Miguel, Gabriel e Rafael se encaram, era como se eles pudessem sentir pela primeira vez a expansão da energia. Os corpos dos arcanjos brilhavam, seus poderes afloraram, os três com diferentes emoções, resultado da ligação. Tudo durou cerca de dez minutos, mas foi o suficiente para deixar os irmãos confusos, principalmente Miguel.
– Então isso é o ódio? _ Gabriel o encara e assente.
– Esse é o ódio dela, cada um sente de uma forma diferente.
– Você já sentiu ódio, irmão?
O irmão do meio respira fundo e abaixa a cabeça, logo depois assente. Miguel se aproxima dele e beija o topo da sua cabeça.
– É compreensível, talvez eu também já tenha sentido, só não sabia do que se tratava.
– Isso não vem ao caso agora. _ Rafael tinha uma questão mais urgente para tratar. – Lúcifer também a sentiu. Temos que chamá-la logo, antes que ele faça. _ Miguel o encara e assente.
– Façam tudo que puder, tragam-na até mim.
Os dois irmãos assentem com um movimentar de cabeça e saem de perto do líder, que volta a caminhar pelo jardim. Miguel então respira fundo e fecha os olhos com força.
– O que o Senhor fez, Pai? Porque nos colocastes em prova? Porque nos deixastes imunes a esse tipo de sentimento? É tão... _ Ele nem sabia como descrever. – Eles são injustiçados, Pai, você os criou, deveria protegê-los, os abandonastes e agora nos abandona. O que queres com isso? Diga-me, Pai, deixe-me saber.
Mas diferente de como já foi um dia, sua prece não foi atendida, sabia que seria assim, mas agora conhecia o ódio, teve certeza de que já o sentiu um dia, talvez esse fosse o objetivo do seu Pai, talvez esse fosse a missão de sua vida, acabar com esse sentimento, mas para isso teria que experimentar todas as emoções dos humanos, para acontecer só havia uma maneira.
– Perdão, meu Pai, mas eu preciso sentir.
O arcanjo então abre os olhos, mas dessa vez já não estava em seu jardim, já não estava no céu, aquilo era a Terra, aqueles sons altos de buzinas, pessoas falando, tecnologia, medos, incertezas, tudo era novo, mas ao mesmo tempo maravilhoso. Agora o arcanjo entende o porquê do seu Pai ser tão fiel aos seus filhos humanos.
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Lúcifer paralisa, depois que seu demônio tirou a mulher, ele teve toda a atenção de Isabel, começaram o diálogo, mas de repente seu corpo estava imóvel. Era como se alguém o tivesse controlando, não o corpo humano e fraco, mas a sua essência, o seu eu celeste.
– O que aconteceu?
A loira pergunta, queria se aproximar, mas ali era o senhor do inferno, poderia ser morta sem ter tempo para defesa, porém logo o arcanjo estava normal, o corpo que antes se mostrava curvado ficou ereto, quando ele se ergue o sorriso em seus lábios era diabólico, aquilo fez Isabel se afastar mais.
– Sabe, acho que não preciso mais de você. _ O arcanjo se aproxima do anjo rapidamente e segura seu pescoço. Isabel não estava entendendo mais nada.
– Eu...
Sua garganta estava sendo apertada com força, por isso não conseguia falar. Lúcifer aproxima seu rosto ao da loira e sorri.
– Queria a ti para encontrar uma pessoa, mas já a encontrei, agora é minha vez, depois que a tiver, nada mais poderá me impedir, o melhor de tudo é que ela está se desenvolvendo a partir de mim, isso está melhor do que eu imaginava.
O sorriso no rosto do homem era o mais diabólico que Isabel já viu em toda a sua vida. A mulher tentava se soltar do aperto do arcanjo, mas ela não tinha a menor chance. Porém quando pensou que fosse o fim, um demônio entra com rapidez dentro da sala.
– Ah, mas eu perdi todo respeito nesse lugar. _ Lúcifer levanta a mão, ia estalar os dedos para fazer o outro sumir, porém ele começou a falar.
– Senhor, desculpe, senhor. _ Ele se curva. – Mas... Miguel. _ Apenas o nome do irmão fez Lúcifer soltar o anjo e se aproximar do demônio.
– O que tem Miguel?
– Ele... Ele desceu. Senhor, ele está na Terra.
Foi a última coisa que Isabel escutou antes de desaparecer, aproveitando a distração do arcanjo. Lúcifer ficou automaticamente com o semblante sério. Seja lá o que tenha acontecido, ele tinha certeza que estava chegando perto do grande momento, enfim, os destinos dos quatro irmãos seriam ligados novamente.
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Juliette estava confusa, não se lembrava ao certo o que aconteceu, na verdade, não sabe se queria lembrar. Estavam entrando em um corredor que tinha uma escada que levava a um nível subterrâneo, Yasmin não soltou a sua mão por nem um segundo, a ruiva estava receosa quanto ao que falar ou fazer, por isso apenas se deixou guiar e ficar calada.
– Entrem.
Tálaga abre uma porta e deixa espaço para as duas entrarem, elas que não se impressionaram com o que encontraram, a sala era típica de uma bruxa, livros, velas, uma mesa no centro, poções, sacos de feitiços, entre outros artefatos antigos e mágicos.
– Sentem-se ali.
As duas sentam em cadeiras perto da mesa, assim como a bruxa faz depois de pegar um livro e uma vela vermelha, já usava até a metade.
– Essa é chamada de vela do destino.
– Safira usou uma dessas para o feitiço. _ Juliette diz e se levanta. – Não, eu não vou deixar isso acontecer de novo, ninguém mais vai morrer por minha causa. _ Tálaga suspira, apesar da causa ser nobre, não era tão honrosa quanto a irmã.
– Não se iluda, anjo, eu não farei isso, não por você ou uma causa que desconheço, não vou me sacrificar. O que vamos fazer aqui é outro feitiço e tem que ser rápido.
– Do que se trata? _ Yasmin pergunta, brandamente, acalmando a ruiva, que se senta novamente.
– Vocês estão em perigo, algo me diz que o que aconteceu aqui não passou despercebido, qualquer ser sobrenatural sentiu essa energia, temo que não só os mocinhos, os vilões irão querer, até eu quero, é tanto poder que... _ A bruxa para de falar e olha para Yasmin, essa que n**a com um movimentar de cabeça. – Bom, o fato é, vocês precisam de p******o, o que vou fazer aqui é um feitiço mais poderoso, ninguém no mundo poderá encontrar vocês, tem que ser feito. _ O anjo encara a ruiva que apenas movimenta a cabeça, concordando. – Temos que ser rápidas. Outra coisa. _ A senhora diz ao acender a vela. – O feitiço vai interligar as duas.
– O que isso quer dizer? _ Juliette pergunta.
– Quer dizer que apenas as duas poderão se localizar, ninguém mais vai. Mas isso quer dizer também que Yasmin será o seu ponto fraco, poderá ser usada para te acharem. _ Juliette encara a morena e suspira, aquilo só poderia ser uma brincadeira do destino, pensa.
– Juliette, vamos fazer. _ O cupido analisa a situação, mas ela enxerga a única verdade à sua frente.
– Ela já é a minha fraqueza.
O anjo não sabe bem o que aquilo significa, mas não tinham tempo agora, porém esse seria um assunto a ser retomado em um futuro não tão distante.
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Gabriel e Rafael não estavam acreditando no que os seus sentidos estavam indicando. Eles não sentiam mais a presença de seu irmão e após chegarem à sala do templo, onde apenas o mais alto escalão celeste entrava, souberam que tinha algo errado, pela sensação que passou a ter o céu, era algo com o irmão mais velho. Ambos se encaram e tentam procurar pela energia de Miguel, mas foi em vão.
– Ele não está aqui. _ O mais velho fala.
De repente estavam em outra sala, onde poderiam ver uma listagem de todos os celestes que estavam no plano terrestre.
– O que Miguel está tentando fazer? _ Esse foi Rafael.
– Eu...
Gabriel estava sem palavras, seu irmão disse que o dia que descesse, seria para ter o seu destino traçado, seria o dia em que buscaria a vida ou a morte eterna, ou seja, seria o dia da batalha final, mas esse dia ainda não tinha chegado.
– O que vamos fazer? _ O homem n***o pergunta e encara o irmão, esperava que Gabriel falasse alguma coisa, mas o arcanjo estava completamente paralisado. – Irmão. Miguel não está aqui, então...
– Não, não fale isso.
O arcanjo passa a mão pelo cabelo castanho e suspira, nunca se preparou para aquilo, nunca almejou aquilo, estava bem seguindo as ordens de seu Pai e depois de seu irmão mais velho, Miguel poderia não ter emoção, fazendo disso uma qualidade para tomar decisões, mas era a escolha do Pai para lhe substituir assim que Ele estivesse ausente, aquela era a ordem natural, tinham uma hierarquia, não foi criado para ser líder, era o lado sentimental do círculo, ele tinha a compaixão.
– Gabriel, você é o líder agora, você tem que estar seguro, não seja o irmão fraco que tenta ser, sei que é muito mais que isso, pare de tentar se menosprezar, isso não faz parte da essência de nós arcanjos.
Gabriel encara o irmão, mas ainda não sabia o que falar nem fazer. Rafael iria lhe repreender mais uma vez, porém de repente um corpo surge em seus pés, a mulher loira encarava os dois superiores tentando controlar a dor em seu corpo, se já era r**m estar em frente a um arcanjo, imagine então dois de uma vez?
– Isabel. _ Rafael diz ao se abaixar e segurar o corpo da mulher.
- Senhor... Eu...
A mulher não termina de falar, pois logo desmaia. O corpo humano estava fraco, mesmo sem a necessidade de dormir, comer e descansar dos seres sobrenaturais, os corpos humanos precisavam disso tudo para continuar funcionando, era uma logística que impressionava a todos.
– Leve-a para a sala de cura. _ A voz de Gabriel foi firme, o que fez Rafael perceber que, enfim, o irmão entendeu a realidade.