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2186 Palavras
Se tivéssemos só mais cinco minutos de ar — The End Of The World, Billie Eilish Angelina Quatro Anos Antes — Mãe, o que eu vou fazer? Co-como eu vou fazer? — Querida... — Como Ele fez isso comigo? Eu sempre fiz o certo, mãe. Como Deus deixou isso acontecer comigo? Eu sou uma boa pessoa. Eu sou uma boa pessoa! — Eu sei querida. — Os dedos finos e tão trêmulos quanto os meus vieram até minha bochecha, secando as lágrimas que desciam sem parar. — Eu não sei porque Ele fez isso, mas já sabemos o que você tem que fazer. Fabrizio já sabe? Neguei, sem saber como dizer a minha mãe que ele havia sumido, que não atendia minhas ligações e não respondia minhas mensagens, que não voltava mais pra casa. Que ele não queria saber do bebê e que ele era só meu desde o dia em que havia lhe contado, que o peso e o fardo da situação eram apenas meus. Me deixei cair em seu colo, sufocada pelas lágrimas, me sentindo morrer enquanto abraçava minha barriga. — Não tem jeito, mãe. Não tem jeito de eu fazer o que preciso fazer, no que eu acredito que devo fazer. — chorei, me sentindo pequena, sem nenhuma direção. Parecia que eu estava num buraco sem fundo, onde eu caía sem parar. Minha mãe me abraçou, apertou seus braços em volta de mim tentando me tranquilizar mas não tinha como, os soluços chacoalhavam meu corpo. — Você vai escolher um dia próximo, ok? Vai ir para o hospital, se organizar para induzir o parto. E você vai dar a luz ao seu lindo bebê, filha. Vai escolher um nome, vai batiza-lo lá mesmo e você vai o segurar. Vai cantar para ele, amar ele. Memorizar os detalhes do seu rosto o quanto ele viver. Vai fazer isso até Deus levar ele. Doía ouvir aquelas palavras. Doía não ter Fabrizio ali segurando minha mão e dizendo que tudo ficaria bem, que poderíamos fazer aquilo. Juntos. Mas eu estava sozinha tirando forças de um lugar que já não tinha nada, sobrevivendo. — Eu te disse que é uma menina? Vi minha própria dor nos olhos de minha mãe. Não sei quanto tempo fiquei ali, sendo acolhida e cuidada por algo que eu nunca iria ser curada. Quando voltei para casa mais tarde, encontrei o silencio absoluto de toda última semana e me sentei na cama, abrindo o laptop para fazer mais algumas pesquisas, tentar achar uma esperança que todos a minha volta insistiam em me tirar. Existiam quatro tipos de Osteogênese imperfeita, doença caracterizada fragilidade dos ossos que acabam sofrendo fraturas de repetição. Minha filha tinha o tipo II, o mais grave, o que a faria viver tão poucos minutos de forma tão dolorosa que eu não conseguia se quer imaginar. Fechei os olhos, não encontrando absolutamente nada que pudesse me ajudar e gemi, fechando os olhos quando mais uma avalanche de lágrimas veio com força. No outro dia pela manhã, me levantei cedo, me vesti e saí rumo ao lugar onde sabia que podia encontrar meu marido. Eu precisava dele e se ele não quisesse vir depois de saber era uma coisa, mas eu precisava ouvir da sua boca. Bati na porta do apartamento com força e assim que a porta se abriu, passei para dentro encontrando Luigi, melhor amigo de Fabrizio de cueca. Seu olhar era confuso, parecia estar de ressaca, meio como se tivesse acabado de acordar mas eu não liguei, invadindo o apartamento e abrindo as portas para ver se meu marido estava lá. Atrás de mim, Luigi me seguia apressado: — Angelina, mas que p***a. O que você quer? Me virei para ele, assim que abri a última porta e encontrei o quarto vazio. — Onde está meu marido, Luigi? — Quer olhar dentro do meu ... — se calou, rolou os olhos e despreocupadamente, cruzou os braços sobre o peito. — Eu não sei. E se soubesse não te falaria. Bati em seu braço. Pelo jeito que falou, eu soube que ele sabia exatamente onde Fabrizio estava. — Comece a falar logo antes que eu ache uma faca e te mate! —ameacei e seus olhos vieram em minha direção em dúvida. Eu já me sentia meio louca, não estava blefando. — Ele estava viajando, resolvendo umas coisas. Está no meio do mato, não tem como falar com ele... É complicado. Travei o maxilar, puxando o ar com força. Apostaria minha alma que ele está junto a ruiva. Só os dois, incomunicáveis e sozinhos. — Aconteceu uma coisa... Eu preciso falar com ele. Com urgência, tem certeza que de jeito nenhum, eu consigo falar com ele? — as palavras saíram exaustas. Luigi me olhou daquele jeito estranho de sempre e deu de ombros, como quem não quer nada mas vi uma pequena curiosidade brilhar em seus olhos. Suspirei.— Eu tenho que ir para uma consulta agora, você pode me acompanhar? Dispensei o soldado que estava comigo. Talvez se ele visse com os próprios olhos, arranjaria um jeito de trazer Fabrizio pra casa. De má vontade, ele foi se trocar. Chegamos ao hospital e eu esperei ser chamada, Luigi me acompanhou para dentro, se sentando na cadeira ao meu lado despojado. O médico me olhou com mais pena do que já vinha olhando e raspou a garganta: — Então Angelina, já escolheu a melhor data pra vocês? Me mexi, desconfortável. — Estou esperando meu marido voltar para casa. Ainda não consegui falar com ele. — mordi o lábio, nervosa pela careta mínima que o notei fazer. — Tem algum problema em esperar? — Bem, com o tipo II estamos lidando com peso baixo ao nascer, pulmões subdesenvolvidos, problemas para engolir, respirar. O bebê geralmente morre em algumas horas, as vezes em alguns dias. No seu caso, o bebê também corre riscos de fratura intrauterina e... — Espera, o quê? — o interrompi, em choque. Eu estava tentando me manter um pouco mais calma, mas eu não acreditava no que tinha acabado de ouvir. As coisas só pioravam e eu não sabia mais o quanto aguentaria. — Você está dizendo que os ossos do meu bebê estão se quebrando dentro da minha barriga? Está dizendo que no lugar em que ela deveria estar segura também está se machucando? — Angel...— a voz de Luigi parecia mais perto de mim mas eu ignorei, empurrando sua mão quando ela se aproximou da minha. — Ela... ela consegue sentir os ossos se partindo? quer dizer, ela consegue sentir, não é? O médico não me respondeu, apenas baixou a cabeça. Minha filha estava em sofrimento e dor extrema dentro de mim. — Mais uma vez, eu sinto muito e reforço para que você se decida logo. Senti meus olhos picarem rápidos enquanto o mundo pareceu entrar em câmera lenta ao meu redor. Saindo da sala, as coisas pareciam estar borradas e eu não conseguia entender mais nada, entender o que as pessoas falavam a minha volta, o que seus rostos diziam. Apenas quando eu já estava mais uma vez dentro do carro de Luigi, senti a consciência ser recobrada. Ele tinha pego minha mão enquanto dirigia. — Vou dar um jeito de falar com Fabrizio, ok? Não esbocei reação, não respondi. Eu só queria sumir. — Observei com atenção exagerada Luigi montar o que parecia ser um rádio sobre sua mesa. Eu não estava muito interessada, mas ficar focada em suas mãos mexendo naquilo me distraia do que estava acontecendo. O vi girar um botão, ligando o aparelho que chiou sem parar, sem sinal. Mesmo assim, levou o walk talk até a boca e começou a falar: — Corvo para aranha, corvo para aranha. Fabrizio, na escuta? E repetiu, de novo e de novo, sem parar até que eu já estivesse murcha de novo, sentada na cadeira sem esperanças de que teríamos alguma resposta. Quando dez minutos depois, eu já me levantava para ir embora, o rádio fez um barulho diferente e a voz conhecida saiu pelos autofalantes, me fazendo congelar no lugar. — Lui... O.. es... acont...ndo. Suas falas estavam cortadas demais, o sinal péssimo mas mesmo assim, me apressei, pegando o comunicador em minha mão. Era a única chance que eu tinha para falar e eu tinha que tentar. — Fabrizio, sou eu Angel. Preciso que você volte para casa, o bebê, seu filho precisa de você. Fez-se uma pausa e mais palavras entrecortadas começaram a sair mais uma vez:— Ang.. não pos... fazen... um trabal... tante... eu sin... muito... quer... nosso fil... fui... idio... amo voc...quer... essa vid... c...voc... tenho qu... ir. E então o silêncio, ele tinha desligado. Luigi tentou estabelecer conexão mais algumas vezes, sem resposta e quando percebi que não tinha mais jeito, me levantei passando a bolsa pelo ombro, pronta para ir embora. — Obrigada por tudo.— tentei sorrir, já na porta mas não consegui. — Que dia você vai fazer? — Acho que em três dias. — respondi sem pensar muito. Acho vai ser o tempo necessário, se é que existe como saber. A vida toda que tinha sonhado com meu bebê, acabando em 72 horas. Luigi balançou a cabeça, concordando. — Vou tentar mais, te mantenho avisada. E sinto muito, Angel. — sua mão veio até meu ombro e apertou. Minha garganta se fechou mais uma vez, meus olhos estavam cheios de lágrimas e eu me virei, saindo apressada. — — Para que servem todos esses papéis? Eu já assinei tudo que tinham me pedido. — Minha visão estava um pouco nublada, eu me sentia meio fraca e só queria terminar isso logo, ir para casa sem minha filha comigo, sem ninguém. Olhei de relance para a cadeira vazia ao meu lado e suspirei, puxando as folhas para minha frente e começando a assinar. Primeiro a certidão de nascimento —eu ainda nem havia escolhido um nome; os documentos para o procedimento e por último, a certidão de óbito. Foi demais para mim. Doeu muito quando deixei a última assinatura. Minhas esperanças de um e******o milagre indo embora com uma rabiscada no papel. Encontrei minha mãe do lado de fora, enquanto ia para o quarto. Fiorella, mãe de Fabrizio estava junto e e ofereceram um abraço antes de entrarem comigo no quarto. Me vestiram com a camisola azul ridícula e começaram a falar coisas aleatórias para me distrair. — O que vocês acham que seria um bom nome pra ela? — resolvi perguntar, sem idéias e envolvi a barriga com as mãos. — Marie é bonito. E eu acho que vai combinar com ela. Fiz careta, achando muito comum e me virei para minha sogra, que sorriu: — Fiorella é um nome lindo, não acha? Parecia ainda pior e eu abri a boca, protestando. — Fiorella é um nome de quem sofre bullying na escola e minha filha não vai ser assim, ela vai ser a favorita dos professores assim como paixonite de todos. — me gabei, pronta para ouvir os risos me acompanharem mas apenas o silêncio mórbido caiu sobre o quarto e eu me dei conta do que havia acabado de falar. De imaginar o que eu nunca viveria. — Desculpe, acho melhor vocês irem agora. — pedi, sem conseguir olhar. As duas se levantaram e me abraçaram antes de ir. Eu queria privacidade, queria ter que lidar somente com a minha dor sem me preocupar com o que elas estavam sentindo. Chamei a enfermeira, avisando que estava pronta. Minha vontade era de fugir, correr para longe e nunca mais voltar, nunca me despedir da minha filha, mas eu não podia. Ela merecia ir com tranquilidade e algum tipo de conforto, se é que isso fosse possível. Me colocaram no soro para dar início e cinco minutos depois me encheram de pílulas. Não demorou muito para começar. Fiquei em silêncio absoluto em cada contração, sendo forte por nós duas o máximo que pude e quando ela finalmente nasceu, não teve nenhum tipo de som. O médico a entregou a mim enrolada no seu cobertor rosa que havia trazido. Ela era pequena demais, leve demais e linda demais. Sua respiração tão fraca que parecia sumir quando seu peitinho se abaixava, lento... cansado. Gravei cada parte do seu rostinho com cuidado. Eu a amei tanto e tanto que meus olhos escorriam sem parar, nenhum pouco pronta pra dizer adeus. Acho que nunca estaria. Minha atenção foi tirada quando ouvi um burburinho do lado de fora e então, Fabrizio abriu a porta. Achei que estava alucinando. Mas ele se aproximou, em silêncio. Os olhos pareciam marejados quando a olhou. Era uma parte dele também, sua filha apesar de tudo. Se sentou ao meu lado, trazendo-me contra seu peito, assim como eu, ficou com ela. Por ela. Levei meu dedo até a palma tão pequena que achei que não fosse aguentar segurar, mas conseguiu. — Ela apertou meu dedo. — sorri, boba e encantada com a força que tinha. Mas não durou muito. — E agora soltou. Seu peito parou de subir e descer. E eu vi. Cansada demais para ficar, ela me deixou.
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