Deixo um beijo simplório nos lábios de Dean e volto a apoiar a cabeça no braço dele e olhar nos seus olhos.
O sol já fraco pela hora entra pela janela e deixa a sala em uma meia-luz fraca, mas bonita.
— Eu não quero mais sair daqui. — Dean comenta com os olhos fechados meio sonolento, aparentemente realmente quase dormindo.
Mexo em seus cabelos amendoados, lisos e macios sentindo o cheiro bom dele chegar até o meu olfato.
— Eu sei. — Minha voz saiu baixa por estar em silêncio há tempo enquanto estava deitada. — Mas precisamos nos vestir, está quase dando a hora de ir embora e virem guardar os equipamentos que levaram.
Levantei meu tronco e me arrastando até firmar os pés no chão, ouvindo um resmungo do Dean ao meu lado. Olho para trás e o vejo esfregar o rosto com as mãos, o que me faz rir.
Giro meu olhar pelo cômodo, caminho até uma das cadeiras e recolho minha camisa. Ando um pouco a procura da minha calcinha, olhando por toda parte e não encontrando.
— Oh, Dean. Onde você colocou a minha calcinha?
— Ah, eu não sei. — Franziu o rosto sem dá muita atenção e fechou a calça normalmente indo vestir a camisa.
Esfrego a nuca girando o olhar pelo cômodo e então o encaro novamente que me olha com as sobrancelhas franzidas.
Enfio a mão por dentro do seu bolso e ele desvia o olhar para o teto comprimindo os lábios.
— Engraçadinho. — Ri sem humor puxando o tecido da minha peça íntima do bolso dele, irônico.
— Devo ter esquecido. — Dean deu de ombros.
— Sei bem. — Me viro novamente e visto minha camisa de uniforme que eu havia recolhido.
— Qual o seu problema com sutiã? Por que não usa? — Ele questionou com um tom de voz de repreensão me fazendo encará-lo com as sobrancelhas erguidas.
— É sério? Agora que já esvaziou o saco você quer puxar briga?
Dean me respondeu apenas com um olhar de indiferença e sentou na cadeira ao lado da mesa.
E então aquele silêncio veio, aquele silêncio talvez fosse pelo tédio. Cocei a nuca algumas vezes e sentei em uma das cadeiras também, e olhando pela janela eu via o sol já indo embora e o dia acabando.
Daqui a alguns minutos, talvez menos de uma hora chegariam aqui e finalmente estaríamos libertos.
— Se você não está mais naquela maldita boate, então onde está? — Ouço a voz de Dean de repente me questionar.
— Da Línea. — Engoli em seco antes de responder, e até mesmo o olhei para soar com mais certeza.
Ficamos nos olhando por algum tempo e então Dean apenas balançou a cabeça e aceitou a resposta.
— Está tudo bem? — Fez outro questionamento.
— Está. Na sua está? Ou teve outra recaída e se entupiu de drogas e álcool?
Dean curvou os lábios e me encarou de relance com uma expressão enigmática, acredito que só fosse uma expressão que dissesse “é sério isso?”.
Então escutamos conversas no corredor e a porta sendo destrancada, nos entreolhamos e nos arrumamos bem sentados na cadeira esperando a porta abrir.
Quando finalmente aquela porta foi destrancada vimos dois funcionários da escola nos olharem confusos, Dean e eu levantamos a mão como um comprimento sorrindo sem mostrar os dentes e os dois continuaram nos olhando confusos.
— Dois incompetentes nos trancaram aqui dentro. — Dei de ombros levantando finalmente da cadeira e podendo ir embora sendo seguida por o Dean.
— Mas foram nós que trancamos a porta. — A mulher responsável por a biblioteca falou.
Dean tapou os lábios com o punho fechado e abafou uma risada, o olhei incrédula mas já estava segurando a risada também.
Pior do que ficar trancada na biblioteca com o Dean, o que não foi nenhum sacrifício, foi falar que a mulher da biblioteca é incompetente indiretamente
— Vocês ficaram aqui a tarde inteira? — O rapaz que estava com ela perguntou curioso enquanto ela ia guardar as coisas no armário.
— É, ficamos. — Dean respondeu.
— Fazendo o que? — O rapaz ergueu uma sobrancelha nos olhando de cima a baixo.
Dean e eu nos olhamos sorrindo com os olhos, e eu sei o que ele está pensando, e ele sabe o que eu estou pensando.
— Xadrez. — Gesticulei com a cabeça para o tabuleiro e as peças bagunçadas em uma das mesas.
— Hum… — O rapaz balançou a cabeça e não deu para notar se havia engolido a resposta.
— Vamos nessa, Dean. Ainda preciso pegar o ônibus. — Arregalei os olhos para ele.
— Sim, claro. Também preciso pegar um ônibus, eu não moro na rua vizinha. — Ironizou. Fingido. Então saiu correndo entre os passos para fora da biblioteca e eu fui atrás.
— Ei, espera! — Um grito masculino foi escutado por nós enquanto caminhávamos em passos apressados até à sala.
Quando viramos e entramos no corredor onde geralmente está sempre vazio começamos a rir.
— O que será que ele pensou? — Fiz uma pergunta retórica enquanto a respiração estava levemente acelerada.
— Também queria saber, por que diabos ele perguntou o que ficamos fazendo. — Dean passou as mãos pelos cabelos enfiando os dedos por dentro e os penteando para trás, mas algumas mechas rebeldes voltaram e caíram sobre a testa dele.
Eu quero que ele seja meu.
Quero que quando eu precise fugir mais uma vez, ele venha comigo. Quero voltar para casa fazendo o mesmo trajeto que ele. Quero que o eterno seja nosso.
— O sinal vai bater daqui alguns minutos, Ruby. — Dean avisou.
— Eu sei. — Assenti balançando a cabeça positivamente.
Caminhei até ele empurrando seu peito contra a parede e encostando nossos narizes um no outro ao ponto de sentir o frescor das nossas respirações bater no rosto.
— Só 30 segundos. — Avisei.
Toquei sua boca rapidamente com a minha, nos olhamos entre a luz fraca por conta de estar quase anoitecendo. Encostei nossos lábios mais uma vez demorando alguns segundos a mais, ofego quando Dean me enrosca com mais rigidez. Quando ele aproveita melhor os segundos.
O prenso contra a parede como se tentasse fundir nossos corpos um no outro, empurrando seu rosto contra a parede com o meu, e de alguma forma sentindo mais contato.
— 30 segundos… — Ele murmurou com os olhos fechados tentando nos lembrar.
Deixo um último beijo em sua bochecha e me afasto contra a minha vontade.