EM PERIGO!

2882 Palavras
JÁ MAIS TARDE, fui a uma loja de condimentos na cidadezinha ali perto, com algumas moedas nas mãos. Ainda que pirata, rústico e às vezes m*l criado, Gulian gostava de seus alimentos bem temperados, bem cozidos, bem fritos ou bem assados. Era enjoado quanto a ingerir alimentos, por isso se estabilizou com Jeão, o primeiro e único cozinheiro/médico que o Dergo já teve. A comida dele era de longe a mais deliciosa que meu paladar já teve a oportunidade de experimentar, e mesmo depois de anos me alimentando daquele mesmo tempero, nunca fui capaz de enjoar. Jeão nunca teve formação acadêmica para ser chamado de médico, mas seu pai teve e, como o filho caçula, ele vivia com o pai, resultando em conhecimentos na área. Abri meu livro e verifiquei outra vez a lista de compra enquanto já deixava a pronto-entregue a permissão de Gulian para que eu comprasse em seu nome. A assinatura não era de capitão algum, muito menos de Gulian. Ele falsificou um nome para que não nos acharem. Entreguei nas mãos do senhor corcunda, de pele pendida sobre o seu rosto enrugado, com óculos numa armação de arame m*l feito no rosto, o livro com a lista dos condimentos, com sua permissão abaixo. — Aniel Ehhar, hmm? — disse em möomo, com o seu sotaque sulista de genoasoten, pronunciando os Hs com som de Rs, e R com várias repetições, levando a língua ao céu da boca e tremendo-a. Ele levantou os óculos enquanto me encarava. Estávamos perto de Onttere, era natural que os humanos nos odiassem e buscassem meios de nos enforcarem ou decapitarem por um simples olhar feito. Apenas assenti com a cabeça e lhe forneci o olhar entediado, típico de sumos normais. Sumos estes que tinham a vontade de dizer coisas como: vai logo humano de raça infame, mas que lhe faltavam a capacidade de abrir a boca e deixar que as palavras fluíssem. Parece que foi há muito tempo que eu era assim. — Nunca vi nenhum Aniel Ehhar por aqui — ele acrescentou, após uma longa análise na assinatura. Por isso Gulian gostava de evitar cidades pequenas. — Somos de Hafi, mais ao nort... — Conheço Hafi — me interrompeu, bruto. Tive uma pitada de preocupação, mas Hafi era uma cidade grande demais para que esse velho imundo e atrevido dissesse que conhecia todos da cidade e nunca havia visto um Aniel Ehhar. — Senhor, meu senhor tem pressa — disse, escorregando em meus pensamentos e chutando essas palavras para fora. Arregalei os olhos ao perceber que cairia nesse escorregão. Sumos não demonstram impaciência. Agora eu precisava me explicar antes que ele fizesse algo: — Ele pediu para eu ter pressa, ou então eu apanharia — acrescentei, mas quis me tapear, vendo que seu olhar se concentrou em mim com tamanha voracidade e estranheza. Ele não demonstraria bondade para um sumo. Não parecia ser do tipo que demonstrava, portanto a desculpa só piorou o meu caso, pois um sumo não revelaria tal pensamento. É errado dizer o que o nosso senhor faz conosco. O que estou me tornando?! Resolvi ficar quieto e esperar que ele decidisse o que fazer comigo a partir de então. Tentei não expressar nada do que internamente eu morria de sentir. Queria poder esconder o meu rosto de vergonha por eu desaprender a ser o antigo eu, e também por medo do que viria a seguir. — Rubolo! — uma voz feminina e velha veio detrás do balcão, do outro lado do couro bege estendido. — Sim, Moara? — ele gritou, enfado. — Venha cá, meu velho. Rubolo deu mais uma conferida em mim. Não parecia que faria alguma coisa. Pelo menos não agora. Agora ele acudiria a sua velha. — Já volto — disse, com som de fadiga em sua voz rouca e com um leve chiado no fundo dela. Em meio ao meu pavor, suas palavras me soaram mais como um aviso que um anúncio. Ele alcançou uma vela no balcão e virou de costa, erguendo um dos lados do couro cortado no meio e revelando um corredor longo e penumbroso por trás da cortina. Quando voltou, ele deu uma conferida nas prateleiras velhas de madeira encostadas nas paredes do pequeno cômodo, como se desconfiasse que lhe roubei coisas. Voltou a olhar para mim por fim, desconfiado e indiferente, direcionando a vela até o meu livro e deixando escorrer algumas gotas de cera nela. Não pareceu se preocupar com o que fez, mas eu sim deixei muito visível a minha raiva, ainda que ele não me olhasse para conferir. Com o livro aberto e agora pendido na mão caída, ele saiu de trás do balcão e dirigiu-se aos armários e prateleiras. O velho demorou um bom tempo, vagueando de um canto ao outro, sendo guiado pela vela grossa da luz dançante, até terminar por ali e voltar ao balcão com alguns dos itens. Colocou-os com cautela sobre o balcão e verificou mais alguns dos nomes com a luz da vela. Fiquei impaciente, demonstrando na respiração tudo o que sentia, enquanto mais cera escorria por sua mão e caía no meu livro. Eu conhecia aquela vela fedorenta. Era feita de gordura. Ele olhou para baixo, para mim, por cima dos óculos, e me encarou. Continuei olhando para ele, mas sem expressão alguma agora. Enquanto isso, mais ceras derramavam, passavam por seus dedos e escorriam até as páginas do meu livro. Logo ele desviou o olhar de mim e o direcionou outra vez à página. Deixando-o, desta vez, em cima do balcão. Vigiei ele sair de perto para buscar os outros itens e fiquei na ponta dos pés, com o auxílio das mãos sobre o balcão, e pude ver o estrago de cera derramada sobre aquelas frágeis páginas. As frestas pequenas entre as linhas cruzadas que formavam o papel, estavam fechadas por cera vagabunda de gordura. Velho miserável e descuidado. Raça desprezível. Virei na direção do velho e meu coração gelou quando percebi que ele me encarava à distância. — Meu senhor é enjoado — tentei me retratar. Ele me encarou por mais alguns segundos e logo voltou à procura. Espécie estranha de olhos frios. — Não vou ter a pimenta durona, tem a madenha, pode ser? Gesticulei negativamente com a cabeça, enquanto ele me olhava. — Meu senhor não gosta do gosto de mato que a madenha deixa, mas obrigado. Vou ficar só com esses mesmo. — O gosto de mato é pela casca, as minhas são secas e descascadas — ele acrescentou. — Ele não fica com gosto de nada, só tem o ardor. Despojei da minha expressão mais educada ao voltar a gesticular negativamente com a cabeça. — Meu senhor prefere a durona, senhor... — Mas não temos a durona! — exclamou, abusado. — Eu ouvi — garanti já irritado. — Por isso disse que pode ser só esses outros. O meu senhor não gosta da madenha. — Por causa da casca... — Ele não quer a madenha! — exclamei, fazendo com que a minha voz ecoasse pela loja e o calasse imediatamente. Seus olhos semicerraram. Desta vez não me culpei por gritar. Não haveria outra forma, pelo jeito, de fazê-lo entender que se não tivesse a durona, eu não levaria outra. — O capitão Gulian Beho foi visto na cidade! — exclamou uma voz um pouco depois que a minha boca se calou, fazendo com que o velho não tivesse tempo de processar direito a minha falta de respeito. — Mas ele fugiu e está todo mundo atrás dele agora. O dono da voz era um jovem ruivo, de sardas no rosto, de corpo baixo e troncudo. Exclamou essas desgraças assim que abriu a porta. — Capitão Gulian Beho? O amaldiçoado? Os olhos do velho se direcionaram a mim outra vez. Agora eu enfrentaria a sua fúria. Ai caramba! Velho miserável. — Você é Telo! — Aquilo me surpreendeu vorazmente. — É o único sumo que aparece aqui em tempos. Meu coração gelou. Ele sabe quem eu sou! Odeio a fama. Odeio ela! Ah, fama desgramada! Dei um passo em falso e quase cai. Bati com as minhas costas no balcão, o arrastando para trás. Engoli em seco. Agora eu morro! Enquanto quase caía no chão, usei as mãos e os braços no balcão para me lançarem de volta ao equilíbrio. — Não, senhor. Sou... — Acredite ou não, esse foi o único nome que me apareceu na mente na hora: — Caero. O velho parou de súbito. — Caero do duque de Tamre? — Que velho mais informado do caramba! — O sumo roubado por Gulian Beho, após matar o duque? Um dia eu queria saber brincar com a magia assim como Enara. Eu só me perguntava se Jeana já soubesse do que estava acontecendo. Pela minha sorte, Caero também era conhecido. Não conhecido por quem ele realmente era, mas por quem ele fingia ser. — Sim. Telo morreu... — Não no dia em que ele matou o duque de Tamre — me interrompeu —, pois nenhum corpo de sumo foi encontrado. Merda de velho bem informado! Fofoqueiro. Então eles não tinham certeza de que Caero foi roubado por Gulian, chegaram a esta conclusão por não encontrarem seu corpo em meio às cinzas. — Por demônios que se apossaram do navio do capitão Gulian Beho. — Não disse Dergo para que não parecesse que eu me familiarizava com o navio, pois Caero não se familiarizava. — Ele morreu rasgado, após a maldição da bruxa Enara. — Enara é o seu nome? — o jovem disse em tom de suspense. Balancei apenas a cabeça, demonstrando, junto à concordância, inocência. Eu era apenas um sumo roubado de meu senhor que foi brutalmente morto por um pirata m*l criado. Adotei de vez o personagem. — Pobre sumo — o jovem disse, me forçando quase a derramar falsas lágrimas. — Prove que é Caero! — o velho exigiu. Miserável. Velho abusado. Semicerrei os olhos e arqueei as sobrancelhas. — Como? — Prove — repetiu. — Prove que é Caero. — Quer que eu resenhe a minha vida? — perguntei, demonstrando inocência e não intolerância. — Senhor, o que eu te falar, qualquer outro sumo também pode. Qualquer sumo que conhece um pouco de política sabe que sou o sumo de meu antigo senhor, duque de Tamre, e pode inventar tarefas diárias que eu fazia. Não tem ninguém para comprovar o que eu falar aqui como mentira. O velho fez um movimento com a cabeça, concordando comigo. — Mas não é esse tipo de prova que estou te pedindo, bicho e******o. — e******o é a mãe. — Prove que é Caero entregando a localidade do capitão Gulian Beho. Diga-nos onde aquele assassino possa estar, para que acabemos com ele. Assenti imediatamente com a cabeça e deixei que um brilho escapasse de meus olhos. Brilhos de liberdade, sendo eu Caero, de alguém como o capitão. Mas então pensei... Já Gulian matou o antigo senhor dele, pelas leis humanistas, Caero era do capitão por direito. Então, levando em consideração que Caero era de Gulian por direito, eu não deveria entregá-lo. Talvez seja um teste. — O capitão Gulian Beho é meu senhor agora — aleguei, quase que com falsa infelicidade. — Não posso fazer isso. O velho balançou a cabeça, desgostoso. — Não entendo como os sumos fazem isso. Colocam a obediência ao senhor acima de tudo. Por isso não são confiáveis. — Ele fez uma pausa ao dar uma tossida seca. Arqueei as sobrancelhas. — Você não tem senso de justiça? — E acrescentou: — Ele matou o duque de Tamre. Seu verdadeiro senhor. Tenha decência, criatura! Vingue o duque e em rebatida todos os inocentes que o seu novo senhor matou. Ele tem mais de mil almas nas costas. Entregue ele a nós e terá feito a sua parte. Comecei a pensar em como sairia dali sem ser pego. Eu era pequeno e nada rápido. Só ganharia na corrida contra o velho, pois o que me faltava em velocidade eu tinha em energia e motivo para correr sem parar até despistá-lo. Mas não do jovem. Quase sorri com a ideia. — Não posso. — Compreendo — o jovem disse e percebi rapidamente um olhar sinalizando o velho de alguma coisa. Eles seriam tão retardados a este ponto? Sou um sumo, sou naturalmente mais inteligente que eles, eles não podem me enganar. Convivo com Gulian desde que nasci, e não há manipulador melhor que ele. — Posso ir então? — fingi que cai na deles. O velho balbuciou algumas palavras antes de dizer: — Tem certeza que não pode nos dizer onde ele está? — E balbuciou outras. — Deve ter um jeito de burlar a obediência ao seu senhor. Balancei negativamente a cabeça. Fim de papo. — Deixe-o ir. O capitão Gulian Beho ainda vai ser achado por alguém — o jovem garantiu num tom teatral que me deu vontade de rir. Já cheguei a esse ponto? Já quero rir de deboche dos humanos? Expus as moedas nas mãos com o valor quase certo de pagar pelos produtos e o velho veio em minha direção para conferir quanto ainda eu o devia ou quantos ele deveria me retornar. Enquanto isso, tive a audácia de rasgar um pedaço de papel pardo do rolo do balcão, e enrolar, no chão, todos os fracos e sacos de condimentos que comprei. Ele direcionou uma moeda de oito meudis em minhas mãos quando terminei de embrulhar e colocar as coisas na minha bolsa velha de couro transversal. Mas antes que eu a pudesse tocar, ele semicerrou os olhos e disse: — Espere. Você mentiu para mim quando disse o nome de seu senhor. Meus olhos se arregalaram o tanto que os do velho quase se fecharam. Arranquei de sua mão os oito meudis e corri de costas, mas quando me virei, me deparei com aquele jovem que, ainda baixo, era troncudo e aparentemente veloz. Sei que mais veloz do que eu ele era. Mas não me detive e continuei no embalo da correria. Deixei que o sangue fervesse e me conduzisse. Eu sabia que tinha a chance de fracassar, mas era a minha única saída. Então quando cheguei perto dele, no embalo da correria, me lancei ao chão, espremido, e passei por baixo de suas pernas, mas ele as juntou e prendeu os meus pés nos seus. Não me entreguei fácil assim. Mesmo sem força, tinha a inteligência, então a usei para mudar o jogo e usar o corpo dele contra si próprio. Recolhi com força os meus pés, e o empurrei com as mãos no ponto mais alto que consegui, para que a minha força fosse ajudada pela gravidade e seu peso. Ele não podia se virar, e abrir as pernas não iria. O jovem lutava comigo para continuar de pé, enquanto o velho saía de trás do balcão com um pedaço de madeira na mão. Só sei que no fim de tudo eu derrubei o jovem. No tombo ele abriu as pernas e mais do que depressa me levantei do chão e corri para fora dali. Na rua, tinha um alvoroço que dentro da loja eu não tinha percebido, pelo desespero. Carregavam alguém. Me paralisei por um par de segundos com a ideia de que pudesse ser o Gulian, mas logo corri para o destino que as pessoas estavam tomando. Era o caminho que trilharia para encontrar Gulian do mesmo jeito. E de lá, ainda próximo à loja de condimentos, escondido numa esquina, vi o jovem e o velho saindo na rua. Me procuraram por um instante, mas então deram mais atenção ao alvoroço e aos gritos de protestos. Eu estava num lugar escuro demais para ser visto, mas se perguntassem por ali, algumas pessoas poderiam alegar que viu algo pequeno correndo na direção onde eu estava. Na espera, notei que a população seguia uma grande carroça, talvez com duas vezes o tamanho de uma comum, tendo touros que a puxava naquela subida descabida. Sobre a carroça, vi a sombra do que parecia ser um homem grande amarrado num portal de madeira. Os pulsos estavam amarrados na madeira de cima e as pernas nas madeiras laterais. Não parecia que tinha como o sujeito alcançar o piso da carroça, mas não parecia incomodado por estar com todo o seu peso pendido sobre os pulsos amarrados, já que o mesmo estava com a cabeça caída, transparecendo estar morto ou desacordado. À espreita via como gritavam com o homem. O odiavam com tamanha força. E alguns o chuchavam com lanças. Provavelmente já estava morto. Meu corpo tremeu novamente com o pensamento de que poderia ser o Gulian. Olhei para todas as direções, esperando que ele aparecesse em algum lugar, já que demorei bastante na loja, somado a todo esse grito nesta cidade minúscula que poderia lhe chamar a atenção. Mas em canto algum eu o avistava à espreita, sussurrando ou tentando me sinalizar de que estava ali e que me via. Tinha esperança, ou ao menos tentava ter. Minha busca desenfreada foi interrompida com um grito familiar vindo da carroça entre um e outro chucho. O berro estridente ensurdeceu meus ouvidos como um açoite. Cheguei a tencionar os ombros e estatelar meus olhos. É ele! É ele preso na carroça.
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