capítulo 19: Decisões

1107 Palavras
Marcela (pensando): "Nunca pensei que minha vida daria essa volta. Sento-me nesse sofá, cercada por uma casa que nunca foi minha de verdade. Cada canto dela reflete as escolhas de Eliton, não as minhas. Tudo aqui me lembra que nada, nem esse casamento, foi escolha minha. E agora, descobrir que estou grávida, quando um filho jamais fez parte desse acordo... Parece uma ironia c***l do destino. Mas não é só isso. Um tumor. As palavras do médico ecoam na minha cabeça como um martelo incessante. Tumor. Câncer. E o meu bebê? E eu?" As paredes dessa casa fria e impessoal parecem apertar ao meu redor, sufocando-me. A dor de saber que meu corpo carrega tanto a promessa de uma nova vida quanto a ameaça da minha morte me rasga por dentro. O medo, a incerteza... O que faço agora? Quem está ao meu lado? Quem pode segurar minha mão e dizer que tudo vai ficar bem? Eliton? Não. Ele está sempre ausente, sempre distante, e agora mais do que nunca percebo o quão sozinha eu realmente estou. Marcela (pensando): "Como vou contar isso a ele? Será que ele vai se importar? Ele nunca quis filhos, nunca quis se comprometer realmente comigo. Talvez o tumor seja o suficiente para ele se afastar de vez, e essa ideia me assusta mais do que deveria. Não porque ainda tenha esperanças de que ele me ame, mas porque, nesse momento, eu preciso de alguém. Alguém para segurar essa dor comigo. Mas sei que ele não será essa pessoa." Lembro-me das palavras do médico: "Dependendo do estágio, pode ser necessário tomar decisões difíceis sobre a gravidez." Como ele pôde dizer isso com tanta calma? Como alguém consegue dizer que pode haver uma escolha entre a própria vida e a vida que está crescendo dentro de mim? Marcela (pensando): "Eu já o amo. Já sinto essa conexão com meu bebê. Como posso pensar em tirá-lo de mim? Mesmo que isso signifique me sacrificar... Eu sou a única pessoa que esse bebê tem no mundo. Como posso ser forte o suficiente para escolher entre mim e ele?" Levanto-me, caminhando até o espelho do corredor. O reflexo que me encara é de uma mulher cansada, abatida, mas que, de alguma forma, ainda está aqui. Coloco a mão sobre minha barriga e sinto uma onda de emoção tomar conta de mim. Talvez eu não consiga controlar o que está acontecendo dentro do meu corpo, mas tenho que acreditar que ainda há uma escolha. Que ainda posso lutar. Sento-me de volta no sofá, agora encarando a lareira apagada. "Preciso ser forte," repito para mim mesma, mas a força parece uma promessa vazia no momento. Meu coração está partido, minha mente em caos. Mas, no fundo, sei que a luta que me espera vai exigir de mim mais do que já suportei antes. Eliton não está aqui. Não sei nem se deveria contar para ele. Parte de mim quer poupá-lo de mais uma "obrigação." Ele já tem tantas desculpas para não estar por perto, para não me amar. Mas, ao mesmo tempo, ele é o pai dessa criança. Ele deveria saber. Eu preciso contar, mesmo que a reação dele seja exatamente o que temo: indiferença. Naquela noite, deitei na cama, mas o sono não veio. As palavras do médico continuavam a martelar na minha cabeça. "Você terá que fazer uma biópsia. Precisamos entender a extensão do tumor." Tumor. Câncer. Morte. Todas essas palavras ecoavam no meu pensamento, mescladas com o choro silencioso que não conseguia parar. Segurei minha barriga, acariciando levemente, como se, de alguma forma, eu pudesse prometer a esse bebê que tudo ficaria bem. Mas eu mesma não acreditava nisso. Marcela (pensando): "Onde fica minha força? Como luto contra algo que não posso ver, mas que ameaça destruir tanto a mim quanto ao meu filho?" Eu me vi sozinha com esse fardo, sem saber a quem recorrer. Será que eu deveria ligar para Eliton e contar? Mas ele parece tão distante, tão alheio a tudo que acontece entre nós. Desde que nos casamos, nosso relacionamento foi apenas uma fachada. O amor que eu sonhei em ter, ele nunca teve para mim. Ao amanhecer, tomei a decisão de contar a ele, mesmo que fosse apenas para aliviar meu coração. Peguei o telefone, as mãos trêmulas, e liguei. Ele atendeu com aquela voz fria e prática de sempre. Eliton (na ligação): "Marcela? Aconteceu algo? Estou no meio de uma reunião, pode ser rápido?" Aquela frase, dita sem emoção, já me dava a resposta de como seria essa conversa. Mesmo assim, continuei. Eu: "Eliton, eu... Eu estou grávida." Houve um silêncio do outro lado da linha. Não era a reação que eu esperava, mas também não era surpresa. Ele parecia estar digerindo a informação, mas não de uma maneira positiva. Eliton: "Grávida? Como isso aconteceu? Achei que tínhamos deixado claro que filhos não faziam parte desse acordo." Minha respiração parou por um segundo. Como ele podia ser tão insensível? Eu não esperava um abraço caloroso, mas também não esperava ser tratada como se estivesse lhe causando um incômodo. Eu (tentando manter a calma): "Eliton, não é só isso. O médico também encontrou um tumor... pode ser câncer." Novamente, silêncio. A reação que veio em seguida foi ainda mais fria. Eliton: "Um tumor? Marcela, isso é sério. Vamos ter que resolver isso. Precisamos conversar sobre as opções. Não sei se é seguro continuar com essa gravidez, considerando o que está acontecendo." Eu esperava tudo menos isso. O desespero dentro de mim se transformou em raiva, mas eu me segurei. Eu: "Eliton, estamos falando do nosso filho. Você realmente acha que o melhor a fazer é simplesmente desistir? Eu vou lutar por ele, e também vou lutar por mim. Só queria que você estivesse ao meu lado." Eliton: "Eu estarei aqui, Marcela, mas precisamos ser realistas. Pense no que está em jogo." Desliguei o telefone sem dizer mais nada. A conversa me deixou ainda mais vazia, mas de alguma forma, confirmou o que eu já sabia. Estava sozinha nessa luta, como sempre estive. Não podia contar com Eliton. Agora, era eu contra o mundo. Marcela (pensando): "É isso. Estou sozinha nessa. Preciso ser forte por mim e pelo meu bebê. Mesmo que isso signifique lutar sem o apoio de quem deveria estar ao meu lado." Naquela noite, decidi que faria a biópsia e enfrentaria o que viesse, mas não desistiria. O amor que eu já sentia pelo meu filho era maior que qualquer medo. E, de alguma forma, mesmo que tudo parecesse desmoronar ao meu redor, eu encontraria uma maneira de resistir. Afinal, ele precisa de mim, e eu... preciso lutar.
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