Letícia Fazia frio naquela noite. Um daqueles frios que chega sem avisar, que entra pelas frestas da porta, corta a pele e parece congelar por dentro também. Eu tava encolhida no canto da varanda, com a manta preferida da minha mãe sobre os ombros, e o caderninho no colo. Mas hoje eu não escrevi nada. Só fiquei olhando pro vazio. O morro tava estranho. Silencioso demais. O tipo de silêncio que vem depois de algo que quebrou — e ainda não colou. Jonas atrasou. Era a primeira vez desde que começou a aparecer todo fim de tarde. E, por mais que eu tentasse fingir que não tava esperando, que não me importava... eu me importava. Muito. Aquela ausência dele... reacendeu fantasmas. Aquela vozinha interna que sussurra coisas cruéis: “Tá vendo? Ele também vai embora.” “Ninguém fica.” “Ning

