Tem coisas que nunca mudam. Inclusive Carlos. Ele entrou na minha casa, no sábado, sem ser convidado. Minha mãe, é claro, recebeu ele, toda efusiva e fez café para ele. Ele estava sentado à mesa, comendo do nosso pão e tomando do nosso café. Como ele se atrevia?
- Carlos, o que você está fazendo aqui? - perguntei, entredentes, entrando na cozinha.
Amarrei meus cabelos na altura da cabeça, em um coque e ajeitei a blusa. Eu havia acabado de acordar. Eu não queria que ele ficasse me analisando. Ele se virou para mim, com um sorriso inocente. Carlos era o típico cara de academia. Forte, musculoso, com cabelos escuros e olhos verdes. A primeira vista, qualquer mulher iria se derreter por ele. Ainda mais com suas palavras bem colocadas. Ele tinha lábia. Mas, depois, era somente chorar. Porque ele não tinha só uma na lista de contatos. Ele tinha várias.
- Poxa, Endrika, só vim tomar um café - ele disse, parecendo triste com meu olhar severo - E ver você né. m*l te vejo. Estou com saudades. Você está mais bonita. Fez alguma coisa diferente?
E ele estava tentando me bajular, como sempre.
- Carlos, não tô com saco para conversar furada. Dá o fora da minha casa - disse entredentes, apontando com o dedo para a saída - Agora!
Ele encolheu os ombros.
- Não faz isso, gata - ele pediu - Só quero falar com você. Não faz assim.
Ele iria ver o que iria fazer. Puxei a xícara e o prato da mesa e coloquei na pia. Ele me fitou boquiaberto.
- Sai, já! - gritei.
Ele se levantou, me encarando com os olhos arregalados
- Tá bom. Tô indo - ele disse, com as mãos erguidas para cima - Depois a gente conversa, então.
Ele saiu da cozinha e eu o acompanhei de perto. Abri o portão e ele saiu, ainda me olhando com tristeza. Tranquei, com o cadeado e bufei. Depois, fui atrás da minha mãe, que estava saindo do banho.
- Mãe, por que você deixou o insuportável do Carlos entrar? - exigi saber.
- Filha, ele sempre foi bom genro. Não sei por que está brava - ela disse, em um tom inocente.
- Mãe, ele não foi bom. Não pra mim. Me traiu com metade do bairro - quase gritei de raiva.
- Filha, se acalma. Ele só veio tomar um café comigo.
- Não, ele veio é falar comigo, mãe. Ele está aqui para xeretar - eu acusei - Não é para deixar esse safado entrar. Por todos os santos!
- Tá, filha. Não fica brava. Quando você grita, dói minha cabeça - ela disse.
Sempre tão amável e conciliadora. O problema disso era que as pessoas usavam ela, por ser tão boa. Por isso, eu m*l fazia amigos. Não chamava eles para minha casa. Eles nem conheciam minha mãe direito. E eu não iria me envolver com mais nenhum homem. Meu histórico era péssimo de ex namorados. E amigos, eu tive vários que pegaram dinheiro emprestado e nunca devolveram. Ou sujaram meu nome, ou me difamaram. Então, para que eu ia ser boa? Não ia ser r**m também. O que era justo era justo. Mas, nada de ficar abrindo a porta da minha casa e da minha alma. Ninguém iria me conhecer de verdade. Apesar de adorar Ana e Miguel, eles também não me conheciam de verdade. A verdadeira Endrika. E pensando neles, lembrei do meu compromisso, no bar do Alemão. Nós iriamos a um happy hour. Muita gente da empresa estaria lá. E nós iriamos comemorar mais um mês de vendas que rendeu muito. O pessoal de Marketing merecia. O pessoal de vendas fora fera aquele mês de fevereiro. Então, nós mereciamos isso.
A noite, é claro, começou uma garoa fina. Na verdade, a tarde toda foi cinzenta e nublada. Nem chegou o outono e já estava aquele clima estranho. Não era frio, mas não era calor. Tinha que sair de casaco, depois do meio dia, tirar. E não esquecer, é claro, do guarda chuva. E lá ia com esses itens dentro da bolsa.
Peguei um Uber, porque eu merecia ia para o bar de carro, não de metro, nem de condução. O motorista não parava de falar a viagem toda, o que me deixou com a cabeça explodindo.
Dei graças a Deus, quando desci. Chequei meu celular e vi que não havia mensagens de Nicolas. O dia inteiro ele estava quieto. O que era bom. Talvez, nossa conversa tenha dado resultado e ele tenha percebido o quanto era controlador, grosseiro e e******o. Porque o restante da semana ele fora complacente. Talvez, um pouco condescendente. Não ergueu a voz e eu também não provoquei. Sexta-feira, é claro, ele voltou era uma da manhã, fedendo a perfume barato e álcool. Eu apenas peguei um Uber e fui para casa, sem olhar na cara dele. É claro que ele mandou mensagem para mim, perguntando se ele fez algo errado. Nem fiz questão de responder.
- E ai, gata? - Miguel disse, quando me viu entrar no bar.
Me aproximei do balcão do bar e trocamos beijos no rosto. Ana estava ali e fizemos o mesmo. Estava deslumbrante com um vestido colado no corpo, de cor vermelha. Tomara que caia e salto agulha. Eu não fiz diferente. Estava com um vestido tubinho, preto e salto alto. E com os cabelos soltos nos ombros. Miguel não parava de olhar para mim, daquele jeito que todo homem faz. Analisando demais.
- Miguel, tira o olho - eu disse, sem ficar brava.
- Tá difícil hoje. Vocês querem me matar - ele disse.
- Isso aqui não é pra você, meu bem - Ana disse, rindo - É para nós. E para quem chamar nossa atenção hoje.
Ele suspirou, derrotado.
- Desse jeito não dá. Eu nunca me dou bem - ele desabafou.
- Miguel, melhor nem pensar em nós como opção - eu disse, colocando a mão no ombro dele - Você é nosso amigo. Ia ser estranho ver você, se uma de nós fosse para a cama contigo.
Ele assentiu.
- Até faz sentido. Eu normalmente não quero nada sério. Não depois da última vez que apenas levei galho - ele comentou.
- Então, estamos juntos - eu disse - Hoje vamos apenas beber, comer alguma coisa, jogar conversa fora. E se rolar com alguém, rolou. Combinado?
Meus amigos assentiram.
- Então, vamos para um rodada de cerveja - eu disse.
E jogamos conversa fora, enquanto tomamos nossa cerveja, em uma mesa. O bar estava lotado. Havia música ao vivo. Sertanejo universitário. Não era minha praia, mas era a dos meus amigos. E todo mundo estava feliz e eu também estava, depois de uma semana estressante. O pessoal do setor de Marketing chegou, junto com a Mariane. Ela já veio pra perto da gente. Ficamos todos juntos, ou pelo menos tentamos ficar. Todo mundo me perguntava como eu aguentava o chefe maluco. E eu dizia que estava dando meu jeito de amacia-lo.
- Cuidado com o que diz - Ana disse, no meu ouvido - O pessoal está falando que você dormiu com ele.
- Que? - exclamei, irritada.
Pelo barulho no bar, ninguém ouviu minha indignação.
- Não grita, Drika - ela pediu - Eu estou sempre defendendo você. Não pense que não estou de cara. Nem o Miguel comprou essa. E falando nele, olha lá - ela apontou.
Miguel estava dando em cima de uma guria, perto do balcão, onde serviam as bebidas. Era uma loira alta, curvilínea. Era de parar o trânsito, como alguns dizem. Mas, ela não parecia estar gostando da conversa. Estava se afastando dele, aos poucos.
- Ela está conversando com ele por pena - eu comentei - Miguel precisa parar de falar sobre seu trabalho. Principalmente sobre jogos. Ele age como nerd.
- Ah, eu gosto - Ana comentou - Eu as vezes jogo com ele RPG ou LOL.
- Ana, você gosta. Aquela garota com certeza não - eu esclareci - E desde quando vocês estão tão íntimos?
Ela deu uma risadinha forçada.
- Oras, desde sempre - ela tomou um gole da sua cerveja.
- Sei - eu disse, balançando a cabeça.
Aqueles dois já se olhavam no setor, desde que se viram pela primeira vez. Mas, nunca aconteceu nada. Ou eu não sabia de nada. Como Ana já havia dito, eu era muito inocente as vezes.
A noite foi acontecendo, de repente. Estávamos na pista, dançando. Já tínhamos bebido muita cerveja, conversado e eu Ana ficamos ali, dançando uma com a outra. Minha perna doía, meus pés também, mas estava me divertindo. Nem ligava para o que estavam tocando no palco. Até que Miguel roubou Ana de mim. E o cara que trabalhava no setor de TI me puxou para dançar. Edgar era lindo, com olhos castanhos e cabelos escuros. Pele clarinha e rosto sem barba. Ele tinha uma pegada firme, que estava me deixando inebriada. Dançamos colados um no outro e não conversamos. Eu não era de fazer aquilo, mas acho que era o álcool que falou mais alto. Até que ele me beijou. E que beijo foi aquele. Eu nem sabia que se beijava assim. Seu toque me eletrizava. Ele descia a mão pelas minhas costas, acariciando minha nuca com a outra mão. Eu já tinha perdido meu raciocínio com aquele toque. Então, foi ai que aconteceu. Ele me levou para o banheiro masculino. Nem tinha fila, como o das mulheres. Ninguém parecia ligar para nós dois. Até que eu vi um homem lá dentro. Quem eu não esperava ver.
Nicolas me olhou com o cenho franzido, lavando as mãos e olhou para Edgar. Por um momento, eu não sabia o que fazer. E acho que se passou o mesmo com Edgar. Eu puxei ele para fora do banheiro.
- Vamos para pista, Edgar - pedi, puxando ele, por entre as pessoas.
- p**a merda. Era o CEO - ele disse - Eu nem sabia que ele tinha sido convidado. Será que ele sabe que eu trabalho lá?
- Eu espero que não - disse, cruzando os dedos.
Era justa causa na certa. Funcionários não poderiam se envolver. Mas, era só ser discreto.
- Desculpa, Endrika - ele disse, ainda segurando minha mão, quando a gente encontrou a saída para a parte do fumódromo - Eu não quero arrumar encrenca para você.
- Eu sei. Fica tranquilo - eu disse. Fiquei enjoada pelo cheiro de cigarro ali.
Tinha muita gente fumando.
- Escuta, não quero a noite acabe. O que acha de irmos lá para casa? - ele me olhou, malicioso.
Eu não era de ir para casa de ninguém. Não tinha sexo casual. Isso não funcionava comigo. Eu sempre chorava quando saia com um homem que não sentia nada. Mas, eu já tinha conversado algumas vezes com Edgar. Eu achava ele muito atraente e inteligente.
- Tá legal então - concordei.
Ele me deu um selinho, sorrindo.
- Eu sempre quis ficar com você - ele disse - Você sempre foi simpática e adoro conversar com você.
Sorri com seu comentário.
- Também acho a mesma coisa - eu disse. E agradeci mentalmente por ele não dizer: Você é gostosa, quero te comer. Aquilo me irritava muito.
- Então, vem. Vamos para o estacionamento - ele disse, me puxando pela mão.
Saímos do fumódromo, de mãos dadas. Eu estava um pouco ansiosa pela noite que teria com ele. Eu não sabia se iria gostar, ou se iria fugir dele, depois que tivemos alguma relação intima. Eu sempre fazia isso. Tentava algo, mas fugia dos homens. Eu tinha medo de me envolver. Já fui traída tantas vezes que era difícil confiar. E relação séria era o que eu não queria mais. Mas, estava afim de Edgar. Aquela noite ele tinha me conquistado.
Estávamos no estacionamento, quando meu celular vibrou na bolsa de alça preta. Peguei o aparelho e vi a mensagem. Meu estomago embrulhou.
Não sei se você sabe, mas se envolver com funcionários pode ser um problema, Endrika.
Havia uma foto minha, com ele, se beijando na pista. Mas, que grande filho da p**a. Eu queria matar Nicolas. E ele continuou mandando mensagem.
Quero ver você, aqui fora. Estou esperando do lado de fora do bar. Vamos conversar.
Mas, o que ele estava pensando? Digitei freneticamente a mensagem, pedindo para Edgar esperar. Ele me olhou com o cenho franzido.
Eu estou indo para casa. Não dá para ir te encontrar. Já estou a caminho. Nos falamos segunda-feira.
Ele respondeu em seguida.
Então, encontro você lá na sua casa.
Mas, o que ele tinha na cabeça de jerico dele?
- Edgar, não vai rolar hoje – eu disse.
A expressão dele murchou. Ele me agarrou pela cintura, parecendo triste.
- Por que não? Poxa, te quero tanto – ele disse, beijando meu pescoço.
Meu corpo inteiro se arrepiou pelo toque nos seus lábios
- O chefe nos viu. Mandou mensagem e tem uma foto nossa se beijando.
- p**a, que merda – ele disse, se afastando.
Mostrei a mensagem e a foto.
- Mas, esse cara é insuportável – ele disse, entredentes – É um playboy i****a, que só sabe enxergar o próprio umbigo.
- Eu sei – eu disse, suspirando – Mas, eu vou até ele, antes que dê mais repercussão isso. Fica pra próxima nosso encontro.
Edgar assentiu, me puxando para um beijo demorado. Ele se afastou, sorrindo.
- Eu te vejo amanhã? Que tal? – ele perguntou.
Fiz uma careta. Não queria avançar tanto. Já estava mudando de ideia. E álcool já estava saindo do meu sistema. Estava conseguindo pensar melhor e não queria ir pra cama com alguém, ainda. Já fazia seis meses, desde o último cara. Mas, ainda não estava preparada.
- Não quer? Prometo que é só um encontro. Bem tranquilo, sem sexo – ele disse, pegando minha mão e beijando. Igual o que Nicolas fez. E fiquei pasma com aquela comparação.
- Tá. Onde você quer me levar? – perguntei, afinal, não ia na casa dele. Nem pensar.
- Vamos para o parque, ok? No Jardim Botânico? Pode ser? – ele pediu, com olhos, implorando.
Até que era fofo.
- Tá legal – eu aceitei.
- Maravilha – ele me beijou de volta – Prometo que vai ser bom. Você vai gostar do passeio.
- Tudo bem – eu assenti.
Nos separamos e segui para dentro do bar, indo para saída da frente. Nicolas estava ali, com o celular na mão, no meio de muitas pessoas, que bebiam, conversavam e fumavam. Ele parecia um anjo n***o, com seu blazer preto, camiseta preta e calça jeans escuro, rasgada no joelho. E usava botas pretas, com cadarço. Ele me olhou com os olhos pegando fogo. Ele parecia irritado, muito irritado.
- Estava indo para casa? – ele perguntou, irônico.
- O que é que você tem com a minha vida mesmo? – perguntei, no mesmo tom, me aproximando dele.
- Eu não...- ele respirou fundo, passando a mão pelos cabelos dourados – Eu quero te matar as vezes, sabia?
- Eu também – eu disse.
- Bom, temos algo em comum, então – ele me provocou – Agora, vamos. Eu vou te levar para casa.
Ele me estendeu a mão. Eu ignorei.
- Não sei qual é sua Nicolas. Não tenho que obedecer ordens fora do trabalho.
- Não teste minha paciência, p***a! – ele praguejou.
Eu pisquei algumas vezes. Seu tom era autoritário. Eu diria até que dominador. Ele estava sendo possessivo em relação a mim, ou era impressão minha?
- Nicolas, quanto você bebeu? – perguntei. Não sendo irônica, mas ele só poderia estar bêbado, não é?
Ele gargalhou, sem humor algum.
- Venha conferir você mesma – ele atirou.
Eu me aproximei dele, me erguendo na ponta dos pés. Ele tinha um metro e noventa. Comparado aos meus um metro e sessenta, era muito. Não senti cheiro de álcool, mas tinha a cintura agarrada por ele. Por alguns segundos, nos encaramos. Eu parecia reconhece-lo e ele me reconhecer. Senti um frisson na barriga pela proximidade. E ele abaixou a cabeça, de repente. Seus olhos estavam desfocados, olhando diretamente para minha boca. E eu estava mergulhando naquele mar, que eram seus olhos. Estava maravilhada com a matizes de cores azuis. Pareciam azul com espuma do mar. Até que o nosso transe findou, pelo barulho de copo sendo quebrado no chão e alguém praguejando ao longe. Eu me soltei dos seus braços e percebi que estava tremendo. Com a respiração errática.
- Eu...- ele disse, atordoado, mas se calou.
Passei a mão pelo braço, me sentindo fria, arrepiada.
- Eu vou entrar, Nicolas – eu disse, dando as costas para ele.
Senti sua mão agarrar meu cotovelo. Sua boca se recostou ao meu ouvido. E eu iria perder meu juízo, naquele instante.
- Me deixe te levar para casa. Está tarde – ele pediu.
- Não é tarde para meus padrões – eu disse, com a voz tremula.
- É duas da manhã, Indrika – e de novo, ele errou meu nome. Mas, dessa vez, não fiquei brava. Na verdade, estava com uma vontade incontrolável, quase insana, de me recostar a ele e sentir seus braços em volta da minha cintura. Eu queria dançar com ele, igual eu fiz com Edgar, mais cedo.
- E qual é o problema? – perguntei.
- O problema é que eu não quero que nada de m*l aconteça a você – ele disse, acariciando meu braço, com a mão livre. A outra, passou pela minha cintura. Engoli a seco. Aquele toque se tornou intimo demais – Vamos, vem comigo. Sua mãe deve estar preocupada, também.
E foi então, que despertei. Minha mãe. Ela deveria estar acordada ainda. Eu era mais velha, maior de idade. Com vinte e cinco anos, mas eu sempre seria o tesouro dela. Seu bem maior.
- Ok – eu disse, me afastando do toque dele e me virando para encara-lo – Pode me levar.
Ele sorriu, triunfante.