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1629 Palavras
Fabrizio Cinco Anos Antes  Me olhando no espelho, encontro apenas a certeza em meus olhos. Eu amo Angelina e vou me casar com ela finalmente, depois de todos esses meses de conquista e espera.  O terno bem cortado não é minha preocupação, mas parece ser da minha mãe que pela décima vez passa as mãos, apagando qualquer mínima imperfeição que possa transparecer em minha roupa. Acho que ela está meio engasgada com a situação, emocionada por mim, por eu estar com alguém que amo quando ela não teve a mesma sorte.  Quando se ergue, encontra meus olhos e sorri, me abraçando. Passo meus braços a sua volta e a aperto, pondo todo meu sentimento ali. Ela é tudo e mais um pouco para mim.  — Mãe, venha morar comigo e Angel. Não vai ser um problema. — Murmuro contra seus cabelos que tem cheiro de casa e sinto meu coração se apertar. Verner pode fazer qualquer coisa quando eu não estiver por perto e isso me assombra. — Não, filho. Não vou atrapalhar vocês. — Está chorosa e eu a aperto.— Vocês estão se casando hoje e merecem esse tempo sozinhos. Junto as sobrancelhas, não ligando muito pra isso. Estou realmente preocupado. — Você não é um peso, sabe que não atrapalha.  Suas mãos me afastam de leve e ela limpa algumas lágrimas.  — Como se seu pai fosse deixar.  No momento em que as palavras deixam sua boca, a porta se abre e Verner passa por ela nos censurando com o olhar e nos afastamos. — Ele é a m***a de um homem, Fiorella. Sabe se virar. Não está morrendo, apenas se casando.— Ele se aproxima, um sorriso ordinário que não se desfaz quando puxa a mão de minha mãe com mais força do que necessário apenas para ver meus punhos se fecharem de raiva. — Fique calmo, filho. Sua mãe sabe o lugar dela. — Faz uma pausa, passando a língua pelos lábios antes de prosseguir. — Mas falando em saber seu lugar, acho que não tenho uma notícia boa para te dar: Enrico está dando para trás, acho que tem... O desespero me bate e eu arregalo os olhos.  — Angelina não quer? — O interrompo, alarmado e ele crispa os lábios, desgostoso. — Como eu dizia, antes da sua pouca educação lhe faltar, ele achou alguém melhor. Parece que o pai de seu amigo Luigi, gostou tanto de Angelina que decidiu que ela era melhor junto com o filho dele. — As palavras são como socos em meu estômago e minha cabeça trabalha, pensando em um jeito de não deixar acontecer. Já é a porcaria do dia do casamento, ele não pode fazer isso agora. Não pode fazer isso nunca. — O que você vai fazer a respeito?— Verner me pergunta, parece já ter a resposta para a situação e minha mãe bate em seu braço, como se o repreendesse. Ela nunca faz isso.  — O que eu posso fazer?— As palavras saem da minha boca e eu me assusto pela seriedade. Vou fazer qualquer coisa para ficar com ela. — Não dê ouvidos a seu pai, Fabrizio! Angelina vai te odiar! — O que eu posso fazer?— Repto, ignorando minha mãe porque eu não posso abrir mão de Angelina, não agora, não nunca e não quero adiar o tempo para que possamos ficar juntos. — Me diga pai!— A ordem sai da minha boca e eu apenas sinto a quentura do t**a em meu rosto.  — Não grite comigo nunca, moleque. — Suas mãos passeiam pelo próprio terno, como se não tivesse acabado de me bater e ele dá de ombros.— Escute bem, só vou dizer uma vez: Faça aquilo que você é bom.  Não precisa de mais palavras. Já sei o que fazer.  Passo apressado por meus pais, rumo a saída do quarto. Não demoro a atravessar a mansão, indo para o lado reservado a família da noiva. Enrico está em seu quarto e eu bato antes de entrar.  — Ah, é  você. Já conversei com seu pai, criança e estou indo avisar Angelina. Nosso acordo acabou. — Ele nem mesmo me olha enquanto cospe as palavras que não fazem sentido algum, que não significam nada para mim. Apenas põe o relógio em seu pulso como se eu não estivesse aqui. — Acho que o senhor deveria reconsiderar, a festa está pronta e todos estão vindo. Não pode cancelar as coisas desse jeito.— Me aproximo, falando pausadamente para que ele entenda bem.— Não é um pedido. — Soo mais ameaçador do que penso ser, soo como meu pai. Enrico ri com escárnio.  — Você ainda não dá ordens a ninguém. — E faz menção de passar por mim.  Faça o que você é bom. O agarro pelo pescoço, o arrastando de volta para o lugar que estava. Escuto o barulho de seu nariz se quebrando quando o acerto com força.  Faça o que você é bom. Seu corpo bate forte contra a parede e eu avanço, lhe socando mais uma vez. A pancada é forte o suficiente para o fazer girar os olhos, desmaiando quando acerto mais um. Enrico vai ao chão. Faça o que você é bom Subo por cima, socando sua cabeça de novo e de novo, sentindo sua carne se rasgar entre meus dedos. E ainda não é o suficiente. O segurando forte , bato sua cabeça no chão, repetidas vezes até que o sangue se espalhe pelo carpete em grande quantidade. Até que eu tenha certeza que ele não vai acordar. Faça o que você é bom Me levanto, sentindo o suor descer por minha têmpora e pego seu corpo, arrastando até o armário vazio, o deixando lá. Até alguém o encontrar, Angel já terá meu sobrenome como seu. Organizo a bagunça o máximo que posso e me limpo no banheiro, penteando meus cabelos com meus dedos antes de sair do quarto, trancando a porta. Não tem ninguém no corredor e quando volto para meu quarto, ele está vazio. Espero com paciência a hora de subir ao altar. Angelina Olho para a porta a minha frente, sentindo o coração galopar em meu peito desesperado. Escuto as pessoas conversando, escuto até mesmo os malditos pássaros cantando do lado de fora mas nada é importante e merece minha atenção. Minha mãe, meio bêbada sentada numa poltrona do outro lado do quarto, me dá diversos conselhos sobre o que eu devo fazer na minha noite de núpcias e eu prefiro ignorar. Tenho internet e já sei muito bem.  É desconfortante.  Quando a porta se abre mais uma vez, me viro esperançosa mas é só mais um soldado balançando a cabeça em negativo e sinto meus olhos arderem, pegando um lenço rapidamente para secar a lágrima antes que ela desça e estrague minha maquiagem.  Meu pai sumiu. Desapareceu como tem costume de fazer e isso não é importante, exceto pelo fato de que hoje é meu casamento e eu preciso dele mais do que nunca.  Preciso dele para ameaçar Fabrizio antes de me entregar a ele no altar. Preciso dele para dirigir o carro caso eu decida fugir mas ele não está aqui, não está em lugar nenhum. — Chame o vovô por favor. — Peço ao homem que continua parado, esperando ordens. Ele vai e em em poucos minutos o patriarca da família entra, trazendo em suas mãos uma presilha azul.  Não seguro o choro dessa vez e o abraço, enquanto ele xinga meu pai em seu italiano esquisito de gente velha. Um pouco mais aliviada por ter alguém para entrar comigo, me viro pegando o objeto e ponho no meio do penteado, suspirando uma última vez. — Estou pronta. Quando as portas se abrem, meus olhos vagam até o homem bonito parado no altar. Mesmo a distância sei que ele sente tudo o que estou sentindo também. Lembro dos beijos, das promessas e todas as coisas que me fizeram o amar tão profundamente de forma tão rápida.  Agora, poucos meses depois, aqui estamos nós prontos para começar uma vida nova juntos com a certeza de que não vai ser fácil, que ele vai ser um homem poderoso demais em alguns anos, que eu serei tão importante quanto ele e que vão tentar de tudo para nos destruir... Mas ele é tão perfeito quando estamos juntos, mais do que diz, ele prova que me ama e eu sei que ficaremos bem para toda vida. Inabaláveis. Eu nunca achei que encontraria alguém assim, não achei que ele pudesse ser assim. Quando já estou próxima o suficiente para ver seu rosto, as duas pedras escuras em seus olhos me observam com um certo tipo de devoção. Hipnotizada, não consigo desviar meu olhar do seu, não consigo entender o que o cerimonialista diz e só volto a realidade, deixando a prisão que eu havia me trancado e aproveitado quando seus dedos longos deslizam o aro de ouro em meu dedo, prometendo o mundo para mim.  Estou quase sem palavras quando chega minha vez, mas consigo dizer de forma emocionada tudo o que sinto.  O beijo é casto mas formiga em meus lábios ansiosos por tempo demais.  Parados no altar, prontos para receber a chuva de arroz que nos aguarda na saída, um grito chama nossa atenção. Protetor, Fabrizio, meu marido, me puxa para seus braços. Mas é apenas o soldado que estava procurando meu pai, parecendo afobado enquanto vem em nossa direção.  Franzo o cenho, dando um passo para frente.  — O senhor Enrico... — As palavras parecem nunca deixar sua boca e eu sinto meu peito se apertar.— O senhor Enrico foi assassinado.  Sinto minha vista ficar embaçada, meus batimentos diminuírem e antes de cair no chão, sinto braços me segurarem. 
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