Isabela narrando
O Voyage branco parecia pesado, como se cada quilômetro que percorria rumo a casa levasse um peso extra sobre o capô. O silêncio dentro do carro era a coisa mais alta que eu já havia escutado. Minha mãe, sentada ao meu lado, tinha o olhar fixo na janela, e eu sabia que ela estava segurando as lágrimas. Eu, por outro lado, sentia uma raiva fria e distante. Não por Rafael estar preso, mas por ele ter nos colocado nessa situação. Por ele ter feito minha mãe chorar de novo.
Eu dirigi por entre as ruas calmas de Foz do Iguaçu, com a mente a milhão. A voz do policial ainda ecoava nos meus ouvidos, dura, profissional, mas carregada de uma formalidade que me fez gelar. Ele falava de tráfico de drogas, de prisão, de delegacia. Palavras que nunca pensei que ouviria na vida real, muito menos ligadas ao nome do meu irmão.
Quando chegamos em casa, a quietude do nosso lar era um contraste brutal com o caos que se instalou em nossas vidas. A porta de entrada parecia um portal para um mundo diferente, um mundo onde a vida continuava normalmente, enquanto a nossa tinha desmoronado em um milênio de segundos.
— Mãe, a senhora precisa se acalmar. Vai tomar um banho, comer alguma coisa. Eu vou para a delegacia agora — eu disse, com o tom de voz mais calmo que consegui encontrar.
Minha mãe me olhou com os olhos marejados, e eu vi o medo e a exaustão em seu rosto. Ela era uma força da natureza, mas Rafael havia esgotado as suas forças.
— Filha, eu não sei o que pensar. Meu Deus, meu filho… — ela balbuciava.
— Ele fez as escolhas dele, mãe. E agora ele terá que arcar com as consequências. Mas nós vamos estar lá para ele — eu a abracei, tentando passar a ela a força que eu estava tentando encontrar em mim mesma.
Eu sabia que, para nós, o drama seria menor do que o dele. Para ele, era a prisão, a vida na cadeia. Para nós, era o medo, o desespero e a humilhação. Mas eu não podia ceder ao desespero. Eu tinha que ser o pilar da minha família.
Eu fui para o meu quarto e joguei minhas coisas na cama. Minha cabeça doía, meu corpo parecia pesado, mas eu não podia parar. Eu tinha que ser forte, para a minha mãe e, ironicamente, para o meu irmão. Eu peguei meu celular e disquei o número do advogado, Eduardo. Ele era um amigo antigo do meu pai, um homem que eu confiava.
— Eduardo, sou eu, a Isabela. Aconteceu uma coisa com o Rafael… — eu disse, a voz trêmula.
Eu contei a ele tudo o que havia acontecido, desde a ligação até a nossa chegada em casa. Ele me ouviu pacientemente, e eu podia sentir a sua preocupação através da linha.
— Fica tranquila, Isabela. Eu estou indo para a delegacia agora. Você pode ir para lá. Vamos ver o que podemos fazer — ele me tranquilizou.
Eu desliguei o celular, e me senti um pouco mais aliviada. Pelo menos, eu não estaria sozinha nessa luta.
Eu fui para o banheiro e liguei o chuveiro. A água quente me atingiu como um raio, tirando de mim a poeira e o cansaço do dia. Eu lavei meus cabelos, longos e negros, sentindo a água escorrer por cada mecha, me livrando do peso que eu carregava.
Quando saí do banheiro, me senti renovada, mas a preocupação continuava lá, latente. Eu me olhei no espelho, e vi a mulher que eu era. Com os cabelos soltos, partindo no meio, e o corpo com curvas esculturais que se revelavam na toalha. A vida de trabalho, de faculdade, e de luta para sustentar a minha família não havia me tirado a minha beleza. Na verdade, ela havia a intensificado.
Eu fui até o meu closet e peguei a minha roupa. Uma calça jeans flear, que se ajustava perfeitamente às minhas curvas, e uma blusa preta de alcinha, que destacava os meus s***s. Eu me vesti, e me senti poderosa, pronta para enfrentar o que viesse.
Eu me calcei, e a sapatilha preta foi o toque final. Eu me olhei no espelho, e vi a Isabela pronta para a guerra. Eu não ia para a delegacia chorar e me desesperar, eu ia para lutar pelo meu irmão. Eu não ia deixar que ele, por mais que tivesse errado, fosse abandonado pelo sistema.
Eu saí do quarto, e encontrei minha mãe na sala. Ela tinha o rosto lavado, mas os olhos ainda estavam inchados.
— Filha, eu vou com você — ela disse, com a voz embargada.
— Não, mãe. Fica aqui. Eu vou resolver isso com o advogado e te ligo. Não se preocupa, eu volto em algumas horas.
Ela me abraçou forte, e eu me permiti por um instante, sentir todo o medo e o desespero que ela estava sentindo. O cheiro dela, o cheiro de casa, me acalmou.
— Eu te amo, mãe. Vai dar tudo certo.
Eu saí de casa, entrei no Voyage branco e dirigi para a delegacia. A noite em Foz do Iguaçu era uma promessa de uma cidade que nunca dormia, de um lugar onde a vida era cheia de contrastes. Eu estava indo para um lugar onde a lei era soberana, e eu, uma mulher de uma vida simples, estava prestes a colidir com ela. Eu não sabia o que me esperava, mas eu estava pronta. Eu estava pronta para a guerra. A guerra pelo meu irmão. A guerra que me levaria para os braços de um homem que me faria prisioneira do meu desejo.