Arrasada, era assim que eu me sentia por estar em plena segunda-feira assistindo à Sessão da Tarde. Havia sido demitida há uma semana e não sabia o que fazer. Curtir o seguro desespero até acabar? Procurar trabalho o quanto antes para não surtar quando eu não tiver mais nem um tostão furado no bolso? Essa última parecia uma boa opção.
Mas não hoje, não imediatamente, agora eu ficaria curtindo minha fossa na companhia de um balde de sorvete, sem pensar nos meus problemas. Estava decidida, na próxima semana eu procuraria emprego e sairia do estado de inércia no qual me encontrava. Tudo o que eu queria por hora era terminar de assistir ao filme clichê, que eu já assistira milhares de vezes e sabia o final de cor.
Com resignação, aceitei meu destino. Era isso. Eu estava desempregada, sem esperanças e com diversas contas para pagar, incluindo aluguel e condomínio que venceriam no final do mês.
Desanimada, ouvi uma batida na porta e me arrastei até lá para abrir. Sem me preocupar se estava apresentável ou não, quem quer que ousara atrapalhar meu filme teria que lidar com minha aparência no momento.
Espiei pelo olho mágico e era minha vizinha de porta. Abri e sua voz, um tanto estridente, logo atingiu meus ouvidos:
— Beatriz!
— Oi — respondi sem emoção, tentando inutilmente domar meus fios de cabelo, que provavelmente apontavam para todas as direções.
Qual é? Rebeca era tão deslumbrante que vê-la impecável, mesmo de coque e usando apenas um roupão, causou-me certo desconforto na boca do estômago.
— Não quero incomodar, mas será que você pode me emprestar um pouco de adoçante? — Despejou ansiosa, parecia envergonhada. — Sabe como é, Bernardo esqueceu de comprar e eu não posso tomar nada com açúcar.
— Adoçante? — repeti como se tivesse problemas de audição. — Não sei se eu tenho... Deixa eu ver. — Eu iria checar, quando o próprio Bernardo surgiu na porta, vestindo regata branca e bermuda.
— Eu achei, não precisa incomodar os vizinhos — anunciou constrangido. — Oi, Beatriz.
Apenas fiz um aceno com a cabeça para retribuir sua educação, o som da minha própria voz estava me incomodando.
— Ah, Bê! — Estalou a língua e deu uma olhadela por cima do ombro para ele. — Devia ter procurado direito antes de eu perturbar nossa vizinha. — Seus lábios naturalmente rosados se curvaram em um sorriso sem graça.
— Não foi nada. — Me apressei em dizer, querendo mais do que tudo acabar com aquele diálogo e voltar para o meu filme.
— Desculpe. — Bernardo proferiu acanhado.
Olhou para mim e coçou a nuca. Por fim, se virando para a mulher alta e magra que estava na minha frente, completou:
— Volta pra cá, Beca.
— Obrigada e me desculpe. — Rebeca emendou com um sorriso gentil.
— Não foi nada. — Com isso tornei a entrar, fechando a porta em seguida.
Alta, magra e empregada, Rebeca representava tudo o que eu não era e talvez nunca viria a ser – no quesito magreza principalmente. Ela jamais entenderia a necessidade que um ser humano desempregado tinha de se entupir de açúcar para viver. Adoçante? Eu com certeza não me lembrava de ter comprado isso, talvez em alguma época remota da minha vida, na qual sonhava em fazer dieta. Mas na certa eu abandonei a dieta por um pão de queijo quentinho e uma caneca de café.
Caí no sofá antes de abrir meu e-mail. Enviara alguns currículos para vagas que minha amiga me indicara, então tinha esperança de obter uma resposta favorável, mas…
Nada.
Respirei fundo, constatando que perdi uma parte razoável do filme. Argh! Agora eu teria que procurar na Netflix para poder acompanhar o que perdi. Ninguém entendia a graça de assistir a um filme na TV aberta, com comerciais e tudo, mesmo podendo assistir de uma vez e sem cortes na Internet.
É, eu era um pouco estranha.
Meu celular apitou e eu corri para olhar.
O coração acelerado, as mãos suando, parecia até que estava apaixonada. Bem, eu realmente sempre fui louca por não morrer de fome. Contudo, era só o Yago, um chato de galocha, que conseguira meu número através da Fernanda, minha melhor amiga. Ainda não entendia porque ela passara meu contato para ele, mas devido à insistência do Yago em conseguir me levar para sair, eu pretendia tirar a limpo essa história com ela.
Entretanto, assim como entregar currículo, esse dia não seria hoje. Após encontrar o filme, dei play e me ajeitei confortavelmente no sofá. Não fossem os gritos da vizinha, eu teria obtido êxito em ter um pouco de paz.
Seria a Rebeca? O casal vinte nunca brigava, pelo menos não para os outros ouvirem. Pausei o filme e fiquei quietinha, tentando entender o motivo da discussão. Qual é? Eu não tinha nada mais interessante para fazer, ouvir a conversa dos outros era o ápice da minha segunda-feira.
— Você não se preocupa comigo! — A voz da Rebeca reverberou, perpassando as paredes finas do apartamento.
— Beca, se acalma — pediu Bernardo, em um tom de voz baixo, mas firme. — Os vizinhos não precisam ouvir nossos problemas.
— Ah, não? — Rebeca gritou de volta. — Não seja por isso, eu vou morar sozinha a partir de hoje.
Um segundo após, ouvi o barulho da porta batendo com mais força do que o necessário
Tornei a dar play no filme, me sentindo culpada por ouvir algo que me parecia tão íntimo. Mas era aquele ditado: quem está na chuva é para se molhar. Por isso mesmo que eu curtia minha solteirice, pelo menos problemas de cunho sentimental eu não tinha.
Aliás, para um casal que morava sob o mesmo teto, aqueles dois eram um pouco estranhos. Eles se tratavam com carinho e visível afeto, mas se chamavam sempre por abreviação do nome. Nada de amor, benzinho, xuxuzinho esses apelidos piegas que todo casal adere em determinado tempo de relacionamento. Na real, eu nunca soube o que eles representavam um ao outro exatamente, como sequer parava em casa antes, nossas interações resumiam-se a cumprimentos cordiais. Ou quando Rebeca precisava de algo e vinha pedir para mim. De qualquer jeito, especular a vida dos meus vizinhos não era nada que mudaria minha situação financeira.
Tentei me concentrar no meu filme, era o que tinha para hoje.