Ainda naquele dia, deixamos que a correnteza nos levasse até que encontrássemos uma margem baixa o suficiente para sairmos da água. Comecei a tremer de frio com o passar dos minutos e eu só conseguia pensar nos meus pulmões se enchendo de água.
O meu corpo era burro, o meu cérebro era burro. A minha mente era a única parte lógica em mim. Como é que eu não consegui me controlar? Eu só precisava de um tempo para chegar até o topo.
Eu estava revoltado por descobrir que eu não tinha o controle total das decisões da minha cabeça. Gulian é que tinha o controle quase total sobre mim, mas o restante era meu e nem isso eu tinha por inteiro.
Na primeira margem nadamos e quase a perdemos. Acabamos tendo de nos agarrar a uma raiz exposta no meio da folhagem úmida da margem e fomos nos agarrando no que podia mais para nos estabilizar para ir contra a correnteza e voltar à margem baixa.
Gulian olhava para o alto da margem a frente, já eu não dei importância. Tremia de frio e o baque da água ainda doía no meu ombro como doeria se eu fosse jogado contra a parede por alguém forte.
Tirei toda a roupa e fiquei só de tanga. Torci tudo, me enxuguei, torci novamente e vesti. O frio continuou o mesmo, mas ao menos assim eu sabia que as roupas loco secariam.
Gulian fez o mesmo que eu, enquanto eu ficava de cócoras no chão e abria a minha bolsa transversal e tirava tudo dela. Os livros ainda estavam ali, mas só borrões cobriam as páginas. Folheei com cuidado as páginas que eu pude, rasgando às vezes, algumas margens, para verificar se tinha algo legível ali. Não tinha uma letra sequer inteira. As páginas estavam lavadas e algumas quase alvas até.
Na primeira oportunidade eu as colocaria para secar.
Abandonei os livros de lado e me concentrei no restante. Encontrei a adaga que o Vitto disse que deixou na mochila e o vidro com o que restara da tempestade. Me lembrei dela e olhei para cima. Sorri ao avistar a tempestade no chão de onde partimos. Grandes trovoadas e um céu escuro cobriam apenas alguns quilômetros daquela região. Já onde estávamos o céu estava aberto e azul.
Minha pena estava ali, mas o vidro tinteiro não. Vasculhei com a mão as pequenas repartições dentro da bolsa, mas não encontrei nada. Resolvi então virar ela de cabeça para baixo e a chacoalhar. Caiu apenas algumas gotas de água.
A apertei para tirar o excesso de água e devolvi tudo novamente para dentro dela.
Voltei a olhar para o capitão. Ele estava terminando de vestir a sua camisa de linho, mas a cabeça estava virada para a margem alta do outro lado do rio.
— Está com medo?
Ele olhou para mim, arqueando as sobrancelhas.
— Não! Só estou verificando.
Suas palavras soaram defensivas demais para eu acreditar nelas.
— Não faz m*l dizer que está.
— Não estou — ele respondeu antes de eu terminar.
Abaixei a cabeça enquanto eu e levantava do chão. A sensação de ter água dentro de mim ainda estava nítida, como se eu ainda estivesse no fundo daquele rio.
— Eu estou.
Ele voltou a olhar para mim.
— Mas ninguém quer te matar. Não precisa temer nada.
— Eu sou quase tão conhecido quanto você. — Ele forçou um sorriso que desfez logo depois. — Percebi isso em Andorra. Todos me trataram bem por eu ser seu sumo. O senhor da loja de roupas faltou me dar a sua loja. Só de eu falar que era do capitão Gulian Beho já diziam: “Você é o Telo?”. E tem também o fato de eu ter essa cicatriz nojenta no rosto, feita por um demônio. E... — Apontei para o rio. — Eu praticamente morri agora a pouco.
— Você não praticamente morreu, Telo — ele respondeu com aquela voz chata, achando, como sempre, que é o dono da razão.
— Eu estava me afogando, capitão. — Semicerrei os olhos. — Já tinha água nos meus pulmões.
Ele ponderou por um longo instante, enquanto o som da natureza prevalecia. Demorou para ele reagir, e o que fez foi andar e fazer sinal para que eu o seguisse. Ele ficou pensativo e sem falar nada por quase um minuto inteiro, até que, subindo um morro, ele começou:
— Você não precisa me seguir, se não quiser.
— É claro que eu vou te seguir! Tenho obrigação com você, Gulian. Você é o meu senhor, querendo que eu diga essa palavra ou não. Sou sua propriedade, o meu corpo só existe para manter o seu cérebro funcionando. Não há a possibilidade de eu te deixar. Sou...
— Eu estou te libertando — ele acrescentou ao me interromper. Gulian parou de andar e ficou me encarando. — Se quiser ir embora, pode ir, Telo. — Abanou a mão para um destino qualquer, que, ofendido, não quis olhar. — Você não tem mais obrigação comigo. Não é mais a minha mente.
Uma parte minha naufragou num mar de alegria. Eu era dono de mim então? Ninguém mais poderia me dar ordens? Eu nunca me atrevi a sonhar com tais palavras, por isso quase tive um coquetel das mais violentas mortes naturais que envolvia o coração acelerado demais. Mas essa outra parte minha se machucou com aquelas palavras. Como ele pôde pensar que eu queria me ver livre dele? Que direito ele tinha para me libertar? Este humano e******o! Ele não sabia que era tudo na minha vida? Eu sempre vivi para ele e para mais nada.
Isso na psicologia de Midire, um filósofo do século passado, se chamava de síndrome do elo. Era ofensivo quando um sumo notava que o outro tinha uma síndrome do elo com o seu senhor, mas eu não ligava. Nunca me importei quando reparavam.
— Sumos não sobrevivem sem um senhor, capitão.
— Vocês sumos são tão inteligentes, mas tão burros ao mesmo tempo — ele comentou e voltou a andar. — Vocês podem facilmente escrever a si próprios uma carta de autorização para tudo. — Me olhou. — Por que vocês não fazem?
— Eu acredito que alguns façam. — O segui. — Mas mentir não é do nosso feitio. Pelo menos não de todos.
— Então desenvolvam isso. Mentir é feio, mas ajuda.
Meu coração estava se amiudando no peito e doendo.
— Por que está fazendo isso comigo? — Minha voz fenecia de dor.
— Fazendo o que exatamente?
— Você sempre foi o meu senhor. Se você não pedisse um sumo aos seus pais, eu nunca teria nascido. Gulian, eu nasci para te servir!
— Você disse que estava com medo, Telo. — Ele tornou a me olhar. — Eu só quis fazer com que você se sentisse confortável a me deixar. Só quis tirar a obrigação dos seus ombros.
— Mentira! — exclamei assim que entendi sua verdadeira intenção. — Você quis me testar. Queria descobrir se eu te abandonaria na primeira oportunidade, como fez Vitto.
— Eu nem pensei nisso! — Gulian se mostrou ofendido. — Por que você não pode acreditar uma única vez que eu tive boa intenção? Por que todo mundo pensa que sempre é um jogo e que eu estou movendo as peças? Não sou assim. Eu me importo com você.
— Não se importa não! — exclamei. — Você me abandonou sem nunca ter partido. Eu sempre estive bem de baixo do seu nariz e você nunca me deu importância. Tudo o que eu sempre quis foi a sua amizade e você nunca me deu ela. — Dei de ombro. — Me dava uma palhinha do que seria ser seu amigo quando, na infância, Vitto não navegava conosco no velho Dergo.
Ele balançou a cabeça.
— Nos últimos anos eu tenho estado muito ocupado. Me perdoe se eu parei de te reparar.
— Não me refiro só aos últimos anos. Embora neles sim você esteve pior. Eu me sentia um lixo perto de você. — Meus olhos encheram de lágrimas. — Mas eu me refiro ao fato de que sempre que o Vitto está perto eu sou colocado de canto. E agora que ele saiu você voltou a se importar um pouco comigo como quando ele voltava para casa depois de uma viagem de meses no velho Dergo?
— Em Andorra eu briguei com ele por sua causa, Telo! Isso não é justo. Eu estou tentando mudar com você, irmão.
Assenti com a cabeça.
— Então desfaça o que você disse. Diga que eu ainda sou seu sumo!
Ele ponderou por um bom tempo. Quando estávamos em terra plana, ele parou e tornou a me olhar.
— Você não é. Eu te dei sua liberdade. Não vou voltar atrás. — E encolheu os ombros. Ele é tão i****a. Acha que é o dono da razão. — Você não pode ser meu amigo ou irmão, se é meu escravo.
Meus lábios de baixo dobraram num sentimentalismo i****a, e um líquido constante começou a escorrer das minhas narinas.
— Eu nunca me vi como seu escravo.
— Mas você era, Telo.
— Toda essa libertação está me fazendo m*l, você não vê isso? Estou mudando e não estou gostando do que estou me tornando. — Apontei para ele. — Você viu? Eu estou até brigando com você. — E ri, irritado. — Eu estou te chamado de você. Eu me lembro de uma época em que você me mandava calar a boca por eu falar demais. Dizia que eu tinha que saber qual era o meu lugar.
— Não está lhe fazendo m*l — garantiu com o tom firme, ignorando todo o resto. — Você está tendo que lidar com sentimentos que não se lembrava mais, e por isso está tendo trabalho. Por isso está agressivo, defensivo, alegre; com os pensamentos mais profundos. Mas você vai aprender a controlar o que sente de novo.
— Mas isso é diferente — garanti. — Não tenho como decorar o que fazer quando lido com sentimentos. Não consigo simplesmente dizer para o sentimento parar. Quanto mais o tenho, mais o quero e menos tenho controle. Como parar?
Gulian deu um riso.
— Está perguntando isso para mim? Deveria perguntar ao Vitto. Ele controla sentimentos com tamanha força que nunca vi. Ele tem uma frieza que o permite controlar tudo na hora que quer. Já eu... Eu sinto demais. — Por fim eu vi uma lamentação em seus olhos. — Me desculpa por ter te inferiorizado; por eu querer que você “se enxergasse” ou que “se colocasse no seu lugar”. Eu era um moleque. Como você mesmo dizia, e eu não sabia o que estava fazendo a maior parte do tempo.
Ele estava me fazendo odiar ainda mais a Enara por estar fazendo isso com ele. Gulian melhorou. Pela primeira vez ele estava se mostrando ser uma boa pessoa. E não foi após a maldição, foi antes. Um pouco antes, pelo menos.
— Eu não quero ser livre, Gulian — repeti. — Eu só quero ser mais valorizado.
— Mas eu já te libertei, Telo.
— Você é basicamente tudo na minha vida, capitão — tentei o fazer entender. Eu morria de medo de ele me abandonar. Não sendo mais meu senhor, ele não tinha mais a obrigação de me alimentar ou de me dar condições mínimas de vida. — Você entende o que é ter de aprender coisas para alguém? Isso foi basicamente a minha vida. Te agradar; te servir; aprender para você; estar presente para quando você precisasse de algo; cuidar de suas roupas; cuidar de sua alimentação e de seu bem estar. Isso é o que eu faço desde sempre. — Encolhi os ombros. — Eu não sei o que é viver por mim. Eu não sei como eu ocuparia os meus dias. Eu... — Meu estômago apertou. — Eu passaria fome. Coisas ruins aconteceriam comigo. Eu viveria como um mendigo.
— Agora é hora de você saber usar tudo isso ao seu benefício.
— Capitão! — exclamei, irritado. — Volte atrás com a sua palavra. — Ergui a tampa da minha bolsa, enfiei a minha mão nela e quando a trouxe para fora, a adaga estava segura. — Ou senão eu tiro a minha vida aqui e agora.
— Telo, larga de fazer idiotice. — Ele parou de andar e me olhou.
— Eu só nasci porque o senhor queria um sumo. Eu era seu antes de eu existir em qualquer lugar. Se não for para ser seu, eu não quero ser nada mais.
Ele intercalou os olhos da adaga nas minhas mãos, miradas para o meu peito e para os meus olhos. Apontou a mão na minha direção e eu dei um passo para trás, temendo que ele tentasse pegar a adaga.
— Eu estou te dando o maior desafio da sua vida e você está querendo se matar para facilitar as coisas? Pensei que você fosse mais forte.
— Prova que você se importa comigo e volte atrás na sua palavra.
Ele continuou intercalando os olhos e, quando eu pensei que ele cederia, o capitão me deu as costas e começou a caminhar.
— Quem tem medo de morrer não se mata — foi o que ele disse.
Eu continuei parado. As lágrimas escorriam pelo meu rosto.
— Capitão!
— Venha logo, Telo, ou fique para trás e tome o seu rumo, mas pare de graça. Não estou com paciência para lidar com seus dramas.
Cerrei o maxilar e apertei ainda mais os dedos em volta do cabo de madeira. Apertei tanto que os dedos começaram a ficarem brancos. Estava até mais quente, mas vendo ele indo embora sem dar a atenção que desejei, acabei devolvendo a adaga na bolsa.
Respirei fundo e comecei a me envergonhar pelo o que fiz. Desejei tomar outro rumo mesmo, só para não ter de enfrentar os olhos de Gulian. Dei até três passos em outra direção, mas o restante dos passos me guiaram até ele imediatamente.
— Eu vou te dar sete dias para pensar melhor — o expliquei. A voz estava baixa e envergonhada. — Sete é o número da perfeição. Vai ser com esse número total de dias que o senhor vai mudar de ideia. A sua cabeça está confusa por causa do que está acontecendo.
— Se isso vai te fazer se sentir melhor, eu pego esses sete dias.
Isso significava que eu podia ficar esperançoso? Uma parte minha se entristeceu por eu estar tão desesperadamente tentando me ver livre da minha liberdade.
— Vai sim — garanti.
— Eu vou te fazer uma pergunta só, Telo. — Olhei atentamente para ele. — Você já me viu voltando atrás de uma decisão, mesmo que m*l pensada, na minha vida inteira?
Engoli em seco. Meus olhos desviaram dos dele.
— Sempre tem uma primeira vez, não é? — Esperei pela sua resposta, mas ela nunca veio. — Eu escolho te seguir de todo jeito — eu disse, por fim. — Independentemente de eu estar livre ou não; com medo ou não. — E assenti com a cabeça. — E eu te perdoo.
— Me perdoa pelo o que, exatamente?
— Principalmente por querer me ver longe de você, mas também por ter me tratado como um nada a minha vida inteira.
Ele me olhou. Percebi que ele sorriria para mim se estivesse menos preocupado.
— Obrigado pela segunda parte. Mas a primeira não é verdade. Eu te quero por perto, mas não quero que você se sinta obrigado a me ter por perto. Quero que o querer seja de ambos.
— Já que eu estou temporariamente liberto, eu vou ser sincero: — comecei. Ele deu uma risada e fechou os olhos ao balançar a cabeça. — Eu não gosto desses seus pensamentos. Demorei para me acostumar ao seu jeito mandão, e agora você quer que eu queira as coisas também? — Suspirei e demorei para continuar: — Eu não te largaria, Gulian, nem se você me mandasse.
— É perigoso, Telo. Terei de passar por Onttere para chegar mais rápido a Vasars. Esta nossa viagem não é como quando éramos novos e fugimos de Vasars para desbravar o mundo. Naquela época desviamos de Onttere por ser perigoso para você.
— Eu sei que teremos de passar por aquele reino i****a. — Respirei fundo, lembrando-me dos sumos da resistência que foram capturados pelos humanos montanheses daquele reino. — Desviar dele prolongaria a nossa viagem para mais de dois meses. E isso seria perigoso a você, dado a sua atual situação. — Ele assentiu com a cabeça. — Mas ainda assim quero estar com você. Mesmo tendo de atravessar Onttere.
Ele se mostrou pensativo por um tempo.
— Eu poderia te obrigar a não me seguir — adiantou, fingindo uma expressão de sujeito perigoso.
Dei de ombros, sorrindo.
— Você poderia tentar, Gulian, mas eu não te ouviria. Não sou mais obrigado a te obedecer. Faço o que eu quiser agora.
Ele me olhou de cima a baixo.
— Abusado.
Eu rebati com pressa:
— Por isso que não dão asas a cobras.
Me orgulhei pelo riso que arranquei dele.
— Tudo bem então. — Deu um forte aceno com a cabeça. — Mas não mais como meu sumo. Perca a esperança de eu te devolver a sua escravidão. Agora você vai seguir viagem comigo como meu irmão caçula.
Em seguida ele deteve toda sua atenção em mim.
— Eu vou te fazer mudar de ideia, capitão. Já estou elaborando os prós e contras dessa sua decisão. Como sumo temporariamente livre, posso orientar essas suas... decisões impulsivas.