17-43 Dean

2560 Palavras
Que clima tenso, não é? Quando se é criança, a vida parece passar mais devagar. Quando crescemos vemos nossos dias se misturando, e passando tão rápido que um mês passa a parecer uma semana. Tudo o que queremos é tomar um jeito na vida, mas quanto mais os dias vão passando mais as coisas vão piorando e tudo o que você ouve de si mesmo é “eu preciso melhorar”, mas essa melhora nunca vem. Você acorda e quando percebe já está dormindo, se apaixona por alguém e a perde antes mesmo de viver algo com ela. Então a transforma em lembranças e desejos, anseios por algo que talvez nunca venha. Curvado sobre a mesa da escola, mantenho a minha cabeça apoiada na mão enquanto rabisco alguma coisa na mesa. A professora deve estar falando alguma coisa, mas não dou muita atenção, nunca dei. Meus últimos tem sido apenas reflexão, pensar até dormir e fazer todas minhas atividades diárias pensando e depois ir dormir mais um pouco. Da escola para casa, de casa para a escola. Como se não houvessem coisas pendentes para resolver. — Dean!? — A voz feminina da professora me chama e só então percebo que ela está me chamando faz um tempo. Olho em volta e não vejo ninguém na sala, só eu viajando na maionese e ela que estava guardando as coisas dela. — Onde está todo mundo? — Questionei acordando para a vida. — Dean… — Ela me encara como se estivesse preocupada. — Hoje teria apenas um tempo de aula, o restante seria apenas evento na quadra. Hoje é dia do desafio, falamos disso a semana inteira. Está tudo bem? Mexo no cabelo tentando recordar do que ela está dizendo mas falhou miseravelmente, parece que uma memória entra e outra sai imediatamente. — Sim, só não lembrava que seria hoje. — Menti. — Você pode deixar esse projetor na biblioteca para mim enquanto vai para a quadra? Todos vão ter que ir para lá. Claro, os professores pedindo ajuda para carregar as coisas. Não que eu me incomode, está tudo bem. Mas hoje está me irritando. — Posso, sem problemas. — Obrigada, Dean. Levantei caminhando até à mesa dela, pego o projetor na mão e já estava caminhando para fora da sala. Eu iria apenas deixar a p***a do projetor e voltar para a sala se não trancassem a porta quando tem esses eventos, senão todos os alunos iriam querer ficar de bobeira na sala de aula e não iriam participar. — Ah, não tem ninguém na biblioteca. Todos foram embora e vão fechá-la mais cedo por causa do evento, então só deixe lá onde geralmente fica. Depois aviso a supervisora. — A professora avisou antes que eu saísse é apenas assenti voltando a ir para aquela p***a. Caminhei por aqueles corredores, já estava ouvindo os murmurinhos na quadra distantes e já estava pronto para ficar de bobeira em qualquer canto da escola já que trancariam a porta. Abro a porta da biblioteca deixando o corredor vazio e caminho até os armários onde deixam os projetores guardados. Escola pública simples é assim, deixam coisas além de livros na biblioteca. Quando ando um pouco mais, meu corpo paralisa e não pelo susto, mas por algo a mais, algo que não sei explicar. Seria desejo? Amor? Atração? Eu não saberia especificar em uma palavra só, há muitas para designar. Simplemente vejo a Ruby de frente a uma daquelas prateleiras de livros, olha fixamente para alguns dos livros e folheia um ou outro. Não notou a minha presença ainda. Travo a mandíbula, não parece ser uma garota no meu caminho, parece ser um lago de jacarés selvagens. Por que tamo tanto? Ela me intimida ou eu que estou a evitando? Meio óbvio a resposta depois dos últimos acontecimentos. Tudo ficou estranho, a sensação de despedida dói muito e machuca um coração como uma pancada com martelo. Principalmente aquela despedida com vontade de ficar, um tchau com voz de “me beija”, um adeus com tom de “eu te amo”. Aperto os olhos com força por meio segundo e então caminho rápido até o armário, passo por ela como um vento gelado. Então sinto que ela notou a minha presença. Tento abrir a porta do armário o mais rápido possível querendo sair dali, mas parece que só por meu azar ela emperra e não quer abrir. Tento incansavelmente abrir, mas quando perdi a paciência bati meu punho fechado com força contra o metal e não sinto nada. — Essa não abre. — A voz dela ecoa pelos meus ouvidos e ouço os passos dela se aproximarem de mim. Fecho os olhos com força ouvindo uma outra porta do armário abrir, ela pegar o projetor da minha mão e segundos depois a porta fechar novamente. — Tudo bem? — Ela questiona com aquela voz e isso me irrita, não porque ela seja irritante, mas porque mexe comigo. — Vou nessa. — O meu tom de voz soou baixo, tão baixo que m*l dava para até eu mesmo escutar. — Dean! — Com o meu nome a voz saiu autoritária, preocupada e com repreensão. — Volta aqui… — E depois como um pedido simples, singelo, educado e gentil. Virei meu corpo para ela, encaro o chão com o rosto virado para o lado só para não encará-la. Mas só a sensação de saber que ela está aqui na minha frente e agora me deixa trêmulo, a imaginação querendo fluir e eu a segurando para que se comporte. Ruby segura meu queixo com a mão sutilmente e vira o meu rosto para ela, me obrigando a encará-la. A encaro sem conseguir exibir expressão alguma, ao mesmo tempo que sinto meu corpo relaxando com o seu toque, com as suas mãos macias e delicadas. — Você sabe que ainda precisamos conversar, não sabe? — Ela perguntou com o tom de voz de quem realmente se importava e isso embrulha o meu estômago. — Temos? Sobre o que? — A encaro fixamente e sinto o quanto exalo descaso e falta de importância, mas não sinto isso de verdade, é só a energia que transmito pelo desânimo. — Dean… — Ruby me encara como se dissesse que eu sei muito bem a resposta. — Está tudo tranquilo, Ruby. — Entorto os lábios tentando passar sinceridade apesar de não estar passando nada. Ruby me encara, um olho e depois o outro. E essa troca de olhares, essa maldita troca de olhares que foi como tudo começou, aquele início, os erros cometidos, os desentendimentos e olhares indecifráveis. A dúvida de que existia desejo ou não, se era tudo coisa da nossa cabeça. A dor do fim de algo que sequer ganhou uma chance de dá certo. — Você não é essa garota que acreditei que fosse. Agora eu vejo você e só consigo... não consigo ver você da mesma forma que via antes. — O meu tom de voz continha mais dor do que a que eu estava sentindo, porém eu era bom em conseguir fingir não sentir. Estava quase imperceptível. — É sério, Dean? Porque você me viu naquele lugar? — Há dois anos atrás, você era diferente. Era uma vagabunda que m*l ia a escola, dava para qualquer um e só vivia em festas com homens que acabava de conhecer. Você não era como... Como agora. As lágrimas começaram a descer automaticamente como se o seu corpo soubesse apenas produzí-las e expulsá-las. O modo como eu falava a machucava, eu sentia, ela mesma fala assim de si mesma, mas quando se é uma pessoa que a gente ama, dói muito. Também me dói pensar assim, que ela é uma vagabunda que não vale a pena. — Não era bem assim, De... — Ouvi histórias sobre você… — Murmurei entre as palavras dela a interrompendo. — Você, aqueles homens que vi naquela merda de boate… merda! — Não me controlei e saí chutando tudo. — Está querendo dizer que transei com aqueles homens por dinheiro? — Questionou tentando elevar a voz, mas não conseguia muito. — E não foi? Você era mesmo virgem? — Ironizei fazendo seu corpo ferver de raiva, ela estava tremendo muito. Quando me vi já estava vendo ela partir para cima de mim, me acertando vários golpes no peito enquanto chorava feito uma criança. — Você acha mesmo que eu menti para você? — Choramingou caindo de joelhos no chão. — É claro que ele não acreditaria em mim. — Riu falso com a intenção de ironizar. — Existe uma grande diferença entre ser uma vagabunda, e ter fama de vagabunda, Dean. — Você não merece ser amada, Ruby. O que você queria comigo? Você nunca namorou com nenhum cara, não é? O que ia fazer, hum? Me dar até cansar de mim e depois ir atrás de outro? — Eu precisava falar, não conseguia mais controlar. Precisava colocar essas palavras para fora, não acreditava nelas mas precisava vomitá-las para fora. — Por isso que foi tão fácil t*****r com você, não é? Uma garota tímida, nerd e na dela como eu achei que você fosse, jamais daria a virgindade dela para qualquer um como você fez. — Você não é qualquer um! — Elevou o tom de voz. — Eu transei com você porque gosto de você, seu i****a! — Ela bate em meu peito me fazendo tombar para trás. Meu corpo estremece com a confissão e com o toque. Transou comigo porque gosta de mim. Só consigo encará-la com o olhar cheio de raiva, nem eu mesmo me reconheço mais. — Fala isso para todos os caras que quer dar sua b****a? — É automático, não consigo controlar. Ela também não consegue controlar. Me acerta um tapa no rosto e vários golpes, bate em meus ombros fazendo com que eu caminhe para trás até encostar na parede. A seguro e balanço seu corpo como se estivesse tentando fazer com que ela caísse em si. Acho que funcionou, porque ela me encara com seus malditos olhos. O olhar dela como sempre me hipnotiza por alguma droga de motivo que eu não sei, e quando eu percebo já estou ansiando tocar nela. Continua me encarando, sem nenhuma expressão como sempre. Porém, agora tudo nela exala frieza e sinto como ela me toca e olha com repulsa. — Achei que tivesse encontrado uma garota valiosa. Você destrói tudo o que toca, Ruby. Não vale nem um único porcento do que acreditei que valia. — Minha voz vai soando friamente. Continuo a encarando com seu rosto próximo ao meu, minhas mãos seguraram seus pulsos com força enquanto devolvo seus golpes com palavras dolorosas. — Eu não sou valiosa? Por que não sou valiosa? — Começou então a falar batendo o indicador no meu peito. — Foi você quem idealizou essa imagem minha, nunca quis saber do que era verdade e sim acreditava no que queria. Você alguma vez perguntou se eu tive um namorado alguma vez? Ou se eu já toquei em algum cara? Não! Você apenas idealizou algo que eu não era, e agora está com raiva porque cometo erros como uma garota normal. Ela falava com a voz calma me confundindo por não estar gritando. — Todas essas histórias que você diz ter ouvido, foram as merdas que as pessoas da minha antiga escola inventaram sobre mim. Me odiavam porque eu não tinha a mesma condição financeira que eles, para o seu governo, eu sofri bullying. — Fez sua confissão enquanto eu a encarava sem saber o que dizer. — Seu i****a! — Gritou comigo. — Como você foi parar naquele lugar? — Meu tom de voz saiu mais arrependido, de quem se acalmou com uso de força. — Meu padrasto era a p***a de um viciado em drogas, igual você. — Ironizou me fazendo a fuzilar com os olhos. — Eu não sou viciado. — Isso não vem ao caso agora. Quem passou a mandar em tudo foi ele, batia na minha mãe, controlava o dinheiro dela e queria controlar até a mim. Me expulsaram de casa e eu não tinha para onde ir. — Ruby… — Murmurei caindo em si, sem saber qual seria a reação ideal. — Eu. Não. Sou. Prostituta. — Brigou sozinha me fazendo a encarar sem entender. — Você me vê assim agora, mas eu não sou prostituta. Eu trabalhava lá como garçonete. Trabalhava. — Daquele jeito? Vestida como uma vagabunda e sendo leiloada, quem pagasse mais comia. — Ironizo sentindo meu rosto queimar só de lembrar. — Não fala assim comigo! — Ela grita comigo. — Eu era virgem sim, seu i****a. Você não sabe da minha história e nem pelo que eu passei. Sabe a verdade, Dean? — Caminhou até mim empinando o nariz e me encarando no fundo dos meus olhos. — Eu sou muito mulher para você, e você é só um moleque. Mimado e que quer ser rebelde. Você não sabe o que é fazer qualquer coisa por dinheiro, não sabe o que é não ter para onde ir para dormir. Respiro pesado, absorvendo tudo o que ela diz. Cerro os punhos, não porque eu queira bater nela, eu jamais faria isso. Mas aperto as mãos bem fortes para descontar as minhas emoções, para não enlouquecer e explodir. Meu estômago vai revirando a cada palavra, meu rosto esquentando de ódio, repulsa, raiva. — Você é só um filhinho da mamãe, quer ser homenzinho mas sempre tem os braços da mamãe para correr quando as coisas não saem como planejado, não é? — Ela fala baixo, devagar, e isso vai impregnando na cabeça. — Cala. A. Boca. — Murmuro. — Eu sou muito mulher para você, sem mim você não é nada. — Ela murmura me encarando fixamente quase em um inaudível. Começo a caminhar de um lado para o outro, fazendo técnica de respiração, encarando o chão e sentindo meu mundo girar. Tento não olhar para frente porque é perigoso. — Você se sentiu mais homem quando eu apareci, não foi? Confessa. — Ela continuava. — Senão fosse por mim você também estaria morto, não é? — Como é? Do que está falando. — Paro para encará-la. — A sua dívida com o Jason, eu me comprometi a pagar. Ele esqueceu de contar? Mas as lendas de que eu sou uma vagabunda que mente virgindade ele não esqueceu de contar, não é? — Riu irônica. — Sabe o que me dá raiva? Eu a encaro, sem reação. E de repente a dor parece aumentar, mas agora é o arrependimento. A ideia de que você ganhou alguém que faria qualquer coisa por você e a deixou deslizar entre os dedos igual sabão. — Só aumentou a minha dívida com a dona daquela boate, eu tenho uma dívida enorme com ela por causa de todo o dinheiro emprestado que já pedi a ela. Eu estava lá obrigada por causa das dívidas, aumentei quase o dobro delas por você, e então você vem até mim dizer tudo o que acabou de dizer. — Ela balançou a cabeça com o olhar neutro enquanto nos olhávamos, mas eu não conseguia esboçar nenhuma reação. — Ruby… — Sussurro seu nome como se fosse adiantar de alguma coisa, processando em câmera lenta e preso nos meus próprios pensamentos. — Eu vou nessa. — Ela saiu caminhando até à porta.
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