Flor na Rachadura Letícia Os dias foram passando, e Jonas continuava vindo. Sempre no mesmo horário, ali pelo fim da tarde, quando o sol começava a se esconder atrás dos telhados tortos do morro. Ele sentava no batente da porta comigo, em silêncio, e às vezes só ficava ali. Outras, trazia café, ou um pão doce da padaria da esquina. A gente falava pouco, mas o silêncio entre nós já não era mais estranho — era cuidado. A presença dele não era leve, mas também não era incômoda. Era como o vento que passava entre os fios do varal: você sabe que está ali, sente, mas não precisa falar sobre. E, de certa forma, aquele silêncio era o que eu mais precisava. Não me cobrava, não me feria. Só me dava espaço. Um dia, ele chegou com uma flor na mão. Uma flor simples, daquelas que crescem no meio do

