COMO ANTIGAMENTE

1735 Palavras
Gulian me olhava à espreita, atrás de uma árvore, enquanto eu o olhava de trás de outra do outro lado da estrada. Tudo já estava combinado e uma carruagem se aproximava lentamente, cambaleando por entre buracos e pedras no meio da estrada. A esperamos por muitas horas. E pelo estandarte que se ondulava, ela era a mesma que esperávamos que fosse. Meus nervos tremiam e minha perna doía de tanto tempo que eu estava em alerta, somado as escaladas sem fim e uma viagem incansável. Minha respiração chiava e meu coração estava descompassado. Eu olhava regularmente para a carruagem se aproximando com apenas dois guardas velhos e barrigudos, um de cada lado, montados em seus cavalos. Além deles, um senhor magro e pequeno guiava a carruagem. Olhei outra vez para Gulian e ele acenou com a cabeça, dando seu sinal. Odiei o que eu estava prestes a fazer, mas pela minha sobrevivência eu estava disposto ao sacrifício. Parecia até que eu era de novo aquela criança desbravando o mundo com Gulian e Vitto. Lancei-me na estrada, fingindo estar tropeçando, murchando a barriga e tentando não aumentar muito o peito como consequência. Fiz a minha melhor expressão de dor e cansaço que Gulian vinha me ensinando incansavelmente, no intuito de me fazer mentir. Foram dias irritantes para ele, tentando modificar a minha essência, para que eu pudesse me tornar um mentiroso profissional. Acabou que depois de poucos dias acabei conseguindo mentir muito bem. Ele me disse que era como contar uma história, só que uma história que não existia. Era simples, só deixar as palavras saírem com certa lógica, seguido de expressões compatíveis. Ele vinha me fazendo perceber as caras e bocas que eu fazia quando sentia dor, quando estava aborrecido, para decorar e reproduzir tudo aquilo em instantes que não sentisse o sentimento por trás das expressões. O problema é que na teoria tudo tem um nível maior de facilidade. Ali eram ensaios, havia chances, e agora só havia uma. Sem erro. Sem desculpas. — Me ajuda — minha voz soou como a de um velho faminto, que estava quase à beira da morte. — Saia da frente! — disse o velho gordo à minha esquerda, mas eu precisava chamar atenção era o da direita, já que aquela carruagem tinha a porta para o lado direito. Joguei-me ao chão, no caminho onde os cavalos passariam em alguns segundos e o velho pequeno e magro fez com que os animais parassem antes de me pisotearem. Alguns relinchos fizeram todos os pelos do meu corpo eriçarem. Seria uma morte dolorida. — Saia da frente! — os dois gordos barrigudos disseram em uníssono e então, de acordo com a instrução de Gulian, apenas olhei para o da direita. Assim eu o atrairia a mim por, através do meu olhar, ele se sentir obrigado a ser aquele que me tiraria do caminho. Duvidei que funcionasse, mas fui obrigado a assumir que Gulian mostrou dominar bem a arte da manipulação ao ver aquele velho cavalgar em minha direção e me cutucar com o cabo de madeira do estandarte. — Saia da frente, sumo! — rosnou. — Não está ouvindo? Da minha bolsa de couro, tirei uma cobra verde e joguei na pata do cavalo. O animal se fez rebelde e começou a relinchar com tamanha força e a se empinar, que o gordo caiu de cima dele. Corri até a porta da carruagem, assim como via Gulian correndo. Entrei na carruagem a tempo dele me alcançar, entrar e fechar a porta. Dentro, Gulian chegou a sorrir de satisfação, mas após constatar que realmente se tratava de três damas virgens vindo de um lar de pureza, indo até a cidade de Taboldi - onde serviriam ao duque Tavi Jeado como amantes -, bem como ouvimos na cidade ali por perto, o seu sorriso galante e sem vergonha se abriu descompassadamente. Elas se vestiam belamente, com panos de seda e cheias de joias e babados. Era uma n***a, uma ruiva e uma loira. A ruiva e a loira tinham cabelos longos e liso, já a n***a tinha longos cachos volumosos. Elas se mostraram assustadas e abraçaram umas às outras enquanto Gulian mantinha o sorriso pretencioso. — Garotas. — E ergueu uma de suas sobrancelhas. — Não quero que se preocupem atoa. Se eu quisesse possui-las, teria a decência de fazê-las querer isso. — Ele sugou seu lábio inferior, tentado. — Olhem para mim, sou o céu enquanto o duque, que estão fadadas a aguentar e fingir elogios pelo resto de suas belezas, será o inferno. Se quisessem me seguir, eu ofereço a vocês aventura do tipo que nunca tiveram e nunca se atreveriam em ter na vida monótona que estão destinadas a ter. Os dois gordos tentavam abrir a porta com socos, chutes e empurrões. Gritavam em Catísdi para que saíssemos dali. Interrompiam Gulian de terminar a proposta, e isso o deixava irritado. — Calem a boca! Não vou fazer nada que elas não queiram — e terminou dando um sorriso, sem tirar os olhos das virgens. — Vocês são lindas, deusas, de belezas impecáveis. — Passou os olhos pelos seus rostos. — Não é à toa que foram escolhidas dentre muitas. Mas tal beleza é digna a um rei e não a um duque. São dignas a mim. — E você é um rei? — perguntou a ruiva, arrumando sua postura e deixando o queixo mais a frente que o nariz. — Se eu sou um rei? — bufou. — Sou um imperador, querida. Sou o dono de todas as águas que banham Uenoque. Sabe que no mundo existe mais água que terra no solo, não sabem? — A de pele n***a fez que sim. — Pois é. Eu mando em mais de a metade do mundo. Só navega pelos mares quem eu permitir. Pois eu sou o capitão Gulian Beho. — Estendeu sua mão a ela e ela o cumprimentou enquanto todas deixavam seus queixos despencarem. — Capitão Gulian Beho dos livretos de Telo? — perguntou a n***a, quase como se temesse dizer seu nome. — Sim. Armei um sorriso no rosto. Gostei dela. — E você veio até aqui para nos... levar? — perguntou a loira, achando o Gulian ser mais céu do que era. — Se quiserem. Mas não. Não vim até aqui especialmente para levá-las comigo. Meu primo está com o Dergo e estou atravessando o continente com o Telo. — Você é o Telo? — disse a n***a e eu senti uma pontada gelada no estômago. Fiz que sim com a cabeça. Aquela linda pessoa sabia da minha existência. — Sim. Estamos indo até Neerit, o problema é que estamos sem dinheiro e estamos há dias arquitetando planos para roubar o ouro e a prata que carregam com vocês. — A ruiva pareceu decepcionada, permitindo-se soltar um “Ah”. — Mas neste instante o ponto alto do meu dia seria se eu conseguisse roubar as três damas mais lindas de Genoas, assim como todo o dinheiro que carregam. — Você está sem o seu navio? — a loira investigou. — Temporariamente... Sim — confirmou, olhando para os lados para pensar. — Então quando o recuperar volte por nós — terminou ela. Em seguida abaixou-se e de baixo delas a loira puxou uma gaveta. Dali, pegou dois sacos que tilintavam uma quantidade grande de moedas e os jogou no colo de Gulian. — Deve bastar para chegarem à Neerit. — consternou, apontando para fora, com o queixo. — Agora vão. — Rápido assim? — Gulian se mostrou atônito. As três acenaram com a cabeça. — Não querem me seguir? — testou ele. — Se te seguir é sinônimo de atravessar o continente Norneuti a pé, dependendo de furtos para sobreviver, não. Obrigada — a ruiva disse pelas demais. — Estamos indo para um castelo, onde teremos luxo e seremos o tema principal da região por um bom tempo. Ele tem mais a nos oferecer do que... — o olhou de cima a baixo — você, por enquanto. Sinto muito, capitão Gulian Beho. Mas quando tiver um lance melhor, dê. Escolheremos você. — E terminou sorrindo, com uma piscadela. — Prostitutas — vociferou Gulian. — Passa as joias também. — Quem muito... —... quer, pouco... —... acaba tendo. — disseram as três, uma completando o que a anterior disse. — Estão me jogando maldição, suas malditas? Entrem na fila. — E arrancou na marra as joias de seus pescoços. — e******o! — disseram em uníssono e a loira terminou: — Agressivo. Grosso. Pelo som de suas vozes não parecia que estavam tentando o ofender, ao contrário, diziam como se o desejassem. Gulian a calou levando seus lábios até os dela e a segurando pela nuca. Percebi então que as línguas dos dois começaram a se movimentar uma para dentro da boca do outro, enquanto seus lábios se movimentavam, encaixando perfeitamente. Ao terminar com aquela, deu um tapa seco no rosto da ruiva, voltou a virar o rosto dela, conduzindo pelos seus dedos no queixo delicado e a beijou tão brutamente quanto fez com a outra. Com a n***a ele se levantou com o corpo curvado, por a carruagem não o permitir ficar ereto, sentou no colo dela, de frente, com as pernas dobradas e entorno das dela e, enquanto roçavam seus corpos, se beijavam ardentemente. — Deliciosas — comentou ao terminar de beijá-la, olhando no rosto de cada uma. Por fim, ele saiu de cima dela. De soslaio, percebi alguns papéis, uma pena e um tinteiro. Cutuquei o capitão e, assim que ele me olhou, apontei para os objetos. — Você quer os papéis? Pega — ele me disse. — Os papéis não capitão. Tenho três livros em branco. O que nos falta é a tinta para escrever. Ele passou a mão no tinteiro com uma rolha tampando o vidro, já trazendo a pena junto. Abri a minha bolsa e ele colocou dentro os dois. Depois pegou as folhas também e colocou junto. — Ladrão — a ruiva vociferou. Gulian a ignorou e caminhou até a porta. A abriu com tudo. Os gordos que estavam do outro lado caíram no chão. Gulian e eu descemos e passamos por eles, enquanto tentavam levantar. — Vocês poderiam arranjar guardas melhores — o Capitão apareceu na porta outra vez para as alertar, mas quando as viu apenas sorriu e terminou: — Lembrem-se de mim com carinho.
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