capítulo 17: Memória esquecidas

1105 Palavras
Sandro A vida me levou por caminhos tortuosos, mas hoje, algo em mim sente que estou perdido de uma maneira diferente. Não é apenas o fato de ver Talita depois de tantos anos, nem o fardo de descobrir que Júlio, aquele garoto que mexeu comigo desde o início, é meu filho. Algo está errado comigo. Minha cabeça dói constantemente, e sinto como se houvesse lacunas no meu passado. Por que tudo parece tão confuso? Naquela noite, enquanto tentava dormir, flashes do passado inundaram minha mente. Vi Talita sorrindo, me lembrando do dia em que a pedi em casamento. Lembro-me perfeitamente do anel que escolhi, das palavras que disse a ela. Lembro-me da felicidade dela e de como eu também estava tão certo de que nosso futuro seria perfeito. Mas depois disso, tudo fica embaçado. Sandro (pensando): "Quando foi que as coisas deram errado? Como foi que tudo desmoronou tão rápido?" Há uma parte da minha memória que parece ter sido arrancada de mim, como se um pedaço da minha vida simplesmente tivesse desaparecido. Tudo o que sei é que houve um acidente. O médico me disse que bati a cabeça de forma grave. E desde então, não lembro de muitas coisas... Sérgio, Paula, todo esse capítulo parece um borrão. Mas a única coisa que ficou clara em minha mente, desde sempre, é Talita. No entanto, agora, estou começando a questionar tudo. Por que não consigo lembrar de Júlio? O garoto é meu filho, mas por que ele nunca apareceu em minhas lembranças? Algo está profundamente errado, e isso me assusta. Na manhã seguinte, acordei com uma dor de cabeça pulsante, o tipo de dor que vem e vai, mas nunca realmente desaparece. Olhei para o espelho e vi um homem que parecia perdido, com um buraco na alma. Decidi que precisava de respostas, e rápido. Mas antes que pudesse pensar em como começar a investigar, recebi uma ligação de uma voz nervosa. — Sandro? — A voz do outro lado da linha disse rapidamente. — Houve um acidente. É o Sérgio. Ele está no hospital. Meu mundo girou. O medo tomou conta de mim enquanto me dirigia ao hospital, o coração batendo acelerado no peito. A sensação de que o passado estava escapando de minhas mãos, juntamente com o presente, era esmagadora. Quando cheguei ao hospital, corri pelos corredores até a sala de espera, onde Paula estava sentada, as mãos tremendo. Ela levantou os olhos para mim, e pude ver que estava apavorada. — Ele vai ficar bem? — Perguntei com a voz trêmula, tentando controlar o desespero. Paula assentiu lentamente, enxugando as lágrimas. — Os médicos disseram que ele está fora de perigo, mas precisa de observação. Foi um acidente feio. Ele estava distraído, e o carro... — Ela não conseguiu terminar a frase, e eu sabia que Sérgio estava vulnerável, assim como eu estava emocionalmente. Mas enquanto eu ouvia Paula, algo em mim não fazia sentido. Enquanto ela falava sobre o acidente de Sérgio, minha mente vagava. Havia algo errado, algo fora de lugar, mas eu não conseguia identificar o que era. Sandro (pensando): "Por que me sinto tão... desconectado disso tudo? E por que não lembro de nada importante sobre Sérgio?" Depois de ver Sérgio, que estava sedado e descansando, saí para o corredor do hospital para tentar organizar meus pensamentos. O peso de tudo o que acontecera recentemente estava esmagando minha mente e coração. Foi então que vi Talita andando pelo corredor. Ela estava ali, olhando para mim com uma mistura de preocupação e confusão. Ela se aproximou lentamente, e por um momento, me perguntei se ela sabia de algo que eu não sabia. — Sandro, o que está acontecendo? — Talita perguntou, parando diante de mim. — Você parece... diferente. Eu a olhei, tentando colocar em palavras o caos em minha mente. — Talita, eu... eu não me lembro de muitas coisas. Sinto como se houvesse uma parte de mim perdida. Sérgio, o casamento com Paula... tudo isso parece um borrão. Mas você... você está tão presente nas minhas lembranças. Eu lembro do dia em que te pedi em casamento, mas depois disso, tudo ficou confuso. Eu não sei mais o que é real. Ela me olhou em silêncio por um longo momento, processando o que eu havia dito. Então, algo mudou em sua expressão. Ela parecia entender mais do que eu podia perceber. — Sandro... houve um acidente. Eu me lembro, na época, você estava lidando com tantas coisas. E quando você desapareceu, eu... eu pensei que você estivesse me evitando. Mas agora percebo que você pode ter esquecido mais do que imagina. Meus olhos se arregalaram. — O que você quer dizer com isso? — Sérgio... o casamento com Paula... tudo isso aconteceu depois de você ter batido a cabeça em um acidente. Você foi hospitalizado, ficou em coma por algumas semanas. Quando acordou, parecia diferente, mas ninguém pensou que poderia ser algo tão sério quanto o que você está descrevendo agora. Sandro (pensando): "Então foi isso? Eu perdi parte da minha memória?" Talita suspirou, parecendo se decidir sobre algo importante. — Sandro, você precisa saber de uma coisa. Não só sobre o acidente, mas sobre o nosso filho. Júlio. Você não se lembra dele porque, na época, você não sabia que ele existia. Quando eu fiquei grávida, você já estava lidando com Paula e Sérgio, e eu... eu fui embora antes de te contar. Minha mente girou. A revelação de que Júlio era meu filho já havia sido um choque, mas agora, perceber que tudo isso estava ligado a um acidente, a uma perda de memória, era esmagador. — Então... eu realmente perdi uma parte da minha vida. Uma parte importante. Ela assentiu, e pude ver a tristeza em seus olhos. Talvez ela soubesse mais do que eu sobre o que tinha acontecido comigo, mas o que me restava agora era tentar juntar as peças desse quebra-cabeça. — Sandro, eu não sei o que vai acontecer agora. Mas você precisa se recuperar. Você precisa lembrar quem você é e o que quer. Só então, talvez, possamos decidir o que é melhor para o Júlio... e para todos nós. Enquanto as palavras de Talita ressoavam na minha mente, percebi que tinha uma longa jornada pela frente. Não era apenas sobre recuperar minhas memórias, mas sobre reconstruir minha vida, meu papel como pai, e, talvez, até mesmo descobrir se ainda havia espaço para o amor que um dia senti por Talita. E enquanto eu permanecia ali, no corredor do hospital, senti que estava dando o primeiro passo para enfrentar um passado que, até então, havia sido roubado de mim.
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