Lúcifer começa a gargalhar assim que as duas mulheres desaparecem da sua frente. Primeiro por ver o semblante de desespero do irmão, segundo porque enxergou no olhar de Juliette o que queria passar, que apenas ele poderá responder suas perguntas.
– Você é e sempre será um i****a. Esteve esse tempo todo com ela e ainda assim conseguiu perdê-la.
– Ela não ficará do seu lado.
– Não, sei disso, mas não preciso que ela esteja do meu lado, só preciso que ela não fique do seu. Advinha só? Você matou as duas pessoas que ela amou, e também Safira, eu posso até ser o d***o, mas tenho a face de um, e você, meu irmão, que face tens?
Miguel não sabe responder a aquela pergunta, na verdade, desde que pisou no mundo terrestre, não tem mais certeza de nada.
– Não tente me confundir, Lúcifer, não faz parte de você, seja direto.
O senhor do inferno chega mais perto do irmão, Miguel não recua nem um passo, a verdade é que ele não tem medo do outro. Mesmo sem entender a p******o do Pai em relação ao d***o, tenta levar em conta o fato de Lúcifer ser seu irmão, mesmo querendo acabar com toda aquela guerra naquele instante.
– Eu quero o que é meu por direito, quero o que vocês tiraram de mim. _ O arcanjo mais novo encara bem no fundo dos olhos negros do irmão mais velho, temendo a resposta, mas já imaginando do que se trata.
– O que é seu por direito?
– Nada mais nada menos do que o meu trono, eu serei o rei, nosso Pai sumiu, eu sou o primogênito, ele é meu.
Foi impossível para o líder do céu não sorrir, a objetividade da questão sempre foi essa, podem se passar anos, milênios, mas Lúcifer sempre se ressentia pela rejeição da sua “família”, mas seu Pai fez o que fez para proteger a sua vida, era o exílio ou a morte. O arcanjo nunca entendeu dessa forma, quer o trono do céu para mostrar para Deus que pode ser muito melhor que qualquer um dos seus filhos.
– Isso nunca vai acontecer, irmão, nosso Pai não está morto, se você voltar, Ele reaparece. Seria expulso no momento em que pisasse no céu. _ Lúcifer recua alguns passos e dá as costas para o irmão, para quando se virar de novo encará-lo e dizer:
– Estou disposto a pagar para ver, boa sorte na busca por Juliette.
E com isso desaparece. Miguel sabe que aquela foi uma declaração de guerra, não a batalha prometida, esperada, mas a guerra familiar que nunca teve um fim. Miguel olha para o teto do quarto, o tempo já voltava ao normal, fecha os olhos e mais uma vez clama por seu Pai.
– Pai, porque fizestes isso? Porque nos coloca em tamanha prova? É isso mesmo que quer? É isso que deseja? Seus filhos batalhando? Matando-se? Lúcifer vai m***r ou morrer, se for essa a tua vontade, seja forte para aguentar as consequências, pois em qualquer uma das possibilidades, eu nunca te perdoarei, nunca, Pai.
Com essas palavras ele também some. Mas uma certeza faz com que o arcanjo vá para o lugar onde ele sabe que deve estar, a certeza de que precisa da sua família, precisa da sensação de compaixão e razão que apenas dois seres o podem transmitir.
– Olá, irmãos.
Rafael e Gabriel que estavam de costas se surpreendem ao escutar aquela voz, mas apesar de se curvarem rapidamente, percebem que aquele não é mais o mesmo Miguel, o plano terrestre fez seu papel em mais um arcanjo.
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A casa é muito menor do que a anterior, simples e sem elevar desconfiança. Todas acham mais coerente descansar o resto da noite para então seguirem viagem, Tálaga além de salvar as duas mulheres e sua sobrinha, também descobriu onde está o corpo de sua irmã, e não será uma viagem curta.
Nesse momento ela dorme sob o olhar atento de Sofia, que não tirará os olhos da tia naquela noite, assim como Juliette e Yasmin estão no quarto ao lado, ambas sabendo que não podem dormir, fariam vigília, agora entendem que toda vez que um arcanjo se aproximar, a ruiva sentirá, aquilo as deixa mais seguras de certa forma.
– Você está bem? Eu te machuquei? _ A ruiva se manifesta.
Pela primeira vez na noite elas podem conversar tranquilamente depois do ocorrido, as dúvidas são reais, assim como a certeza de que Juliette é o grande X daquela situação, todos a querem, só resta descobrirem o motivo.
– Estou bem, Juliette, não se esqueça que sou um anjo caído que continua com poderes.
A ruiva sorri ao se aproximar da morena e abraçar seu corpo. Yasmin suspira, pois muito além da dor física, tem a mental do cupido, que piorou depois das poucas descobertas feitas naquela noite.
– Eu não me perdoaria se tivesse te machucado.
A voz da mulher demonstra todo o seu medo, perder Yasmin também não é uma opção, ela já perdeu demais na vida, Laura e Samandriel já levaram todas as suas lágrimas. Nesse instante a morena se afasta e encara os olhos avermelhados da outra, comprovando o quanto Juliette fala com sinceridade.
– Eu estou bem, mas e você, como está? _ A ruiva suspira e fecha os olhos, relembrando a sensação de angústia que sentiu todas as vezes em que os arcanjos chegaram perto dela.
– Eu? Eu estou desesperada, mas agora tenho uma missão, vou m***r Miguel, nem que isso leve toda a minha vida, eu vou matá-lo.
Yasmin se afasta de Juliette e observa algo que ela ainda não tinha percebido na mulher, ira, ela está sentindo ódio pelo filho de Deus, aquilo é péssimo, porque seja como for, Miguel ainda é um arcanjo, o segundo na sucessão, o atual líder do céu.
– Você não pode fazer isso.
– Sim, eu posso, não sei como, mas eu vou, ele não merece ser quem é, não merece fazer o que faz. Se nosso Pai exilou seu próprio filho por suas ideias erradas sobre a humanidade, Miguel merece coisa pior, ele merece a morte.
Yasmin até entende o sentimento de raiva que a mulher detém, mas também se incomoda com o modo que o cupido fala aquelas palavras, pois para o caminho da escuridão basta ter motivos, o que a desespera é que nas centenas de anos vividos por Juliette ela acumulou muitos.
– Você... Está me dando medo.
A ruiva volta a se aproximar, agora mais brandamente. Leva suas mãos para o rosto da morena que fecha os olhos ao sentir o toque. Yasmin sempre imaginou como seria receber o amor de Juliette, agora que tem a possibilidade de tê-lo, não pode viver a totalidade do sentimento, pois as duas não tem a certeza se estarão vivas na manhã seguinte.
– Não tenha medo, não você. Yasmin, é para não a perder que farei isso, eles vão tentar fazer m*l a você e conseguirão, para terminar com essa guerra eu tenho que agir.
Yasmin não tem o que falar. As perdas de Juliette são muitas, as mais importantes de sua vida, agora ela descore que foi tudo culpa do líder do céu, é uma descoberta que mexe com a sua fé, a verdade é que a fé de Juliette não é mais a mesma, não se considera um ser das sombras, mas deixou de ser um celeste há muito tempo. Os rostos estavam próximos, o bastante para sentirem as respirações uma da outra.
– Beije-me, Juliette. Beije-me agora!
A ruiva não espera para fazer o que foi pedida. Os lábios se tocam com paixão e vontade. As mãos de Juliette vão para a nuca da outra, puxando com certa força os cachos que estão soltos. Yasmin não demora em circular o pescoço da ruiva com seus braços, chegando seu corpo para mais perto, sentindo a respiração mais forte do cupido, aquela sensação ela conhece muito bem, é excitação.
As línguas passeiam uma na outra, os corpos colados, corações acelerados, sinais básicos de que deveriam parar, mas o desejo, a vontade, o t***o é muito maior. Juliette direciona os corpos para perto da cama, a morena sente as pernas tocarem na madeira e se deixa cair sobre o colchão sem separar os lábios.
Quando a ruiva está completamente em cima da outra, sente o corpo de Yasmin estremecer, ela conhece o prazer em todas as suas formas, passou por etapas da vida que lhe permitiu desfrutar da sensação de dar e receber.
– Juliette.
Yasmin consegue afastar os lábios e falar. As duas estão ofegantes. A ruiva apoia as mãos no colchão, uma de cada lado da cabeça da morena, tem os olhos fechados, tentando controlar a excitação do momento.
– Desculpa. _ Juliette diz sem abrir os olhos.
– Tudo bem.
Yasmin leva sua mão para o rosto da outra e acaricia de leve, fazendo Juliette suspirar. Aquilo além de frustrante, a deixa com mais ira, porque sabe que a culpa também é de Miguel. Seu corpo começa a esquentar, a morena sente a mudança.
Quando a ruiva abre os olhos, eles estão negros, assim como da outra vez, o anjo se impressiona com a rapidez que a mulher muda, para controlá-la a puxa para outro beijo, tão intenso quanto o primeiro.
O cupido se assusta quando a outra vira os corpos agora ficando por cima, sentando-se no colo da maior com uma perna de cada lado, as mãos de Juliette vão para suas coxas, apertando, acariciando, a excitação volta a se fazer presente.
Os corpos estão quentes, mas dessa vez de desejo, de t***o, de luxúria, não o pecado, mas o poder de amar, de sentir, de se entregar, Yasmin queria continuar, se não fosse essa confusão toda se entregaria, mesmo acordando morta, continuaria, passaria uma noite de amor com Juliette, mas não agora, não nesse momento, ela precisa estar ao lado do cupido para lutar, precisa proteger Juliette, se for para morrer, que seja por essa causa.
Aos poucos vai diminuindo a intensidade do beijo, agora estando apenas com os lábios se tocando, quando ergue a cabeça e encara os olhos da outra, observa o vermelho que tanto ama. O olhar de uma mulher, apenas isso, sem peso de maldição, de segredo, de poderes celestes, uma mulher com capacidade de amar e ser amada.
– Odeio isso, não lhe mostrar o que sinto. _ Juliette diz, fazendo a morena sorrir, lhe dando um selinho em seguida.
– Não precisa mostrar dessa forma, eu posso ver em seus olhos.
O cupido ainda não sabe o porquê daquilo, de ter outra chance como aquela, pode sentir o quanto o amor de Yasmin é verdadeiro, sente-se impotente, porque sabe que em meio ao sentimento tão bonito existem as consequências, uma delas é a morte, torce para que o anjo não relacione amor com sacrifício, pois se isso acontecer, não matará apenas Miguel, mas também qualquer um que ousar impedi-la.
– Sentimentos transmitidos pelo olhar são os mais sinceros, eles nunca mentem. _ Yasmin diz. E é verdade, se elas comprovarem aquele amor, então o sentimento é verídico.