coisa para fugir daqui. — E então pousou o dedo abaixo das duas palavras. — Eu entendi a parte da tempestade, por causa daquele marujo genoasoten que só me chamava de tempestade na língua dele, mas o que significa a outra palavra? — É melhor entregarmos o vidro intacto com todo o conteúdo. — Telo! — Ele estalou os dedos da outra mão. — Vamos. A outra palavra, o que ela significa? — Por favor... — clamei, o encarando sério. Ele fechou a cara e então eu suspirei e respondi: — Vaporosa. Significa tempestade vaporosa. Mas como você planeja usar isso para fugirmos? — É uma tempestade, oras — ele especificou. — Mas não sabemos como a tempestade reage e nem como vamos fugir durante ela. — Pousei minha mão na mão que ele segurava o recipiente. — E nem se é necessário misturar alguma coisa junto a ele. Essas coisas de magia é complicada demais, capitão. Você não tem ideia. — Nem você tem! Eu ergui as sobrancelhas. Era difícil me fazer de burro em alguma coisa, ainda mais quando eu já tinha uma palhinha de conhecimento sobre o assunto. Mas para o meu bem, eu fiquei quieto, puxei minha mão para trás e relaxei os ombros tensos. Eu implorava para que esse plano dele não desse errado. Ele queria se colocar na lista n***a de uma bruxa, como se já não bastasse estar na de uma bruxa Concubina. Se eu conseguisse usar magia regularmente, eu daria um jeito de nos tirar dali. Ergueria um vendaval de folhas, derrubaria algumas árvores, mas eu não conseguia nem erguer um cisco do chão. — Como ele é uma tempestade vaporosa, espero que faça confusão. Deixe-me ver o que ele faz antes de qualquer coisa. Quando ele puxou a rolha, um vapor subiu incendiando a nossa vista com um nevoeiro denso se encorpando numa tremenda velocidade. Essa tempestade vaporosa seria ótima para a nossa fuga. O capitão concordou, pois se arriscou em sair da proteção da pedra, estirou o braço e o abriu para o lado, jogando o líquido serra abaixo. Um nevoeiro se ergueu a nossa frente e se espalhou. Os homens deram uma pausa nas flechas e foi nesse instante em que me levantei. — Vamos correr — o capitão disse. Olhei em volta e percebi o frasco com ainda um resquício de líquido. Ao invés de correr junto com o capitão, me abaixei até a rolha e corri até o frasco. As flechas voltaram a voar nesse instante. No mesmo instante em que peguei o frasco e o tampei com a rolha, Gulian me puxou em seus braços e me jogou sob seu ombro direito. As flechas cantavam fino, passando perto de nós. Isso até uma acertar um pouco acima do meu tornozelo, num instante em que me senti desequilibrado sobre o Gulian e ergui as pernas. Mas ela não decidiu ficar ali. Como me perfurou tão artificialmente, rebentou a carne que a prendia e me fez um regaço na perna, arrebitando a carne. Gritei. Humano sem vergonha. Me colocou nas costas para que eu servisse de escudo para ele. Raça praguejada. Miserável. Nojento. Antes que a minha ousadia me permitisse dizer alguma coisa, o capitão se virou e então desisti de continuar a xingá-lo na mente. Ele começou a desviar as flechas que ele via que nos pegaria, usando a Jafees como um verdadeiro espadachim que era. Andando de costas e subindo ainda o restante da serra, ele acabou caindo por cima de mim. Meus ossos estalaram com todo o seu corpão exageradamente pesado me prensando. Ele rolou para o lado e eu ensaiei para me levantar, mas então uma flecha cantou fino acima da minha cabeça e se enterrou centímetros atrás de mim, na terra. — Telo, termina de subir a serra. —Tentei me levantar, mas senti uma fisgada na cabeça e voltei para o chão. — Telo! — O cabelo — respondi. — Meu cabelo está preso. — Peguei o monte embaraçado preso pela flecha e forcei a cabeça para cima. A flecha saiu da terra e meu cabelo ficou livre, mas sujo. Não fiz mais corpo mole. Levantei e, mesmo com as flechas tirando fino, subi a serra escalando com mãos e pés. O capitão veio logo atrás. Já no seu topo, olhei para a nossa frente. Estávamos encurralados. Engoli em seco e olhei em volta, enquanto Gulian me alcançava. As flechas cortavam o céu, tinindo, perto de nós. Eu m*l via os desenhos das árvores no meio da imensidão cinza, mas ainda assim aquelas pessoas sabiam para onde atirar suas flechas. — Capitão, estamos encurralados. — Não seja dramático, Telo. — Ele suspirou, olhando para baixo. — Não estamos encurralados. É só nos jogarmos até o rio. — O quê?! É um precipício. — Temos duas opções, Telo. A morte certa ou a duvidosa. Relâmpagos começaram a estrondar os céus e as nuvens outrora tão alvas. Pareciam querer parir um demônio de tão sombria. Pouco abaixo da serra percebi sombras se movendo em nossa direção. As flechas passavam cada vez mais próximas de nós. — Não sei se prefiro a morte certa ou a duvidosa — resmunguei. Gulian decidiu por nós dois qual morte enfrentaríamos, quando decidiu me empurrar. Uma ardência se espalhou pelo meu corpo vindo do coração e, na queda, vi ele pulando logo atrás de mim. — Caramba, é muito alto! Logo a minha tentativa estupida de encontrar um solo ou um apoio me fez girar no ar descompassadamente. O ar batia forte na minha cara e eu tentei encher os pulmões, mas ardia só de eu inspirar. Quando alcancei a água, seu tapa me fez gritar por instinto e deixei ir embora o pouco de ar que prendi. Afundei quase até o outro lado do mundo e então vi as coisas da minha bolsa se espalhando. Selecionei imediatamente os pertences mais necessários; tracei, aos desesperos, uma rota de pegar todos os que eu mais queria e nadei para buscá-los. O que sobrara da tempestade vaporosa afundou junto comigo, mas o ar a fazia subir, e ela era um dos últimos itens da minha rota de recuperação. Mas ela subia mais rápido do que eu conseguia. Comecei a sentir necessidade de respirar, mas a roupa me atrapalhava de nadar e o sol refletia na superfície água tão longe de mim. Peguei algumas coisas, mas comecei a ignorar as restantes. Mesmo se eu conseguisse ir correndo com as minhas pernas lá para cima, eu não chegaria a tempo, imagina nadando e tendo de pegar as coisas. Decidi então focar no que subia e não no que descia. Se eu pudesse ter a sorte de pegar aquele vidro, eu o destamparia e talvez o vapor que subisse para cima e me ajudasse a chegar na superfície a tempo de engolir pouca água no meu afogamento que estaria por vir. O desespero começou a me tomar conta. Eu queria tirar a minha roupa pesada, que me atrapalhava de nadar, mas temia que eu fosse perder muito tempo nisso e a diferença depois, fosse mínima. Os meus pulmões começaram a contrair e tentar puxar água para dentro. Eu forçava a manter todas as vias fechadas como podia, mas a força do meu corpo implorando por ar era mais forte. Minha cabeça começou a anuviar e eu já não estava mais tão lúcido. Meu tórax se contraía junto ao movimento forçado dos pulmões. Seja inteligente, cérebro. Você quer ar, mas você vai puxar água para dentro do seu corpo. Vai ser pior. Espere. Eu vou salvar a gente. Mas como o instinto não é inteligente e sim um burro feio e desesperado, meu corpo puxou água para dentro. Meus pulmões se encheram e eu tentei tossir. Travei a boca para não engolir mais, enquanto minhas pernas e meus braços já tremiam e o meu corpo sacolejava. O desespero me cegou. Nisso as vias se abriram mais e depois da tosse uma força sugou mais água ainda e eu parei de nadar e de tentar buscar a tempestade, eu só queria sobreviver àquilo. Tentei em vão todas as coisas que o burro do meu instinto queria, mas nada resolvia. Meus pulmões queriam ar cada vez mais e ele esvaziou um par de vez e sugou água de novo. Debatia-me como se conseguisse distanciar o afogamento de mim. Foi quando pensei na magia. Eu não soube como cheguei a pensar nela. Eu não estava lúcido o suficiente para pensar em outra coisa senão na morte. Só olhei para cima e projetei o caminho até a superfície. Não deu tempo de ver se daria certo, porque o punho de Gulian cerrou na manga da minha camisa e me puxou para cima. Procurei segurá-lo de todo o jeito possível, mas ele me segurou por trás e me prendeu firme em um de seus braços. Eu queria eu mesmo segurá-lo. Assim ele não poderia me soltar. Mas não importava o esforço que eu fazia para segurá-lo, que eu continuava parado, me debatendo e me afogando e ele me segurando firme. Quando chegamos à superfície, eu já estava mole. A morte que se escondia embaixo da água já havia me abraçado, mas ela me soltou quando a minha cabeça rompeu a divisão da água com o ar acima de nós e o Gulian me encheu de murro nas costas. Tossi a água dentro de mim e tentava puxar ar, mas me afogava do mesmo jeito. O pouco de ar que entrou, misturado com a água, foi o suficiente para me dar alguma sustância a poder tossir com mais força. Eu tossia sem parar, mesmo quando já tinha certeza de ter me livrado de toda água nos pulmões. Minha garganta e todo o caminho que o ar tomava para dentro e para fora de mim, queimava. Eu nunca amei uma coisa tão simples e tão gratuita como amei o ar naquele dia. Gulian me entregou o vidro da tempestade vaporosa. — Telo, você tem que ser mais cuidadoso — ele me repreendeu. — Custava pegar a tempestade quando você estava lá em baixo? Balbuciei uma reclamação, mas a voz quase não saiu com a garganta irritada como estava, e eu fiquei com mais raiva ainda.
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