Lúcifer chega até sua sala particular no inferno, onde está sua convidada especial. Ele entra e encontra a mulher de costa, brincando com duas crianças. Seus lisos fios negros estão soltos, usa um vestido vermelho.
O arcanjo sabe que independentemente de Juliette vir para o seu lado ou não, aquela mulher é seu melhor trunfo, usará seja como ameaça ou escudo. Ele conhece aquela história, Raziel era um porco, imundo e burro, mas para isso ele serviu, forjar aquela morte foi uma coisa que Lúcifer sempre soube que o ajudaria de alguma forma. Laura passou todos esses anos adormecida, sendo acordada pelo arcanjo assim que saiu da jaula, uma vantagem que seus irmãos já sabem existir, mas a protegeria como fez com aquele segredo até hoje.
– Laura.
A mulher que sorria com a criança demônio vira e encara os olhos sorridentes do homem, para ela, Lúcifer é seu salvador, o homem que a ajudou na hora da agonia, como ele queria que fosse.
– Lúcio.
Ela diz, sorri e se joga contra o corpo masculino, sentindo a falsa segurança que ele transmite, ou nem tanta assim, já que a tentativa de assassinato fora verdadeira por parte de Miguel.
– Minha menina, como foi o seu dia?
A morena se afasta e sorri, olhando em seguida para as crianças. Assim que Lúcifer sentiu o afeto da humana por esses seres pequenos, o arcanjo se aproveitou desse fato para controlar mais suas emoções.
– Muito bom, adoro essas crianças. _ Mas logo depois de dizer ela encara o homem e fica séria. – Mas quero sair daqui, quero encontrar Juliette.
O arcanjo suspira, será difícil convencer a mulher para esperar mais um pouco, não pode colocar um demônio em seu corpo, assim que Juliette estiver em sua frente saberá que não é ela, ele tem que reverter a situação.
– Temos que esperar, criança, Juliette pensa que você está morta, não podemos fazer isso de qualquer jeito.
Laura fica mais séria, pois sua ansiedade é completamente evidente. Apesar de entender os motivos do arcanjo, do qual ela pensa ser um homem comum, ainda se sente nervosa ao pensar na ruiva perdida sem sua presença, porque foi assim que Lúcifer desenhou sua imagem.
– Não quero que ela continue sofrendo pensando que estou morta. Eu estou viva, Lúcio, estou aqui, ela precisa saber.
O homem se aproxima da mulher e sorri, passando a confiança necessária para que Laura guarde aquele segredo por mais algum tempo. Mesmo sem lembrar do episódio da sua morte, pensando que fora um acidente, Laura sabe que tem algo errado, só não quer questionar a pessoa que lhe salvou e deixou em segurança, pelo menos é assim que ela pensa.
– Tudo bem, mas, por favor, não demore muito, apesar de adorar as crianças, eu sinto que Juliette precisa de mim.
– Não se preocupe, eu prometo que terá o seu encontro com sua amada. É uma promessa que lhe faço.
Laura sorri e se afasta do homem, voltando a brincar com as crianças, todas são demônios em corpos humanos, apenas para satisfazer o desejo e prazer da mulher em cuidar daqueles pequenos seres.
Lúcifer observa, ele precisa manter a mulher onde está, o plano é realizar aquele encontro, porém agora precisa esperar, pois sabe que Juliette o procurará, ele é a resposta para os seus questionamentos.
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Os irmãos ficaram se encarando por algum tempo, não sabem o que falar, nenhum tem o que dizer. Porém é necessária uma iniciativa, pois Miguel é o líder, mas passou esse posto para o outro arcanjo. Gabriel não sabe se ter o irmão mais velho sentado naquele trono de novo, depois de descer, é uma boa escolha, seus conceitos estão sendo influenciados pelas sensações humanas.
– Você não tinha o direito de fazer isso, Miguel, não tem autoridade para tal.
A voz de Rafael demonstra sua raiva, poucas vezes o arcanjo se alterou, mas nas poucas vezes o seu discernimento fora influenciado. Gabriel os observa, na verdade, de todos ali, ele sempre é o apaziguador, pois fora tirado de suas costas o peso das decisões, pelo menos é assim que ele pensa.
– Rafael, você melhor que ninguém sabe que precisavam sair de lá. O corpo humano dela não aguentaria.
– Você deveria ter ido embora, nos abandonou, Miguel, assim como nosso irmão mais velho fez, assim como nosso Pai fez, não merece estar aqui de novo, saiu sem certeza de voltar, me deixou no comando, não pretendo deixar que jogue fora o que construímos durante anos sem nosso Pai. _ Nesse instante Rafael deixa que sua espada escorregue por sua mão, está disposto a tudo para não permitir que Miguel faça o que planeja, pois ele sabe exatamente o que o irmão quer.
– Você quer batalhar comigo, irmão? _ Miguel está impressionado, mas também pronto para agir.
– Se insistir nisso, sim, eu farei, nem que morra.
Miguel então ergue a mão e de repente sua espada aparece, tão reluzente, afiada e poderosa como sempre foi, a espada que tirou Lúcifer da jaula. Os dois se encaram, por um mínimo instante Rafael estremeceu ao vê-la, é quase impossível combater contra o irmão ele estando com a espada, mas o arcanjo está disposto a tudo para impedir que o loiro continue com o seu plano.
– Você não tem poder para isso, Miguel. _ Rafael diz, se referindo ao plano do outro.
– Não, eu não tenho, mas ela tem.
Com isso avança contra o outro arcanjo. Quando as espadas se tocam, faíscas caem no chão, os dois irmãos se encaram, estando frente a frente, os olhos sérios, arremessando energia, são dois arcanjos lutando por propósitos diferentes, um quer manter o mundo vivo para a volta do Pai, o outro pretende mudar o mundo, segundo a sua crença de melhoria, mas ainda para a volta do seu Pai.
– Para, Rafael, eu vou matá-lo, pare, irmão!
O mais velho diz, tentando colocar a razão nas ações do irmão, mesmo sendo o mestre do discernimento, Rafael está agindo no impulso da emoção, porque ele nunca permitirá que qualquer um vá contra os princípios do seu Pai.
Gabriel está parado ao lado, a verdade é que não pode fazer nada, é o caçula, o mais fraco, o menos valorizado, o que consiste na paciência e amor ao próximo. Ele encara os irmãos duelando, lâmina contra lâmina, golpe contra golpe, força contra força, um último olhar é lançado para os dois antes do arcanjo desaparecer, porque sabe o motivo daquela batalha e para ele só tem um modo de acabar com aquilo, ir em busca do desejo de todos os seres sobrenaturais naquele momento, Juliette.
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Como imaginado, nenhuma das quatro mulheres conseguiu pegar no sono, menos de três horas depois já estavam todas de pé prontas para seguirem aquela viagem.
– Não quero deixar o meu carro. _ Juliette quer de todas as formas pegar o seu Jaguar na casa da bruxa.
– Eu posso ir, tenho certeza que consigo entrar, eles nem devem estar mais por lá. _ A mais nova se manifesta.
– Nem pensar, Sofia, os arcanjos não devem estar lá, mas com certeza tem demônios e anjos vigiando, nada disso, você não vai. _ A bruxa fala.
– Tia, mesmo que tenha razão, precisamos de um carro de qualquer forma. São mais de trinta horas de viagem. _ Tálaga sabe que é verdade, mas voltar naquela casa é quase uma sentença de morte.
– Eu não gosto dessa ideia, nem um pouco.
A bruxa não quer colocar sua sobrinha em perigo por um carro, mas ela sabe que qualquer uma delas três será notada, suas energias são fortes, apesar de Sofia também ser bruxa, sua aura nem se compara a da tia ou da mãe.
– Eu sinto em ter que concordar com Sofia, minha missão agora é também mantê-la viva, mas não temos outra opção. Meu carro tem um feitiço, estando nele ninguém nos encontrará. Se pegarmos outro pelos métodos humanos será fácil de nos acharem. _ Tálaga sabe que a ruiva tem razão, Sofia está decidida em sua missão, nem ela conseguirá impedi-la.
– Tudo bem. _ Tálaga suspira. – Por favor, tenha cuidado, se achar que não consegue, volte, não tente ser h*****a, são seres fortes, comandados por arcanjos. _ A mais nova assente, logo saindo da pequena casa. Juliette sente o aperto na sua mão, Yasmin sabe que se mais aquela morte cair sobre suas costas, ela não se perdoará.
– Ela vai conseguir.
O cupido assente, pois sabe que o que resta para elas é esperar. Não se trata apenas do carro que a ruiva ama, mas do modo seguro de viajar, elas não têm tempo para Tálaga preparar um feitiço tão poderoso, assim que Juliette ou Yasmin sair daquela casa todos sentirão sua presença, de fato, o jeito é aguardar.
– Espero que você esteja certa, Yasmin, espero que esteja certa. _ A bruxa fala baixo, pois seu coração está pressentindo outra coisa.
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Gabriel está parado em frente à casa, tentando se concentrar para sentir alguma presença, mas com exceção dos seus soldados, nenhuma pessoa ou ser está ali. Pelo menos até a última tentativa, pois enquanto suspira, ele ver alguém se aproximar.
O arcanjo resolve observar. Sofia olha por todos os lados, mas não enxerga ninguém, pois o arcanjo está invisível aos seus olhos. A garota vai para perto da entrada e logo avista o carro. Quando o arcanjo a observa indo para o automóvel, se sente i****a por não ter pensando naquilo. A morena sorri ao ver o carro, quando abre a porta, Gabriel aparece na sua frente, fazendo a mulher se alarmar, expondo uma arma que ela tem pendurada na cintura.
– Você sabe que isso não vai funcionar, não é?
– Quem é você? _ O arcanjo franze o cenho, estranhando a garota não o reconhecer, mas ao sentir sua aura, percebe que Sofia ainda não é tão forte quanto sua mãe ou tia.
– Interessante.
– Quem é você, o que quer?
Gabriel está sério, calmo, brando, era hora de usar a estratégia, seus irmãos estão em uma batalha sem vencedor, o outro mais velho está tramando para tomar o poder do céu, o lugar de onde ele foi exilado, tem que tomar uma atitude, só não sabia por onde começar, pelo menos até agora.
– Você não sabe mesmo quem eu sou? _ Sofia encara o homem, continua com a arma apontada para ele, mesmo sabendo que não adiantaria nada, prefere assim, sente-me mais segura.
– Não!
– Pois bem, eu sou Gabriel, Arcanjo Gabriel, acho que precisamos conversar, filha de Safira. _ Apenas a menção do nome da mãe faz a garota recuar com a arma, é um arcanjo e assim como ele, a bruxa ver a chance de alcançar o seu objetivo.