Nunca acaba

1102 Palavras
Passaram-se dias sem notícias de Kendell. Nem uma chamada, nem uma mensagem, nada. Como se aquela noite na minha casa não tivesse existido. Apeguei-me ao silêncio, decidida a não procurá-lo. Não depois de tê-lo visto ir embora sem sequer olhar para mim. Sem uma palavra. Em vez de pensar nele, concentrei-me na casa. A solidão do lugar começava a pesar sobre mim, então liguei para as poucas pessoas que algum dia haviam trabalhado para meus pais. Pessoas que, com o tempo, haviam se tornado parte da minha família. Quando abriram a porta, seus rostos se iluminaram com uma mistura de surpresa e carinho. Não me fizeram perguntas. Não quiseram saber por que eu estava ali, nem o que havia acontecido nos últimos anos. Simplesmente me abraçaram e começaram a trabalhar. Rosário, a cozinheira, foi a primeira a chegar. Suas mãos ásperas, curtidas pelo trabalho, acariciaram meu rosto com ternura, como quando eu era criança. — Minha menina, você está tão magra. — Ela me repreendeu, como se o tempo não tivesse passado. Raúl, o jardineiro, chegou com suas ferramentas, decidido a devolver a alma ao jardim murcho. Enquanto ele cortava a grama, eu limpava as janelas, Rosário cozinhava e, pouco a pouco, a casa começou a respirar de novo. Passei os dias mergulhada no trabalho. Limpando, organizando, devolvendo vida a cada canto. Não pensava nele. Não o recordava. Ou, pelo menos, me obrigava a acreditar nisso. Até que recebi o telefonema. — Senhora Lombardo, sou o advogado do senhor Lesters. — A voz formal soou distante, mas firme —. Hoje é a leitura do testamento de seu avô. Sua presença é necessária. Fiquei gelada. Havia esquecido completamente a leitura do testamento. Não pretendia ir. — Sinto muito, mas não vejo necessidade de comparecer. — Minha voz soou cortante. Não queria vê-lo. Não queria vê-los. — Senhora, — o advogado insistiu com firmeza — o senhor Lesters pediu expressamente que a senhora estivesse presente. Meu peito se contraiu. O avô de Kendell... Aquele homem nobre, doce e generoso havia sido a única pessoa que realmente me tratara com afeto durante meu casamento. Ele sempre havia me amado como a uma neta. — Está bem. Eu irei. *** Vesti-me com um conjunto sóbrio, mas elegante. Uma calça preta ajustada, blusa de seda cor marfim e um sobretudo camel. Nada ostensivo. Maquiei-me com discrição, cobrindo as olheiras que o cansaço havia deixado. Ao chegar ao escritório do advogado, a atmosfera era sufocante. A família de Kendell estava lá, com seus olhares altivos e calculistas. Sua mãe, com aquele ar arrogante que sempre tivera, lançou-me um olhar cheio de desprezo. E então, eu o vi. Kendell. De pé, ao lado de Amanda. Sua mulher. Meu peito se comprimiu com violência, mas não deixei que se notasse. Obriguei-me a respirar com calma, a sustentar o olhar elevado. Amanda, por outro lado, observou-me com ódio absoluto. Seus olhos, antes doces e risonhos, agora eram frios e cruéis. Usava um vestido justo, deixando notar seu ventre saliente. O filho de Kendell. O filho que eu nunca teria. Meu coração se despedaçou, mas não o mostrei. Limitei-me a sentar, com as costas eretas e o rosto sereno. Kendell não olhou para mim. Não me dirigiu a palavra. Manteve-se impassível, com o rosto frio e inabalável. Mas suas mãos estavam fechadas em punhos sobre as coxas. O advogado pigarreou para chamar a atenção e começou a ler o testamento. — O senhor William Lesters deixa todas as suas propriedades, bens e investimentos para seu neto, Kendell Lesters. A mãe de Kendell sorriu com soberba. A sala inteira explodiu em murmúrios. Tudo para ele. Claro. Sempre havia sido assim. Mas o sorriso de sua mãe se desfez em um segundo quando o advogado continuou: — No entanto... — disse com voz firme —, há uma condição. A sala ficou em silêncio. — O senhor Lesters especificou que, para que seu neto possa herdar todo o patrimônio, deve permanecer casado com a senhora Ana Lombardo durante mais um ano. O ar tornou-se espesso. A voz do advogado ecoou em meus ouvidos. A mãe de Kendell levantou-se de um salto. — Isto é um absurdo! Não podem fazer isto com meu filho! Amanda também protesta. Seu rosto empalideceu, e suas mãos, que até então se agarravam com doçura ao braço de Kendell, soltaram-no como se queimasse. — Não pretendo permitir isso! — gritou, com os olhos arregalados —. Isto é ridículo! Kendell já está casado comigo! O advogado manteve-se imperturbável. — Lamento informá-la, senhorita Amanda, que o casamento de seu noivo com a senhora Lombardo ainda não foi dissolvido legalmente. — Portanto, para efeitos legais, continuam casados. Amanda lançou uma maldição, voltando o olhar para Kendell, exigindo que dissesse algo. Mas ele não o fez. Levantou-se com calma, sem olhar para mais ninguém além de mim. Seus olhos cinzentos me perfuraram. — Mais um ano, Ana. — Sua voz foi baixa, áspera, apenas para mim —. Posso aguentar mais um ano. Suas palavras me atravessaram como uma faca. Seu tom indiferente, sem emoções, como se estivesse aceitando um castigo temporário. Olhei-o com frieza. Meus lábios tremeram ligeiramente, mas os apertei com força. — E se eu me recusar? — perguntei, com a voz quase inaudível. O advogado interveio. — Se algum dos dois quebrar a cláusula, toda a herança irá diretamente para a caridade. Sem exceções. O silêncio foi sepulcral. E então, o advogado acrescentou algo mais: — Há uma cláusula adicional. — Dois meses antes de terminar esse ano, ambos deverão passar um mês juntos na cabana do lago. Sem exceções. Sem contato com o exterior. Completamente sozinhos. A sala inteira ficou em choque. A mãe de Kendell começou a gritar insultos, enquanto Amanda lançava olhares assassinos. Mas ele não reagiu. Seus olhos estavam cravados nos meus. Fixos. Intensos. Não disse nada, mas a sombra de um sorriso amargo curvou levemente o canto de seus lábios. Como se, de alguma maneira, o destino tivesse decidido nos trancar juntos. Meu peito se encolheu de dor, mas não deixei que ninguém notasse. Levantei-me com calma. Meu olhar percorreu a sala, detendo-se apenas um segundo em Kendell. Não disse nada. Apenas me virei e caminhei em direção à porta, com os ombros firmes. Quando cruzei a saída, meu coração batia com violência. O ar frio atingiu meu rosto. Fechei os olhos por um segundo. Um ano mais. Um maldito ano mais presa a ele. E o pior de tudo era que, apesar da dor, apesar de Amanda, uma parte de mim... uma parte pequena e quebrada desejava que esse ano nunca terminasse.
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