PASSADO: Cada vez mais distantes

2150 Palavras
Quatro meses após terem nos forçado a estender a nossa visita em Pirante Taé, eu já era considerado um instrutor de conhecimento nível médio aos estudos da história do mundo. Por isso, fiquei com a classe dos iniciantes. Eu tinha uma sala só minha, que funcionava em dois turnos: pela manhã, sendo eu o instrutor de doze crianças; e pela tarde, com nove, e dentre esses, alguns já adolescentes. — Damios Uenoque foi o primeiro navegante e o único homem da época a desenhar toda a silhueta dos oito continentes do nosso planeta, e seus respectivos tamanhos, após achar dois deles que não eram habitados por seres racionais, três com diferentes espécies de humanos vivendo de forma animal e mais dois que eram povoados por sumos. Foi nessa época que os humanos descobriram os sumos. — Por isso Uenoque se chama Uenoque? — Mu’uz Ovinv, um garotinho ruivo, me indagou. Ele se ajeitou, com um sorriso no rosto, em sua carteira de madeira amarela envernizada, polida e brilhante, quase no fundo da pequena sala. — Sim — balancei a cabeça, em confirmação —, como foi ele que descobriu sete continentes, centenas de ilhas espalhadas por todo o mundo e desenhado a geografia do mundo, foi justo ele nomear o mapa com o sobrenome de sua família, o que acabou se tornando o nome desse planeta que era sem nome até então. Neste instante alguns alunos se mostraram interessados, enquanto alguns faziam pouca questão, conversando com o colega próximo. Tentei relevá-los. Dimon, o mais velho e sábio sumo de Pirante Taé, me aconselhou a fazer isso. Ele garantiu que eu era só um sumo e, garotos de famílias com preconceito racial, não me levariam a sério de forma alguma, independentemente do meu esforço. Sem contar o meu sotaque que incomodava alguns alunos. — Você acha que ainda exista alguma ilha desconhecida por nós em Uenoque? — o mais novo dos estudantes me questionou. — Acho muito difícil ter no mundo algum pedaço de terra desconhecido por humanos ou sumos. — Caminhei para mais perto dos estudantes, na intenção inconsciente de me aproximar mais para que assim entendessem ou me ouvissem melhor. — Existem piratas demais, cruzando oceanos incessantemente. Se houve alguma época em que terras eram desconhecidas por olhos racionais, essa época foi há muitas centenas de anos, sir Ezmaion Cambuiri. Duas batidas sutis na porta de madeira me impediram de continuar o assunto. Me dirigi à porta, arrastando, no chão de cerâmica marrom e áspero, a minha túnica acinzentada de pano grosso e pesado. Ao abri-la, me deparei com Tarrie, o segundo sumo mais velho e o mais ignorante do centro estudantil, que me ensinou tudo o que aprendi na cidade. Ele usava uma túnica idêntica à minha, com exceção que a sua era maior, já que adulto, ele tinha a altura de uma criança em transição para a adolescência. — A sua aula já deveria ter-se findado há treze minutos — rosnou, me olhando de cima. Tarrie se considerava o sumo mais inteligente da cidade, senão do continente — o que todos os sumos acreditam ser, sempre —, e por meio disto, menosprezava soberbamente os demais com suas grosserias sádicas e seu cinismo humanizado — que é quando o sumo se sente quase humano, fingindo ter qualquer espécie de poder na sua vida. — Eu sei disso — rebati, o olhando firme nos olhos. Eu era tão ínfimo em tamanho e ainda assim possuía uma língua tão grande que, sem controle algum, mexia antes de o meu cérebro mandar, emanando palavras que eu não pretendia dizer. — Então também sabe que terei de reportar esse seu erro ao diretório do Liceu. Mexi com a cabeça. — E eu também sei que você sabe que não tenho que aturar suas chatices, Tarrie, só porque está perto de morrer e se acha ser inteligente por acumular o tanto de informações já incompletas que carrega nesse seu cérebro velho e falho. Tarrie arregalou os olhos e empinou o nariz à frente de seu queixo, enquanto, rabugentamente, soltou um som contrariado pela boca fechada. Sem dizer mais nada, bateu em disparada pelo extenso corredor. Eu tentei controlar a risada que segurava, já que logo ficaria de frente aos estudantes. Antes de fechar a porta, não tão longe e centralizado entre dois soldados brutamontes, avistei Gulian me encarando com um sorriso feliz no seu rosto agora estranhamente magro. Eu não o via há três semanas, mesmo ele podendo vir me ver a cada quatro dias e me atualizar de suas façanhas. Gulian acenou com a cabeça, fiz o mesmo e então fechei a porta. Fui direto à minha mesa, subindo os degraus da minha cadeira, para que aparecesse atrás da irônica mesa feita especialmente para mim, um sumo ainda criança, que em pé no chão ficava só com o topo da cabeça aparecendo detrás da mesa. — Vocês estão dispensados. Num interesse instantâneo, eles se levantaram e desordenadamente foram saindo, deixando a porta aberta ao partirem. Não completou um minuto para que Gulian, seguido dos soldados, passasse por ela e se dirigisse a mim. — Telo. Eu sorri para ele ao ajeitar alguns papéis na minha mesa. Em seguida desci as escadas da minha cadeira, que ficava na sua lateral, e me sentei na cadeira de estudante ao lado da sua. — Como estão as coisas? — indaguei. — Como você está? Ele me olhou de cima a baixo. — Está tudo bem. Eu estou ótimo. — Sorriu. — E você? Mexi com os ombros, já com os olhos teimando em indicar meu sofrimento por ter de me encontrar com ele nesses termos, e por tão rápido ter esfriado a nossa amizade. — Eu queria estar junto a você e a Vitto, mas aqui não é tão r**m. Ele intercalou ambos os seus olhos castanhos escuros em ambos os meus, com nuances mais claras que os seus. — Você está gordo. Um sorriso se formou em meu rosto. — É a túnica — expliquei, mexendo nela e me olhando. Em seguida ficamos calados, só observando um ao outro. Os soldados arrumaram a posição, talvez entediados. — Eu... — Gulian disse subitamente e então travou. Balbuciou e segundos depois voltou a falar: — Eu estou namorando com a Lia. Ergui a sobrancelha, fingindo surpresa. Para quem estivesse perdido, Lia era a garota que Gulian roubou no porto e que lhe deu uma surra. — Ela está te ensinando a lutar ainda? — Ele acenou com a cabeça, sorrindo, bestamente apaixonado. Parecia um pai respondendo com gestos orgulhosos sobre seu filho prodigioso e inteligente. — Ainda apanha muito dela? Ele desfez o sorriso. — Eu bato também. — Ah... Você bate nela? Numa garota?! — Fazer o quê? — Ele mexeu com os ombros e sorriu. — Ela gosta. Mas é de leve, e não é com os golpes que a machuco. — Riu, por fim. — E é com o quê, então? — minha inocência perguntou. Ele balançou negativamente a cabeça com certa paciência que eu nunca havia visto. — Você é muito novo para entender dessas coisas. — Deu uma gargalhada silenciosa. — O Vitto queria ter vindo. — Mudou o assunto. — Ele está trabalhando no açougue. Está namorando também. Sabia que era mentira. Ele não gostava de mim para fazer isso. Eu não o culpava, seria até estranho ver ele me visitando, já que nunca fez. — Aquela magricela de sardas que jurou amor por ele na outra semana? — Aquela mesma. — Gulian riu. — Ela é dois anos mais nova que ele! — Exclamei. — O que é que tem? — Gulian tentou entender meu raciocínio, mas era eu que não entendia o deles. Dois anos era quase metade da minha vida. Para sumos dois anos podia representar uma gigantesca mudança em tudo em nós, já que aprendemos tanta coisa e podemos mudar tanto nesse tempo que é considerado pouco a um humano. — Lia é quatro anos mais velha que eu e ainda assim não... — Esquece — o interrompi. — Eu sei que funciona diferente com os humanos. Conversamos por mais alguns minutos. Eu simplesmente venerava Gulian em todos os anos da minha infância. É normal que os sumos venerem seus senhores, por isso, eu procurava saber de tudo o que aconteceu com ele. Era esse o ponto alto do meu dia, da minha semana. Eu acabava até sonhando com isso. — E você ainda está trabalhando com aquele fazendeiro? — perguntei. Ele gesticulou negativamente com a cabeça. — Na verdade é sobre isso que eu vim falar com você. — Seus olhos pararam nos meus e o silêncio dominou a nossa conversa outra vez. Senti que algo bem chato fosse acontecer. — O que veio falar comigo? — indaguei. — Eu vou me tornar um grumete. Arqueei as sobrancelhas. — Grumete?! — Sim... — ele disse repentinamente entusiasmado. — O lorde Facelro Di’eni estava buscando por jovens altos e fortes para serem grumetes em seu navio durante uma viagem ao continente Sazaco. — Usou as mãos para descrever a magnitude da importância: — Sabe, é uma oportunidade incrível ir ao polo sul. Sem contar que estarei num navio outra vez. Você não faz ideia de como sinto saudade do oceano. Meus olhos vagavam pelo rosto dele. Saber daquilo me machucou, mas eu buscava transparecer imparcial. — Uma viagem até o Sazar é muito longa — respondi. — Você tem a Lia, o Vitto. — Não contando comigo que, com medo, eu não citei para que ele não me decepcionasse. — O Vitto e a Lia também vão. Senti aquilo como um soco na barriga. — A Lia não é forte — resmunguei. Ele olhou para os lados, talvez buscando uma forma de explicar. — Ela luta muito bem e eu disse dela para o homem que estava contratando. Ele disse que coisas podem acontecer no oceano e que poderiam precisar sim da ajuda dela. Mas ela só pode ir desde que eu supra em trabalho o que ela não pode. — Gulian mexeu com a cabeça. — Eu respondi que faria e eles a deixaram ir conosco. Meus olhos se negaram a continuar olhando nos dele. Lia agora era a terceira integrante do nosso antigo trio de dois. Eu que sempre fora um integrante esquecido do trio, largara de ser até isso agora. — Mas vocês não podem viajar sem a permissão do diretor do lar de órfãos. — Ergui a visão, buscando ver o que ele me diria com gestos e expressões. — Se viajar, eles... — Tentei não imaginar, mexendo negativamente com a cabeça. — Eles têm o direito de me tomar de você. Ele acenou com a cabeça. — Eu sei disso. Por isso tratei de todos nós termos as permissões necessárias. A cidade nos permitiu, já que estamos indo com o filho do duque e é uma viagem de ida e volta. Balbuciei ideias. Precisava dissuadi-lo de sua insistência em me abandonar. Ele não poderia me deixar para trás. Eu era o seu amigo, o presente que o seu pai lhe deu. Meu valor de mercado era maior que o valor do melhor navio que o dinheiro poderia comprar. — Demorará meses... — continuei. Eu estava tão irritado por ele planejar me abandonar por tanto tempo, que eu me esforçava internamente para não sair de perto e o deixar falando sozinho. Mas isso só seria possível se a minha ousadia, mesmo que normalmente gigantesca nesta época, me permitisse tamanho desrespeito com ele. — Telo, entenda. — O tempo acabou. — Um dos soldados pousou a mão sobre o ombro esquerdo de Gulian, que chegou a abaixá-lo de um lado, e o levantou do banco em seguida. — Já deve ir embora. — O homem o empurrou de leve rumo à porta. — Telo? — Enquanto os dois o guiavam até a porta, Gulian me olhava, esperando uma espécie de permissão. Eu não conseguia fazer isso, era egoísta demais para abrir mão de suas visitas. Eu me sentia tão humilhado. Ele estava me abandonando sem hesitação. Ele estava me trocando por aquela mulher. — Você sempre foi o único que teve voz nas decisões, Gulian — consegui dizer. — Por que mudaria agora? E os soldados o tiraram da minha pequena sala antes que desse tempo de eu dizer outra coisa. Ouvi os trovejos dele do corredor, chamando por meu nome. Ele odiava fazer algo contra vontade e odiava ainda mais assuntos inacabados. Eu poderia ir até o corredor e correr em sua direção para tratarmos do assunto até alcançarmos a porta da rua, onde eu seria proibido de ultrapassar. Mas ao invés de aliviar sua mente, eu aliviei a minha. Deixei que a dele ficasse perturbada ao menos uma vez. Agora, suas visitas semanais se tornariam semestrais, se não anuais, até que Vitto completasse dezessete anos, dali a quase três anos.
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