Angelina
Quatro anos antes
Minhas mãos estavam tremulas demais enquanto eu fazia xixi em cima da tirinha estúpida dentro do banheiro do hotel que havia me hospedado especialmente para a ocasião e eu odiava ter que esperar os malditos três minutos para saber o resultado.
Comecei a suspeitar de uma possível gravidez a pouco mais de uma semana atrás, após notar por acaso que minha menstruação estava atrasada a mais de sete dias. Não podia ir a um médico sem Fabrizio saber do que se tratava, assim como não fazia ideia de como poderia mandar entregarem um teste de farmácia em casa sem ninguém me dedurar também. Eu queria fazer uma surpresa, uma que eu sabia que ele iria adorar e então saí, me hospedando num quarto para ter a privacidade que precisava.
Suspirei e olhei para as duas linhas vermelhas me sentindo suspirar. Meus pés estavam nas nuvens de repente. A imaginação vagando por um futuro que parecia bom demais para ser verdade. Minha vida estava tão absurdamente perfeita e eu só poderia agradecer pelo bônus que crescia dentro de mim. Um filho que tivesse os olhos escuros de Fabrizio... A ansiedade começava a me comer viva.
Juntei minhas coisas, voltando para casa como se eu não estivesse prestes a ter um ataque e sair gritando correndo por aí contando a novidade. Sempre gostei da ideia de ser mãe. De doar meu corpo para o surgimento de uma coisinha que seria uma parte de mim, que eu sinto que vou amar tanto que o meu coração já dói com o sentimento.
É provável que eu chore junto o bebê durante a madrugada mas isso faz parte.
Saltito pelo corredor assim que chego em casa, sem conseguir me conter e entro no escritório de Fabrizio que está com o telefone pendurado na orelha, falando em um alemão perfeito com alguém do outro lado e me aproximo silenciosa, sentando em seu colo e recebendo um carinho preguiçoso de sua parte que desliza os dedos suavemente por minhas costas.
Pegando uma folha em branco sobre sua mesa, rabisco uma pergunta despretensiosa :
Você prefere colégio interno ou uma escola próxima para nossos filhos?
Levanto o papel para ele ver e de costas sei que está fazendo careta. Se inclina junto a mim e pega a caneta dos meus dedos. Só consigo ver o que escreveu com a caligrafia perfeita quando termina:
Nós não teremos filhos.
Azedo, sinto o gosto r**m tomar minha boca.
Ele volta a se encostar na poltrona, despreocupado enquanto eu vejo as cenas de um pesadelo passando em minha cabeça. Meu castelinho de areia sendo levado pela maré.
Me levanto, saindo apressada sem olhar para trás para que ele não perceba minha cara e saque tudo antes que eu consiga achar uma solução para a enrascada que acabei de entrar.
E sentada pela segunda vez no vaso espero respostas ou, ao menos que um sinal divino caia em cima do meu marido e mate o desgraçado de uma vez. Por que não conversamos sobre isso antes? Por que ele não me disse que não queria filhos?
Dio!
Não sei exatamente quantos minutos se passam até que escuto batidas fortes na porta que me fazem pular.
— Angel, está aí? — é a voz de Fabrizio e eu me apresso em jogar uma água no rosto antes de abrir a porta e encontrá-lo com o cenho franzido.— Está tudo bem? Você está pálida.
Pisco os olhos e forço um sorriso, passando por ele .
— Estou bem, só um pouco de dor de cabeça. — digo caminhando apressada para sair da sua presença. Seus passos me seguem. — Terminou sua reunião com os alemães? Como foi?
— Foi bem, uma carga estará a caminho em algumas semanas. — passando por mim, ele para em minha frente me obrigando a frear os passos e cancelar minha tentativa de fuga. Suas mãos me seguram pelos ombros, me forçando a olhar para ele e eu engulo em seco. — Tem certeza que é só uma dor de cabeça?
Pisco uma, duas vezes.
— Por que nunca me disse que não queria ter filhos?
Sua expressão se torna uma careta e ele me solta, dando dois passos para trás.
— Não achei que você iria querer também e o assunto nunca realmente veio. Não é que eu nunca queira mas... Talvez em vinte anos? — seus olhos mostravam outra coisa. Uma sombra dizendo que nunca seria a melhor previsão e eu engulo em seco. — Não sei nem porque estamos discutindo esses filhos hipotéticos agora. — rolou os olhos, sorrindo como se não fosse nada.
— Não acha que isso é importante? Isso é o básico! É o tipo de coisa que decide o futuro de um casamento ou não. — as palavras saíram com certeza e eu o encarei, confiante em provar meu ponto e fazê-lo mudar de ideia. O bebê já está a caminho, não tem como e eu não quero voltar atrás.
Acompanhei os olhos pretos que eu amava tanto se tornarem duas pedras de gelo e me encolhi: — Está dizendo que não se casaria comigo se soubesse que eu não quero passar meses cheio de vômito, fraldas e m***a a minha volta? — lambeu os lábios e me lançou um sorrisinho de ironia. — Adivinhe? Seu pai de m***a estava te vendendo para mim como se você fosse uma das putas que ele fodia nos nossos bordéis e você iria acabar comigo de qualquer jeito!
Senti o peso da minha mão quando ela estalou em seu rosto.
Sua linha d'agua estava cheia quando ele olhou para mim.
— Não são filhos hipotéticos mais, estou grávida.
Fabrizio fechou os olhos e levou a mão até o rosto, parecendo extremamente zangado. Eu não me importei, não senti medo. Estava pronta para lutar com todas as minhas forças por esse bebê.
— O que aconteceu? Você esqueceu de tomar a sua injeção? Como... como... — olhou para cima, suspirando antes de se voltar para mim. — Você realmente acha que estou pronto para ser pai de alguém?— o tom de voz baixo me pareceu extremamente ameaçador e pela primeira vez pude conhecer o lado que ele usava contra os inimigos da família.
— Não, não acho. Assim como eu não estou pronta para ser mãe, mas vamos dar um jeito. — tentei argumentar, esperançosa de que as coisas pudessem ir por outro caminho.
Fabrizio riu. Riu de um jeito que me fez odiá-lo um pouco.
— Eu não estou pronto para dar um jeito. — não me olhou antes de se virar, dando as costas para mim e saindo apressado.
Meus olhos arderam. E eu toquei minha barriga, enojada.
—
Abri os olhos pela madrugada, sentindo meu estômago girar. O cheiro forte de bebida vinha de todos os lados e quando me situei, já sentada na cama notei o corpo esguio apagado ao meu lado.
Fabrizio estava fedendo de um jeito que nunca tinha visto, ainda com os sapatos enfiados nos pés e eu me ergui, passando para o outro lado e começando a tirar as peças de roupa que conseguia. Primeiro a jaqueta, a camisa e então os sapatos, jogando tudo num canto enquanto observava seu rosto. Bonito que dói...
Suspirei, me virando para pegar as peças no chão quando seu celular vibrou sobre o criado-mudo e eu olhei, no automático, mas desejei que não tivesse o feito:
" Gostei do nosso dia. Você tem que vir mais vezes."
Me sentei, abrindo a mensagem no aplicativo, indo diretamente para o perfil. A garota de cabelos vermelhos era extremamente bonita e me fez suspirar, sentindo os olhos arderem de novo. Poderia não ser nada... mas parecia ser tudo e mais um pouco.
Me levantei, peguei meu cobertor e fui para um dos quartos de hospedes.
Fabrizio não falou comigo pela manhã. Nem no próximo dia e muito menos no outro. E assim como ele, me mantive absorta em meu silêncio. m*l o via em casa e quando por acaso esbarrávamos um no outro, ele se trancava no seu escritório apressado.
Acho que já tinham se passado quase três meses e meio quando resolvi dar o primeiro passo para acabar com essa estupidez. Bati na porta de seu escritório quando notei que havia chegado em casa, após vigiar por horas. Escutei o trinco e então seu rosto estava a minha frente, confuso. E então assim que baixou os olhos para mim, bateu a porta na minha cara.
Minha boca se abriu e eu bati de novo, não acreditando que aquilo estava acontecendo.
Ele abriu a porta mais uma vez, a raiva tomando conta de sua expressão e por trás dele, dentro do escritório, eu vi cabelos vermelhos esvoaçantes e brilhantes, exatamente como os da garota da foto que havia lhe mandado mensagem na noite em que brigamos, meses atrás.
— O que foi, Angelina? — perguntou, trazendo minha atenção de volta a ele sem notar que eu havia visto.
Não consegui falar por um longo minuto.
— Eu tenho um ultrassom amanhã, queria saber se você gostaria de ir comigo.— meu tom de voz estava meio morto, meio em choque. Aquela mulher estava mesmo na minha casa?
— Qual horário?
—À tarde.
Ele me olhou, se virou brevemente para dentro e voltou-se para mim:— Não posso, tenho compromisso.
Com sua amante?
— Tudo be... — a porta bateu novamente e eu me virei. Me senti meio tonta. Me senti h******l. Apressada, corri para meu quarto indo direto para o banheiro e pus o almoço pra fora.
No outro dia, me senti estúpida quando agarrei a mão do soldado que me acompanhava. Ele se manteve neutro enquanto eu chorava, pouco antes de entrar para a sala sozinha mais uma vez. O gel frio arrepiou minha pele e eu olhei para a pequena tela, não vendo nada até o médico começar a me mostrar as pequenas formas como da última vez.
— Seu bebê está parado na mesma posição como nos últimos ultrassons. — Seu tom parecia preocupado e eu me ergui sobre os cotovelos, tentando identificar na imagem o que estava errado mas eu m*l via sua forma, como poderia saber?
— Isso é r**m?
— Bem, vou te passar mais uns exames e deixar o nome de algum especialista para você marcar uma consulta, ok? Acho melhor ter alguma certeza antes de te dizer alguma coisa e te assustar por nada.
Balancei a cabeça concordando, sem entender. Apavorada com as possibilidades.
— E ah, mamãe. É uma menina.
Saindo da sala gelada, abracei minha barriga e peguei o celular, ligando para a clínica do tal especialista e marcando um horário para o mesmo dia. Fiz exames e mais exames, aflita e rezando para que não fosse nada, mas Deus não me ouviu.
Despedaçada, chorando no banco de trás do carro enquanto ia para casa, liguei para Fabrizio. Eu precisava dele, mais do que tudo.
A ligação foi para a caixa postal.