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1840 Palavras
Não consigo parar de chorar Odeio que eu te causei dor — Midnight Train, Sam Smith Fabrizio Quatro Anos Antes Atendi o rádio que fazia um barulho alto para c*****o e podia entregar minha posição a qualquer momento com pressa, me abaixando atrás de uma mesa tombada para me esconder dos tiros. — Fabri...eu Ang... preci... volt... casa....precisa de voc....— A voz que eu conhecia tão bem saia cordada demais e eu me esforcei para entender. Peguei o Walk Talk enquanto me escondia e apertei o botão começando a falar: — Angel, meu amor. — O aparelho chiava muito, mas eu continuei, sem saber se ela me entendia ou não, enquanto olhava para trás na esperança de não ser o alvo de ninguém.— Não posso ir agora, estou em um trabalho importante demais, e eu sinto muito não ter te falado nada antes mas eu vou salvar pessoas dessa vez. Eu quero muito nosso filho, fui um i****a com você. Eu te amo tanto. Quero essa vida, quero nossa família.— olhei para trás mais uma vez, me assustando com uma bala que bateu na parede de madeira pouco acima da minha cabeça. —Falo com você assim que eu conseguir, eu tenho que ir! Joguei o aparelho no chão e me virei, mirando a arma no que parecia ser uma cabeça tentando se esconder atrás de uma árvore e atirei. Mais alguns tiros e o lugar parecia silencioso novamente. Caminhei entre o mato e os homens mortos, tentando achar um dos meus mas não tinha ninguém, e eu agradeci internamente por isso. Não precisamos de mais baixas. Avisei os cabelos se fogo de Magda a frente, longe das cabanas do acampamento dos traficantes e me aproximei, cruzando os braços quando vi uma dúzia de meninas parecendo ter mais ou menos quinze anos, amontoadas juntas dentro de um buraco, cobertas por uma lona. Me virei para minha parceira e sorri, sentindo o gostinho de fazer a coisa certa correndo nas minhas veias pela primeira vez. Era bom. Eu havia conhecido Magda a seis anos, numa viagem que fiz para Espanha pela Família. Ela era uma mulher linda, estonteante, sexy e livre que definitivamente gostava de chamar atenção por onde passava e não foi diferente comigo. Tivemos longas conversas. Intensas, inteligentes e importantes. Ela apontou milhares de erros nos bordéis da família. E a pior de todas era a presença de menores que nós m*l notávamos. O grupo responsável por nos trazer e indicar garotas as sequestravam muitas vezes, de suas próprias casas. Era terrível, nojento de tantas maneiras que quis saber como poderíamos solucionar isso, mas nunca dei a atenção merecida até poucos meses atrás quando numa noite, a encontrei num bar do centro da cidade e bebemos todas juntos. Lembro-me vagamente de um soldado me pondo na cama ao lado do corpo adormecido de minha esposa no fim da noite boa. Antes de beber, obviamente falamos sobre o que era importante, e no outro dia, me afundei de cabeça para acabar com isso de uma vez por todas. m*l vi o tempo se passar enquanto rastreava os traficantes de adolescentes. E era uma distração bem vinda já que sentia que minha cabeça explodiria toda vez que olhava para Angel e lembrava do que ela carregava dentro de si. Um filho. Um bebê. Meu. Não que eu odeie crianças, só acho que devem ter pais que as querem. E eu, de jeito nenhum, nem que me dessem o mundo, queria um filho. O que eu sabia sobre paternidade além de espancar até a exaustão, como meu pai fazia comigo? Não. Eu não queria. Não era certo com a criança. Nem comigo. Mas eu também não queria perder minha mulher, o amor da minha vida. Não era certo, me fazia extremamente miserável e eu não suportava a ideia de viver assim, brigado com ela. Pensei muito nisso enquanto estava a caminho daqui. Eu iria acabar com isso, livrar ao menos uma porção de meninas e voltaria para minha casa, minha família. Tentaria ser um pai bom. Por Angel... Voltei a realidade com um gritinho animado e olhando para o lado, vi sorriso de Magda que dizia tudo. Tínhamos conseguido. Ela me abraçou, rindo para o vento enquanto pessoas da nossa equipe vinham ajudar a tirar as meninas de dentro do buraco e leva-las para um lugar seguro. — Deus! Não sei nem como ficamos pertos deles tanto tempo sem perceber. — comentei enquanto voltávamos ao nosso acampamento, andando devagar pelo capim alto. Estávamos no meio do nada com lugar nenhum, mata fechada, com o terreno muito acidentado. O único lugar que conseguimos mais facilidade para caminhar se tornou nosso abrigo. — E o melhor de tudo é que não sobrou um, matamos todos os miseráveis!— riu, lambendo os lábios como se o gostinho fosse muito bom. — Em mais alguns dias, acharemos o chefe de todos eles e vamos acabar com ele também. Franzi o cenho e raspei a garganta. O combinado era apenas esse grupo e eu queria ir logo pra casa. — Acho que vou deixar essa só pra você, tenho que voltar pra casa. Quero me resolver com Angelina. Notei os olhos dela repousarem sobre mim mas continuei andando, ignorando-a. Se fosse por ela, ficaríamos fazendo isso para sempre mas as coisas não podiam ser assim, eu tinha uma vida. — Estamos tão perto... Vai mesmo perder a cereja do bolo? — tentou, sem sucesso.Vi quando acelerou o passo, parou em frente a mim no meio da campina e pousou seus olhos que estavam mais claros pela luz forte do sol da tarde sobre mim. — O que foi? — Fique mais! Você e ela nem estão bem! Veja como você está feliz aqui comigo, Fabrizio!— abriu os braços, erguendo o peito e os s***s pularam em minha direção. Desviei o olhar para seu rosto, descrente de que aquilo estava mesmo acontecendo. — Eu prefiro ir para casa. — assegurei, passando por ela e a deixando para trás. Na mesma noite, quando me sentei num canto para descansar enquanto esperava o jantar, observei as meninas resgatadas conversando. Estavam assustadas, mas acho que logo melhorariam, voltariam para suas famílias. Mal vi quando a ruiva se sentou ao meu lado, descascando uma maçã para comer. — Viu se já arrumaram o rádio? Preciso falar com Luigi. Mais cedo me ligaram mas não dava pra falar. — puxei assunto, para que ela não pensasse que eu estava bravo. Magda negou, dando de ombros. — Sua esposa deve estar enjoada, só isso que querem te falar, tenho certeza... Já chegou no quarto mês? — Eu não faço idéia. — assumi envergonhado e voltei a olhar para frente, desconfortável de repente. — Não precisa descobrir se continuar aqui. O assunto voltou e eu a olhei de relance, crispando os lábios, odiando para onde ela queria levar a conversa. — Não, obrigada. — suspirei e a vi se levantar, parecendo brava comigo. Fui atrás, disposto a acabar com essa d***a de uma vez. Quem ela acha que é? — Cazzo Magda! — xinguei quando escorreguei, a seguindo para a escuridão no meio do mato. Seus passos se aceleraram. — Pare de me seguir e volte pra sua esposinha dondoca! Eu queria gritar com ela para parar de andar e parar de falar da minha mulher daquele jeito. Ela nem se quer a conhecia, não sabia de m***a alguma. — Qual é o seu problema? — parei de andar e no mesmo momento ela se virou. A desgraçada só iria continuar enquanto eu estivesse atrás dela. — Meu problema é que ela tem o que eu quero! — berrou, se aproximando com o dedo apontado para mim. — Eu quero você, Fabrizio. Muito. Mas você só sabe falar nela e eu odeio isso... Sua voz era apenas um sussurro quando a última palavra deixou sua boca. Ela estava próxima de mim, dos meus lábios. Pude senti-los roçarem contra os seus. Próxima até demais. Dei um passo para trás. E ela um para frente, nos deixando na mesma posição que a anterior. Deslizei as mãos por seus braços quando nossas respirações já se misturavam e segurei com força, a afastando de perto de mim: — Eu amo minha esposa e vamos ter um filho juntos. Se não pode a respeitar, se respeite um pouco. Eu não sinto nada por você. Me virei, fugindo para onde havia mais pessoas e ela não pudesse me encurralar daquele jeito. Só consegui sair de lá dois dias depois, indo para um hotel na cidadezinha mais próxima que encontrei. Assim que consegui algum sinal de telefone, centenas de mensagens de todo mundo caíram no meu celular e eu me senti o pior homem do mundo quando vi do que se tratava. Angel não me atendeu, parecia estar com o celular desligado e foi Luigi que conseguiu me explicar o que estava acontecendo. Eu morri um pouco. O arrependimento e a culpa me consumindo. Eu desejei tanto não ter esse filho nos primeiros dias... E se ele tivesse me escutado? E se esse fosse o motivo para estar morrendo agora mesmo? Meu coração estava acelerado quando entrei no avião, mas não pude decolar. Uma tempestade atrapalharia o vôo e só no outro dia, pela manhã, consegui embarcar. Cheguei na cidade durante a tarde, indo direto para o hospital. A mãe de Angel não queria me deixar entrar no quarto quando me viu, desesperado e suado por notícias. Mas eu briguei, xinguei Deus e o mundo, dizendo que era meu direito e um médico me levou até lá. Fiquei envergonhado quando abri a porta. Os olhos verdes que me encararam tinham tanta dor dentro deles que eu senti meus joelhos tremendo, querendo ceder para pedir perdão por tudo. Tirando forças de não sei onde, me aproximei. A coisinha era pequena demais e senti uma mão esmagar meu coração. Minha filha... morrendo sem nem conseguir estar completamente formada. Sem conseguir respirar... Sem nunca poder comer qualquer coisa. Sem nunca poder andar. Sem nunca poder me chamar de pai. Sem nunca poder me chamar de velho, numa onda de rebeldia durante a adolescência. Sem nunca poder ter sua própria família. Sem futuro. Minha filha nunca se quer sairá desse quarto viva. Atordoado, me sentei perto de Angel e ela se encostou em mim e eu observei a coisinha com cuidado; minha filha era extremamente linda. Queria pegá-la, queria a levar para conhecer o mundo. Queria protegê-la. — Ela apertou meu dedo. — a voz da minha esposa estava rouca. O inferno que ela passou por todos esses dias sozinha... Por que eu bati a porta na sua cara na última semana? Por que não aceitei ir no exame com ela em vez de ter fugido para o meio do mato? Eu nunca me perdoaria. Levei meu dedo até a mãozinha que segurava tão forte o dedo da mãe e senti a fragilidade em sua pele. Angel suspirou de repente. E meu coração parou. Minha filha estava imóvel. — E então soltou.
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