Dirigi até minha casa como se o demônio me perseguisse.
As mãos tremiam sobre o volante.
O caminho de volta foi um borrão; não soube se tinha passado um sinal vermelho ou se tinha mudado de faixa sem olhar. Não me importei.
Só queria chegar.
Só queria fugir dele.
Ao ver a fachada da casa dos meus pais, o nó em minha garganta se apertou com força.
Meu refúgio.
O único lugar onde ainda podia fingir que estava a salvo.
Entrei na propriedade quase às cegas, com a vista nublada pela ira e pela frustração.
Empurrei a porta com brusquidão, mas m*l havia cruzado o limiar quando ouvi o guincho de pneus atrás de mim.
Parei subitamente.
Não precisava me virar para saber quem era.
O rugido do motor de seu carro esportivo me atingiu como uma garrada.
Não tinha que olhar.
Sua presença era tão imponente, tão selvagem, que eu podia senti-la na pele.
Virei-me lentamente.
Lá estava ele, descendo do carro com a mesma arrogância com que tinha entrado em minha vida.
Vestido com um terno preto, o paletó aberto, a gravata frouxa ao redor do pescoço e a camisa branca desabotoada no peito.
Seu cabelo escuro estava bagunçado, e sua mandíbula tensa marcava a linha de sua raiva contida.
Seus olhos cinzentos, gélidos como a tempestade, estavam fixos em mim.
Avançava com passo decidido, como se fosse invadir meu espaço, como se ainda tivesse direito de fazê-lo.
A fúria explodiu dentro de mim.
Senti como o sangue fervia em minhas veias.
Não ia permitir que ele invadisse meu lar.
— O que demônios você faz aqui?! — disparei com a voz falha, sem poder me conter.
O ódio me transbordava, queimava minha garganta.
Ele parou a poucos passos de mim, com as mãos nos bolsos da calça, como se a fúria que eu sentia não o afetasse minimamente.
— Precisamos conversar. — Sua voz foi baixa, mas firme. Tão condenadamente autoritária.
Ri com amargura.
— Conversar? Agora você quer conversar? — Cuspi a palavra com desprezo —. Sobre o quê? Sobre sua nova vida com Amanda? Ou sobre como pensa em me obrigar a ser sua esposa por mais um ano enquanto coloca a coroa em sua rainha grávida?
Sua mandíbula se tensionou.
Uma sombra escura cruzou seu olhar, mas ele não se abalou.
— Não tenho escolha, Ana. — Sua voz foi áspera, fria, sem rastro de culpa —. Você também não.
Um calafrio percorreu minhas costas.
Seu tom indiferente, como se estivesse falando de um mau negócio em vez da minha vida, calou fundo em meus ossos.
Dei um passo em sua direção, sem medo, com os olhos acesos pela fúria.
— Não tem escolha? — soltei com sarcasmo —. Claro que você tem, Kendell. Pode renunciar à herança, pode dar tudo para a caridade. Não finja que não há alternativa.
Seus olhos se estreitaram.
Sua respiração tornou-se mais pesada.
— Você acha que posso deixar meu avô perder tudo? — disparou ele, aproximando-se mais, até que seu peito quase roçava o meu —. Que o legado dele acabe nas mãos de estranhos?
Sua voz era grave, carregada de raiva contida.
— Não use seu avô para justificar suas misérias! — gritei, furiosa —. Você só quer o poder. Isso é tudo o que te importa!
Seus olhos escureceram.
Em um movimento brusco, sua mão agarrou meu pulso.
Seu aperto foi firme, mas não doloroso.
Apenas o suficiente para que eu sentisse o calor abrasador de sua pele.
— E você? — sussurrou ele com voz rouca, mas carregada de veneno —. O que diabos te importa se eu fico ou não com a herança? Se você foi embora sem olhar para trás.
Seu hálito quente roçou meu rosto.
Estava tão perto que eu podia sentir o aroma de sua colônia, misturado a um leve rastro de uísque.
Aquele maldito aroma que algum dia tinha me enlouquecido.
Olhei-o direto nos olhos.
Meu peito subia e descia com respirações curtas, entrecortadas.
— Não me importa. — Cuspi a mentira com raiva, cravando o olhar nele —. Pode ficar com tudo, eu não quero nada de você. Nem seu dinheiro. Nem seu sobrenome. Nem suas malditas mentiras.
Seu aperto endureceu levemente, mas seu rosto manteve-se inexpressivo.
Impassível.
— Tem certeza? — sussurrou com voz rouca.
Seu hálito quente colidiu contra meus lábios.
Seus olhos desceram para minha boca.
Meu corpo inteiro se tensionou.
Meu peito apertado, meu coração galopando enlouquecido.
— Sim. Tenho certeza — murmurei, mas minha voz já não tinha força.
Eu tremia.
E então, ele o fez.
Sem aviso. Sem permissão.
Seus lábios colidiram contra os meus com fúria.
O beijo foi uma colisão violenta, desesperada.
Suas mãos agarraram meu rosto, apertando-me contra ele, como se não pudesse suportar mais um segundo sem me tocar.
E eu...
Eu não o empurrei.
Não o afastei.
Não o detive.
Porque eu o odiava.
Mas o desejava com a mesma intensidade.
Sua língua invadiu minha boca com fome, com raiva, com desespero.
Meu corpo respondeu.
Minhas mãos, como se tivessem vontade própria, agarraram sua camisa, prendendo-se ao seu peito, amarrotando o tecido com a mesma fúria com que ele me beijava.
Beijou-me com toda a dor, com toda a frustração e com toda a maldita paixão que nos consumia.
Seus lábios eram duros, exigentes, egoístas.
Mordeu meu lábio inferior, puxando-o, e um gemido involuntário escapou da minha garganta.
Então, ele se afastou bruscamente.
Seus olhos estavam nublados de desejo.
Sua respiração entrecortada, pesada, ruidosa.
Nos olhamos por alguns segundos, arquejando como dois animais à beira do colapso.
Seu peito subia e descia com violência.
O meu também.
E sem dizer mais uma palavra, ele deu meia-volta.
Afastou-se.
Entrou em seu carro.
E desapareceu, deixando-me tremendo, com os lábios ainda ardendo com seu sabor.