Tálaga entra no quarto da sobrinha, rapidamente, Sofia que está deitada se assusta, estava dormindo, mas entende que tem algo errado.
– O que houve?
– Precisamos ir embora daqui.
– O que? _ Nesse momento a garota se levanta, encarando a tia. – Não, como assim?
– Rápido, Sofia, precisamos ir embora. _ A bruxa mais velha começa a colocar todas as coisas da sobrinha na mochila, o que deixa Sofia mais nervosa.
– Tia, para. O que está acontecendo? _ Tálaga que tem a respiração acelerada, para o que fazia e encara a menor.
– Miguel, o Arcanjo Miguel está aqui e tenho a impressão que minha casa virará uma sala de reunião dos filhos de Deus. Lúcifer, Rafael e Gabriel estão a caminho, temos que sair daqui o mais rápido possível.
Mesmo sem saber o que estava acontecendo, Sofia só tem uma certeza naquele momento, sua tia está coberta de razão, quanto mais longe estiverem, melhor será.
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Rafael e Gabriel se aproximam do irmão mais velho, fazem séculos desde que o viram pela última vez, porém seu ar superior e energia negativa ainda estão presentes, sentem que nem a reclusão fez o arcanjo se arrepender dos seus atos. Isabel que está mais atrás impunha sua espada, pronta para a batalha, assim como Roman que está ao lado de Lúcifer.
– Calma, Roman, nada de batalhas hoje, ainda não é a hora.
O senhor do inferno diz, brandamente, fazendo seu guerreiro recuar, porém o olhar do demônio não sai de Isabel, pois ele sabe que se uma batalha acontecer ali, aquela será a sua oponente.
– Lúcifer.
Rafael fala o nome do irmão, vagarosamente, foram séculos sem vê-lo, agora estando frente a frente com o d***o que um dia foi seu irmão mais querido, é algo no mínimo incômodo.
– Meus irmãos, quanto tempo! Sentiram minha falta? _ O tom de brincadeira do arcanjo ainda é o mesmo desde o dia que se viram pela última vez, quando seu Pai o trancou na jaula.
– Não é hora para brincadeira, Lúcifer, não consegue entender a gravidade da situação? Tudo que conhecemos pode ser destruído. _ Rafael tenta não se alterar, mas é quase impossível tendo aquele ser na sua frente.
– Tudo que conhecemos? O que seria isso? A humanidade da qual despreza os preceitos do Pai? Seres sobrenaturais que se deixam levar pelos pecados humanos? Nós? Não tente usar esse seu discernimento premeditado comigo. Evitemos a perda de tempo. Eu não tenho nada a perder, Rafael, já me foi tirado tudo. Não tenho opção, se ela escolher vocês, me colocarão naquela jaula de novo, então que se f**a tudo isso. Nosso Pai nos colocou em prova, quer saber o que eu acho? Ele está morrendo de medo em ter que escolher, porque Ele vai ter que escolher, ou somos nós, ou são os seus filhos terrestres, e eu tenho lá minhas dúvidas se seremos essa escolha.
A voz de Lúcifer já fazia a sua energia emanar pelo seu corpo, o céu que estava escuro pelo anoitecer, piora, agora a neblina e raios faziam o ar ficar malévolo, assim como é a aura do arcanjo.
– Você não conhece o nosso Pai, você não sabe de nada, Lúcifer. _ Pela primeira vez Gabriel se manifesta.
– Sua compaixão te cega, Gabriel. Olhe para nós, a ira, a compaixão, o discernimento e a liderança, uma combinação perfeita não acha? Ele nos criou para sermos seus leais guerreiros, os lendários arcanjos de Deus, mas quando houve descontrole o que Ele fez? Expulsou seu filho mais velho, fez do segundo seu líder, incapaz de pensar por si só, talvez agora Miguel entenda todos os saberes da vida, o mundo humano é viciante, irmãos, sedutor, mas também é perigoso. Nosso Pai sabe disso, por esse motivo Jasmim existe, ela vai nos m***r se assim Ele quiser. Miguel fez uma coisa certa em toda a sua vida, mesmo que inconsciente, ele a mandou para a Terra, agora ela sente, ela decide. _ O arcanjo mais velho começa a gargalhar. – O desespero de Deus não é por medo de uma batalha entre nós, meus irmãos, seu desespero é porque Ele não vai controlá-la, ninguém vai.
Gabriel e Rafael se encaram, iriam rebater a colocação de Lúcifer, mas escutam um grito alto, tão alto que fez o tempo parar.
– Ela não vai aguentar a presença de todos nós agora, seu corpo humano vai ser destruído. _ Rafael diz, encarando o irmão mais velho.
– Então acho melhor vocês irem para bem longe daqui. _ E assim desaparece da frente dos irmãos, mas os arcanjos sabem bem para onde Lúcifer foi.
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Yasmin aprendeu da primeira vez, ela chega perto de Juliette, mas não a toca, chama por seu nome, porém não obtém resposta, os gritos ficam cada vez mais fortes e sôfregos, não importa o que está acontecendo, o anjo sabe que se continuar a ruiva morrerá.
– Faça alguma coisa. _ Ela grita para seu superior.
Miguel que está ao lado das duas tem os olhos fechados, na sua consciência conversa com Rafael, exigindo que seus irmãos saiam, o novo líder do céu concorda, não mais por obediência, mas porque ele sabe que se aquele corpo de Juliette desfalecer, seria difícil encontrar outro, principalmente encontrá-la se isso acontecer, mas avisa que Lúcifer está a caminho, preparação é necessária.
– Ela vai melhorar.
O arcanjo diz ao abrir os olhos, assim que não sente mais a presença dos dois irmãos ele observa o corpo de Juliette voltando ao normal, o cupido se ajoelha no chão, apoiando as mãos no piso amadeirado.
– Juliette.
Yasmin chega perto, sabendo que agora pode tocá-la. A respiração da ruiva está acelerada, ela ainda pode sentir a energia por seu corpo, aos poucos volta ao normal, mas uma coisa é certa, seja lá o que ela é, se altera pela presença dos arcanjos, só ainda não sabe se isso é bom ou r**m.
– Estou bem.
O suor escorre pela testa da mulher, com a ajuda de Yasmin consegue elevar o corpo e ficar ereta. Porém assim que fica de pé e olha para cima, seu corpo começa a tremer de novo, porque não tem apenas um arcanjo na sua frente. Os dois filhos de Deus mais velhos.
– Que m***a está acontecendo comigo? _ O cupido grita novamente, mais uma vez a energia volta a emanar por cada fibra do seu corpo.
– Concentre-se no poder, Juliette, se permitir ele vai te dominar. _ Miguel diz, ainda sem encarar o irmão.
– Não... Ah, mas que... Yasmin, se afasta, por favor, se afasta.
A morena faz isso, logo observa o corpo da ruiva se contorcer para trás. Ela grita alto, tão alto que a Bahia toda estremece. Miguel e Lúcifer observam a cena, tendo a certeza de que precisam tê-la dos seus lados, se apenas com eles dois ali, ela manifesta toda aquela energia, quando estiverem os quatro juntos, o ser será imbatível. Foram segundos de dor e reflexão para Juliette entender o que deve fazer.
Não se trata de se acalmar, como pensou que fosse, se trata de equilíbrio entre sua energia com as dos arcanjos, seu corpo tem que entender que as auras ocuparão o mesmo espaço, sendo ela a pessoa que precisa colocar ordem na situação, aquilo é novo, mas sua inteligência e força lhe proporcionam a capacidade de manter o controle.
– Isso, irmã, apenas se deixe sentir.
As palavras de Miguel, apesar de óbvias, fazem o corpo da ruiva se acalmar, ela quer entender o porquê se altera tanto pela presença dos arcanjos, mas ao mesmo tempo quer sair dali, sabe que ter aqueles dois em um mesmo lugar não é uma boa ideia para ninguém, principalmente Yasmin que está indefesa. Quando sua respiração volta ao normal e consegue ficar de pé, se aproxima mais da morena e segura a sua mão.
– Você tem que sair daqui.
– Não irie a lugar nenhuma sem você. _ O anjo encara o cupido que suspira.
– Yasmin.
– Não! _ Juliette aperta sua mão, odiando a teimosia da mulher nesse instante.
– Não querendo quebrar o clima, mas sabem que podemos ouvi-las, certo? Sentimentos humanos são uma confusão mesmo, não é, irmão? _ Lúcifer disse.
Pela primeira vez Miguel encara o irmão mais velho, esse que tem um sorriso no rosto, pois aquela pergunta retórica se baseia na atual condição de descoberta do arcanjo, Miguel queria negar, mas agora sabe a complexidade de sentir, seja amor ou ódio, sentimentos são uma verdadeira incógnita e cada vez mais entende o amor que o seu Pai tem pelo livre arbítrio e a inveja que seres celestes desenvolvem pelos humanos terem essa capacidade, mesmo que o preço por ela seja tão caro, a sua entrada no céu depende de escolhas e os seres humanos vêm mostrando que não tem o discernimento necessário para desfrutar dessa dádiva.
– Samael.
– Como o meu nome sai doce da sua boca, mas prefiro que me chame de Lúcifer, sentiu saudades? Ou continuaria a me deixar naquele lugar h******l? Você não sabe como é solitário, confesso que senti falta dessa sua cara de quem quer me m***r na primeira oportunidade, mas olha só, você não pode!
– Você não será protegido para sempre por nosso Pai.
– Eu sei, sei bem, Deus nunca mataria um filho, não é? _ Eles se encaram intensamente, a razão do Pai sempre foi posta nas conversas dos dois. – Desculpe dizer isso, querido irmão, mas... _ Agora Lúcifer encara Juliette que o olha de volta. – Ele não matou seus filhos, mas mandou alguém para fazer algo muito pior, nos condenou à submissão.
– Do que...
Antes que Juliette complete a sua pergunta, seu corpo, assim como o de Yasmin desaparecem da frente dos arcanjos, reaparecendo em uma casa próxima dali, um esconderijo que Tálaga deixou pronto para ocasiões como aquela.
– Não, não, não, ele ia me dizer, Lúcifer ia me falar.
O cupido começa a gritar assim que percebe o que aconteceu, ela notou no olhar do arcanjo que ele falaria a verdade. O corpo da bruxa é seguro pela sobrinha, o feitiço tirou todas as suas forças.
– Eles iam nos m***r, Juliette. _ Yasmin tenta acalmar a amada, toda aquela situação só fez a ruiva ter uma certeza, muito mais que antes, ela precisa encontrar o corpo de Safira.
– Você tem razão, me desculpa.
Ela puxa o corpo da morena para um abraço, beijando o topo da sua cabeça. As quatro mulheres sabem que os próximos passos se resumiam na missão de trazer Safira de volta.