As coisas não precisam ser tão bem resolvidas, não precisa ter medo do que está por vir, as vezes você quer muito seguir por um caminho e quando menos percebe está seguindo por outra direção, e está tudo bem.
Há mudanças de planos que fazem com que as coisas nas nossas vidas melhorem, você só precisa se permitir mudar.
Não há porquê temer, o medo não nos impede de absolutamente nada, quem nos impede somos nós mesmos. Você quem escolhe, ir ou não ir. Se ficar é um covarde, se for é um maluco.
Entre um e outro, decidi ser maluco.
Pode ser que daqui há algum tempo eu nem ouça mais falar da Ruby, e talvez tenhamos um corte de laços muito doloroso. Pode ser também que um dia nunca nem nos veremos mais, mas isso não importa, para mim o que importa é o agora.
E se ela luta por mim, eu luto por ela.
Podemos ser somente um sopro no meio do furacão, um mísero respingo no meio da tempestade, mas se dermos a importância necessária, isso valerá muito mais do que um mísero detalhe.
Queria ter a noção do que ela sente, saber no que pensa, agir mais como ela. Aquela garota é tão incrível, é difícil encontrar pessoas assim. O que me faz questionar se há mesmo pessoas ruins, mas esse questionamento não dura muito tempo, óbvio. Não vivemos em um conto de fadas, muito menos em um romance clichê milimetricamente planejado. Trabalhamos com o improviso, e o improviso nos faz sermos únicos.
Comecei com 12 anos, já tinha a mente fraca. Desde criança eu queria me sentir adulto, queria andar sozinho e me sentir livre. Conheci a Ava, comecei a trabalhar com o Jason e a minha vida foi indo só ladeira para baixo.
Quando se é jovem você sonha em viver coisas inimagináveis, coisas legalmente erradas, acha maneiro coisas bizarras, e quando você finalmente realiza esses sonhos estranhos, só sente o vazio. Então fica correndo atrás de mais e de mais, tentando loucamente preencher um vazio no qual você nem sequer sabe ao certo o motivo dele estar ali mas só sabe que sente.
Não tinha motivos específicos para terminar com a Ava, e nem para deixar o Jason de lado. Eu só senti que precisa deixar eles, e ir embora. Parecia que de alguma forma eu estava me preparando para conhecer a Ruby, e foi incrível, foi o momento certo na hora errada mas nunca deixou de ser incrível.
Por isso escolhi ser maluco agora, já estamos todos ferrados mesmo.
Caminhei na ponta dos pés pelo corredor para que a minha mãe não notasse que eu estava saindo de casa, era tarde da noite e ela já estava na cama há muito tempo.
Com cuidado saí pela porta, a tranquei com a minha chave e saí andando por aquelas ruas.
Com uma das mãos enfiadas no bolso da jaqueta, fumo um cigarro branco com a outra mão livre.
Não consigo parar de pensar na Ruby, andando por essas ruas vizinhas à minha casa só consigo lembrar dela. Da nossa noite perfeita. Eu faria qualquer coisa para ser bom o bastante para ela.
Subo os degraus irregulares daquele lugar que já cansei de subir diversas vezes, olho em volta vendo algumas pessoas descerem e outras se agarrarem encostadas nas paredes, de longe ouço músicas de funk ecoar pela região toda.
Apresso os passos subindo alguns correndo, eu cairia se não conhecesse tão bem cada centímetro desse lugar.
Quando chego na rua que está acontecendo a festinha desse pessoal olho em volta procurando por quem eu quero encontrar, os rostos aqui são bem conhecidos mas nenhum deles me interessam.
— Ei, o que está fazendo aqui? — Uma voz feminina grita na minha orelha para que eu ouça acima da música e puxa o meu braço me fazendo encostar nela. Ava.
Calma, não foi ela que vim procurar.
— Onde está o Jason? — Questionei firme a olhando somente nos olhos.
— Ah… — Abriu a boca para responder aparentando estar pensando. — Vem, te levo até ele.
Assenti e ela me puxou pela mão andando entre as pessoas e subindo mais um pouco por alguns degraus.
Os degraus que ela me puxa para subirmos não me é estranho, é onde o Jason gostava de ficar. Fica no telhado de uma das casas e dá para ver as luzes da cidade, da parte favorecida da cidade e não uma periferia como essa.
— Espera um pouco. — A voz doce dela pediu e então ela subiu. Depois de uns segundos voltou novamente. — Vem.
Subimos juntos e pude ver o Jason em pé na beira do telhado olhando para a parte urbana da cidade mesmo, o frio gelava tudo e chegava a arrepiar por ser uma parte bem mais alta.
— Jason, ele está aqui. — A Ava avisou, provavelmente pela segunda vez. Mas ele não olhou para trás para me olhar.
— Não vai olhar nos meus olhos, meu amigo? — Questionei com o tom de voz cheio de saudade, abrindo os braços na espera de um abraço.
Jason finalmente virou para mim, comprimiu os lábios e começou a andar até mim vindo ao meu encontro. Cerro o punho com todo o ódio que sinto e o acerto contra o seu rosto ouvindo o grunhido de dor dele, o som do soco, o grito da Ava e o som dos pés dele arrastando enquanto caminha para trás com a mão no rosto.
— Filho da p**a! — Grito com ele tentando correr para cima dele mas sinto as mãos da Ava me segurarem, não há força suficiente para me segurar mas deixo que me limite.
— Dean… mas que p***a… qual o teu problema, cara? — A Ava se posiciona na minha frente empurrando o meu peito para trás me afastando do protegido dela.
Vejo atrás dela o Jason se firmar no chão novamente enquanto me encara com a expressão neutra limpando o sangue que escorre do nariz.
— Isso foi por causa dela? — Ele questionou ainda me encarando se referindo a Ruby, levantando um pouco os braços com as palmas das mãos para cima.
— Não se faz de i****a, você não é um santo.
— Você está mesmo de quatro por aquela prostituta barata? — Ele a chamou assim só para me irritar, ele nem sequer fala assim.
— Não somos muito diferentes, eu fico de quatro por prostitutas e você por a namorada alheia. — Ergui as sobrancelhas mandando a minha indireta.
— Não sei do que está falando. — Ele sorriu dando de ombros. — Mas eu colocaria a sua namorada de quatro com o maior prazer. — Piscou com um sorriso de canto e meu estômago revira só com a possibilidade.
— Seu merda! — Impulsiono meu corpo para frente me soltando dos braços da Ava e me jogando sobre ele acertando vários socos no rosto dele, o frio até passou.
— Dean! Para! — A Ava grita atrás de mim tentando segurar os meus braços e me puxar para longe dele. Pela segunda vez eu deixo, respirando fundo tentando parar de cair nas provocações dele.
— Você bate feito uma mulherzinha. — Disse ele rindo fraco sentando no chão e limpando o sangue do rosto.
— Jason, para! — A Ava o repreendeu. — E você também. — Apontou o indicador para o meu rosto.
— Qual foi, irmão? Eu não fiz nada contra aquela garota. — O Jason começou a falar, parecia que não levava a minha raiva e os meus surtos para o coração.
— Só me levou até lá para que eu visse aquela cena sem nenhum contexto, não é? Só porque é meu amigo, só por isso, tenho certeza. — Ironizei.
— A dona daquele lugar é a minha mãe. — Ele revelou me fazendo encarar ele, essa parte ele nunca tinha falado. — Não foi por maldade minha, eu juro. Era só porque a minha mãe queria castigar ela, eu não ia ganhar nada com isso.
— E você sabia desde o início que ela era a minha namorada?
— É, minha mãe e eu somos sócios, eu administro um negócio e ela outro. A garota é importante para ela, pelo menos era, ela foi embora. — Jason levantou do chão sacudindo a poeira do corpo.
— É, eu já sabia. — Murmurei comigo mesmo.
Coço a nuca caminhando de um lado para o outro tentando decifrar se o que ele diz é confiável, se está tudo certo. O que há de errado, qual peça não encaixa.
— Você acrescentou a minha dívida com a que ela devia para a sua mãe, seu desgraçado. Devia ter falado comigo antes.
— Foi ela quem fez isso, está bem? Eu não fiz nada, eu nem sequer estava aqui quando ela fez esse negócio. Ela fez esse acordo com o Pedro. — Ele se defendeu.
— Como se o i****a do Pedro mandasse em alguma coisa aqui, como se você não pudesse desfazer essa merda.
— Olha, Dean. Vamos para casa, para longe desse barulho de música e para longe desse frio. Também preciso colocar gelo na minha cara quebrada que você deixou, então a gente conversa, tudo bem? Não estou nem sentindo dor com esse gelo que está aqui.