Capítulo 3

1170 Palavras
Lucas narrando A luz fria e pálida da sala de interrogatório era a única testemunha. Do lado de fora, o sol de Foz do Iguaçu já havia se posto, mas ali dentro, o tempo parecia ter congelado. Rafael, o jovem de dezenove anos que eu havia acabado de prender, estava sentado em uma cadeira de metal, com as mãos algemadas à mesa. Ele olhava para o chão, os ombros encolhidos, o medo estampado em seu rosto. O mesmo medo que, horas antes, eu ouvi na voz da sua irmã, do outro lado de uma ligação. — Eu não vou falar nada — ele disse, a voz abafada. — Rafael, eu não estou aqui para te assustar. Estou aqui para te ajudar — respondi, com o tom de voz calmo e profissional que a situação exigia. Eu me sentei na cadeira à sua frente. A mesa entre nós era uma barreira, uma linha que separava o mundo da ordem e o do caos. Eu abri a pasta com o relatório da ocorrência, fingindo que estava lendo, mas meus olhos estavam fixos nele. — Rafael, você tem dezenove anos. Você tem uma vida inteira pela frente. Você não pode jogar tudo isso fora por causa de um bando de bandidos. Ele ergueu a cabeça e me encarou. Havia desdém em seus olhos. Aquele era o olhar de quem já havia se perdido, de quem já havia se acostumado com o perigo. — Você não sabe de nada — ele respondeu. — Sei o suficiente. Sei que você foi pego transportando maconha, e sei que você não fez isso sozinho. Sei que tem alguém por trás de você, alguém que te prometeu dinheiro fácil e te largou na mão na primeira oportunidade. Ele abaixou a cabeça de novo. O silêncio na sala era ensurdecedor. A respiração dele era ofegante, e eu sabia que ele estava assustado. O meu trabalho não era só prender, mas também entender a raiz do problema. A grande maioria dos garotos que eu prendia era como o Rafael. Jovens que se metiam em encrenca por necessidade, por falta de opção, ou por uma ilusão de poder e dinheiro. — Eu posso te ajudar, Rafael. Me diga quem está por trás disso. De onde você está trazendo as drogas? Para quem você está levando? Ele permaneceu em silêncio. Eu sabia que ele estava com medo. Medo dos traficantes, medo da prisão, medo de mim. Mas eu não podia ceder. A justiça tinha que ser feita. E para que ela fosse feita, eu precisava de informações. Eu peguei uma caneta e comecei a desenhar em uma folha em branco. Um círculo no meio, e setas que saíam dele, apontando para diferentes direções. — A droga sai de algum lugar, passa por aqui, e vai para outro lugar. Você é apenas uma peça nesse quebra-cabeça. Mas se você me der as peças que faltam, eu posso te ajudar. Ele me olhou, e eu vi um lampejo de curiosidade em seus olhos. Eu sabia que eu tinha a sua atenção. — Quem te deu as drogas, Rafael? Foi na fronteira? Você pegou o carro de alguém? Ele balançou a cabeça, negando. — Eu não sei de nada — ele disse, a voz fraca. Eu não desisti. O meu trabalho era esse. Eu era um PRF, e a minha função era extrair informações, por mais difícil que fosse. — A sua mãe. Você sabe o quanto ela está preocupada? E sua irmã. Ela me atendeu no celular. Ela parecia estar desesperada. O nome da irmã o atingiu como um soco. Ele ergueu a cabeça, e seus olhos estavam cheios de raiva e de desespero. — Não fala da minha irmã. Não fala da minha família. Você não tem esse direito — ele gritou. Eu sabia que eu havia tocado no ponto fraco dele. A família. A mesma família que eu havia escutado pelo celular, a mesma família que, agora, estava na minha cabeça. A voz da irmã, a tristeza em sua voz, a forma como ela me respondeu. Eu me lembrei da sua voz, e, por um instante, me imaginei falando com ela. — Eu tenho todo o direito, Rafael. A sua família está sofrendo por causa das suas escolhas. A sua irmã está tentando te salvar, mas você não a está deixando. Ele se encolheu, e eu vi uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Eu sabia que eu havia conseguido. Ele não estava chorando de medo, mas de arrependimento. — Eles vão me matar. Se eu falar, eles vão me matar. Eu me levantei e fui até a janela da sala, olhando para a noite lá fora. Foz do Iguaçu, uma cidade de contrastes, de luzes e de sombras, de riqueza e de pobreza, de lei e de crime. — Ninguém vai te matar. A gente vai te proteger. Você vai para uma cela segura, e a gente vai fazer de tudo para que você não sofra represália. Ele se calou. O medo em seus olhos era real, e eu sabia que ele não estava mentindo. O tráfico de drogas não perdoa. A vingança é rápida e c***l. — A gente pode te dar proteção, Rafael. Mas você tem que nos ajudar. Me diga, quem está por trás disso? Ele balhou a cabeça e disse: — Eu não sei. Eu juro. Eu só peguei o carro e a mochila, e ia entregar em uma pensão na cidade. Eu me sentei novamente, e o desânimo tomou conta de mim. A pista, que parecia tão promissora, havia esfriado. O garoto não sabia de nada. Ele era apenas um peão em um jogo de xadrez, um peão que estava prestes a ser sacrificado. Eu me levantei e fui até a porta da sala. Antes de sair, eu olhei para ele, e me lembrei da minha própria família. A minha namorada, Sofia, que estava em casa, me esperando. A preocupação em seu rosto quando eu saía para o trabalho. A vida de um PRF é uma luta constante. Uma luta contra o crime, contra a corrupção, mas também uma luta contra os próprios sentimentos. Eu fechei a porta da sala, deixando Rafael sozinho em sua prisão. Do lado de fora, o Agente Barros me esperava. — E aí? Ele falou alguma coisa? — ele perguntou. — Não. Ele é só um garoto assustado. É um peão em um jogo muito maior do que ele. O Barros suspirou. Era uma história que ele já havia escutado centenas de vezes. — O que a gente faz agora? — ele perguntou. — A gente vai para a delegacia, e a gente vai fazer o relatório. E a gente vai ter que ir à casa da família dele para pegar os documentos para o processo de prisão. O meu coração gelou. A casa da família dele. A casa da voz que eu havia escutado pelo celular. A casa da mulher que, sem eu saber, me faria questionar tudo o que eu acreditava, a mulher que me faria prisioneiro do meu desejo.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR