"Olhos Que Não Tremem"

1373 Palavras
Elara sabia que seu destino estava irremediavelmente entrelaçado àquele homem. Sua vida estava prestes a se transformar num inferno, mas para alguém que já havia vivido no próprio inferno por tantos anos, aquilo seria como dar um passeio de trenzinho. “Elowen é uma sonhadora”, pensou. Sempre fora assim. E Elara sempre se colocara na linha de frente por ela. Apanhou no lugar da irmã, mentiu por ela, e se fosse necessário, mataria também. Nunca permitiria que aquele homem sequer encostasse em um fio de cabelo de Elowen. Mesmo que ela tivesse ido embora sem se despedir, sem dar explicações... Ainda assim, Elara acreditava que devia haver um motivo. Havia de haver. Foi empurrada para dentro de um carro preto, como um saco de batatas. Não disse uma palavra. O homem que a arrastava não estava para brincadeiras. Ela o sentia, ele cheirava a sangue. E aquele cheiro não lhe era estranho. Era quase familiar. Ela também carregava esse cheiro. O homem a olhava com desdém. — Você não parece com medo de mim. Elara estava com medo. Mas jamais admitiria. — Por que eu teria medo do senhor? Não fiz nada. Ele continuou dirigindo em silêncio. Em dado momento, comentou: — Não entendo meu sobrinho. Ele podia ter o que quisesse... por que foi se engraçar com uma mulher como você? Quantos anos você tem? Elara hesitou. Sabia que ele a estava testando. — Vinte e três. O homem pensou por um instante. — Você não é daqui, não é? Ela sabia que mentir não adiantaria. Melhor dizer algo plausível. — Vim passar férias na França e acabei ficando. Nasci na Bulgária. — Hum — resmungou ele, com olhos frios, e completou com um tom gelado: — Sabe, Elowen... eu sempre sei quando alguém está mentindo pra mim. Elara sentiu um calafrio. — Você só está viva porque sinto que será a chave para encontrar Mirian. Meu sobrinho é um sonhador. O pai dele também era... e por isso está morto. Jurei diante do caixão do meu irmão que protegeria Mirian. Estou cumprindo essa promessa. Mas quem imaginaria que ele se enrabicharia por uma mulher de olhos de cores diferentes... que acha que pode me enganar? Elara suou frio. Quis pular do carro, mas ele a havia algemado. Sentia-se presa numa armadilha. — O que vai fazer comigo? Vai me matar? O homem sorriu. Um sorriso sádico. — Não vou te matar. Mas você vai desejar estar morta. Entendeu? Ela permaneceu em silêncio. Percebeu que ele se alimentava do medo. Seus olhos negros a despiam sem pudor. — Me diga uma coisa, Elowen... meu sobrinho te pagava pra chupar o p*u dele? Elara arregalou os olhos, boquiaberta. A raiva subiu como um veneno queimando as veias. Aquele homem era um desgraçado. —Ele me amava,disse elara rápido porque não sabia o que dizer. — Ah, então ele te amava? — continuou ele, com desprezo. — Se te amava tanto, por que te deixou mofando naquele povoado? Ela não respondeu. Ele bateu com força no volante, irritado. — Vamos parar com essas mentiras, sua v***a! Acho que só vou conseguir arrancar alguma coisa dessa boca quando fizer umas mudanças nesse rostinho bonito. Elara quis gritar. Quis cuspir na cara dele. Quis dizer que Mirian o odiava. Mas se calou. Seria inútil. Foram cinco horas de viagem. Cinco horas com um psicopata à sua frente. A estrada era estreita, serpenteada entre montanhas cobertas de neve. O tempo parecia ter parado. O carro preto seguia em ritmo lento, como se o próprio mundo tivesse congelado. Quando os portões de ferro se abriram, Elara perdeu o fôlego, não por admiração, mas por pavor. A mansão de Evander parecia esculpida no gelo. Moderna, feita de concreto escuro, vidro espesso e metal. Fria. Sem vida. O branco da neve refletia na fachada, mas não havia calor ali. Nem sequer no ar. O terreno era vasto. Pinheiros altos vigiavam como sentinelas. Homens vestidos de preto patrulhavam em silêncio. Alguns armados, outros apenas observando. Ninguém sorria. Ninguém falava. Elara entendeu imediatamente: ninguém estava ali por vontade própria. Serviam por medo. Por submissão. Dentro da casa, a sensação piorou. O silêncio era sufocante. Pisos impecáveis refletiam a luz fria. Quadros modernos, sem emoção, cobriam as paredes. Mármore, aço, vidro. Nenhum vestígio de humanidade. Aquilo não era um lar. Era uma prisão disfarçada de palácio. E ela era a nova prisioneira. Evander a puxou do carro como se fosse um animal. Arrastou-a pelos corredores. Os empregados olhavam com indiferença. Como se já estivessem acostumados com aquele tipo de cena. "Bando de filhos da p**a", pensou Elara. Ele a levou até uma ala isolada, semelhante a um depósito. Guardas por todos os lados. Abriu uma porta e a atirou sobre uma cama suja. O quarto tinha apenas a cama e uma privada. — Você vai ficar aqui por enquanto. Elara permaneceu calada. Para ela, aquilo era tratamento de luxo. Já passou por piores. Quando ele finalmente tirou as algemas e a deixou sozinha, sentou-se na cama. Pela primeira vez sentiu vontade de chorar. Mas o mais importante era que Elowen estava segura. Isso era o que importava. Ela precisava fugir. Como sempre fez. Estava com fome. Não comera nada desde cedo. Não sabia quanto tempo havia passado até que alguém empurrou uma bandeja com pão velho e um copo de leite. Ela riu, amarga. — Sério que vão me alimentar com isso? Mas comeu. A fome era tanta que comeria até pedra. A noite foi um tormento. Frio insuportável. Nenhuma coberta. Estava com uma calça fina e uma blusa leve. Ao amanhecer, cheia de dores, bateu na porta. — E aí? Cadê minha comida? Vão me matar de fome agora? Depois de um tempo, entregaram-lhe mais pão velho e leite. Ela comeu em silêncio. Esperou. Horas depois, um homem abriu a porta. — Levanta. O chefe mandou te levar até ele. Ela hesitou. — o chefe disse Se não for por bem, posso quebrar suas pernas e te arrastar — disse o homem, com naturalidade. Elara sabia que ele cumpriria a ameaça. Então foi. Os guardas a olhavam, alguns fazendo gestos obscenos. Ela ignorou. Seguiram até uma casa afastada da propriedade. Parecia uma cabana de campo. Lá dentro, Evander estava em pé, sorrindo. Havia um homem amarrado, com um saco na cabeça. — Chegou nossa convidada — anunciou. Tirou o saco da cabeça do homem. Ele olhou para Elara, desesperado. — Senhorita Elowen... me ajude! Elara congelou. Quem era aquele homem? Evander observava com desprezo. — Elowen... ele me disse que você e meu sobrinho se casaram. Isso é verdade? Elara sentiu o sangue gelar. Casamento? Elowen se casou? Pensou sozinha. Ela ficou muda. — Então, ele está mentindo? — E-eu... — gaguejou Elara. — Esse homem trabalhava pra mim. Tinha minha confiança. Mas me roubou. Pegou meu dinheiro e deu pra uma v***a. Isso é demais, não acha? Ela caiu para trás, em choque. Ele vai me matar. — Senhor, eu não sei do que está falando... — Ah, não sabe? — Virou-se para o homem. — Lúcios, ela diz que não te conhece. — Eu falei a verdade, por favor, senhor... — implorava o homem. Evander o encarou. — Me roubou. Mentiu. E ainda cobiçou essa mulher. Mas vejo nos olhos dela que não te conhece. Interessante, não? Lúcios tremia. Elara também. Evander puxou uma arma. O brilho metálico refletiu a luz da manhã. Apontou para Elara. Ela suspirou, mas não demonstrou medo. De repente, abaixou a arma e atirou contra a cabeça do homem. Um tiro seco. Sangue espirrou no rosto de Elara. Ela caiu no chão, paralisada. Evander se aproximou, tirou um lenço do bolso e limpou o rosto dela com calma. — Sabe, Elowen... eu percebi que esse homem mentia. Quis te mostrar o que acontece com quem tenta me enganar. Então espero, sinceramente, que você me diga onde está Mirian. Elara ergueu os olhos heterocrômicos e, com firmeza, respondeu: — Se você espera que eu diga onde está Mirian, pode usar essa arma agora mesmo e me matar aqui... porque eu não sei. E foi ali, naquele instante, que Elara decidiu: jamais abaixaria a cabeça. Se a morte a esperava, ela a abraçaria de frente.
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