Capítulo 3

1307 Palavras
Eu fiz o café coado para ele, do jeito que eu gostava de tomar. Nem tão forte, mas não tão fraco. E se ele pensava que tínhamos torrão de açúcar, estava bem enganado. Era adoçante ou açúcar no açucareiro. Não estávamos na maldita Inglaterra, mas eu sabia que ele era excêntrico com essas questões de ser bem servido, principalmente com xicara, pires e colher que não estivesse gasto. Ele já olhara torto para mim, quando a xícara estava trincada, na parte da manhã. Aquela ia para o lixo. Mas, eu só coloquei a xícara mais para o fundo do armário. Depois, eu jogava fora. Coloquei tudo em uma bandeja e rumei para a sala dele. Deixei minha xícara lá e abri a porta dele, antes equilibrando a bandeja e dando uma batida na porta com o punho fechado. - Entre – ele disse. Mais uma vez, em uma vídeo conferência. Para meu alivio. Deixei a bandeja sobre uma mesa, encostada na parede, perto da porta e peguei a xicara com o café, em cima do pires. Deixei na mesa dele, com guardanapo. Sai da sala com a bandeja e fechei a porta. Eu já havia adoçado o café. Tentei fazer o melhor possível. Não deu cinco minutos e meu telefone tocou. - O café está sem açúcar. Traga mais – ele pediu, desligando. Revirei os olhos, querendo trucida-lo. Eu tinha vários e-mails para responder, que ele ignorava, em sua caixa. Principalmente os da sua mãe. Ela exigia vê-lo. E exigia que ele se casasse de novo. A mãe dele deveria ser tão controladora quanto ele. Deus me livre de me casar com um homem como ele. Entrei na sua sala, se bater e ele continuava discutindo sobre preço de produtos, tentando convencer quem quer que fosse, do outro lado da tela. Peguei sua xicara e ele nem me olhou. Voltei na cozinha, adoçando mais um pouco. Um pouco demais. Voltei de novo para a sala dele e deixei sobre sua mesa. Ele me pediu para esperar, com um aceno da mão. E esperei. Contando os minutos para ficar bem longe dele. Nicolas tomou o café e fez um careta. - Um segundo – ele pediu para quem quer que fosse e fechou a tela do computador. Ele sorriu para mim, mas seus olhos não – Eu não sei o que a senhorita pretende com esse café, mas está com um gosto intragável. Doce demais. Respirei fundo. - Eu não sou a copeira – eu retruquei – Mas, se não está bom – acrescentei, pois ainda não podia ir embora daquele lugar – Eu vou refaze-lo. - Faça isso, senhorita Indrika – ele disse, sério – Na verdade, é melhor não fazer – ele disse, mordendo os lábios – Seu café é muito forte. Tem chá? – ele perguntou, com um sorriso afável – Eu adoraria um chá, com leite, por favor. Eu abri e fechei a boca. Ele mudou completamente o discurso. Parecia bravo, mas sorriu para mim, tão amável. Que eu achei que ele tivesse dupla personalidade. Cara maluco. - Sim, senhor. Eu vou trazer. Estava indo para a porta, quando ele me chamou de volta. Eu iria tacar meu sapato na cara dele em algum momento. Estava cansada das suas exigências e do vai e vem. - Só não adoce, por favor – ele pediu – A senhorita deve estar apaixonada por deixar a bebida tão doce. - Sim, senhor – E depois, vou jogar o açucareiro na sua cabeça, pensei. Eu literalmente não havia nascido para ser mandada. Mas, vida de proletariado era isso. O chefe manda, a gente obedece, se não quer perder o emprego. E como eu queria ser mandada embora. Nicolas estava testando minha paciência, quando retornou com o chá e ele disse que estava frio. Pediu para esquentar. Depois, pediu para comprar croissant e biscoitos. E o pedido mais sinistro. Pediu para comer ali com ele, na sala. - Eu nunca tenho companhia no almoço, ou estou sem tempo – ele comentou – E gosto de conversar nessas horas. - Isso é o pedido do meu chefe ou do meu colega de trabalho? – perguntei, tensa. - Se eu mandar, a senhorita vai obedecer? – ele sorriu, malicioso. Teve a capacidade de sorrir. Engoli a seco. Eu precisava desviar o olhar daqueles olhos azuis, ou ia acabar perdendo a cabeça. - O senhor me confundi – eu disse – Primeiro, me ordena como um déspota. Depois, me pede gentilmente a comer com você. Ele riu. Foi uma gargalhada gostosa de se ouvir. Quase baixei meu lado defensivo, quase. - Vai, Indrika, senta aqui comigo – ele pediu – Estou pedindo como alguém solitário. Eu não acreditava que havia ouvido isso. Mas, fiz o que ele pediu. Peguei meu café e sentei a frente dele. A cadeira de couro parecia ter alguma coisa errada. Eu me remexia, como se tivesse espinhos nela. Mas, estar na sala do seu chefe, tomando um café da tarde, ou chá da tarde, era inusitado. - Me diga, conhece algo de São Paulo? – ele perguntou, tomando o chá dele. Depois, colocou mais açúcar. Ele ia ter uma diabetes – Perfeito - ele disse, olhando para a xicara. E seu rosto suavizou. Ele parecia mais novo. E eu poderia jurar que seria ótimo ser amiga dele. Ele tinha um sorriso fácil. - Eu conheço sim. Por que? – respondi, receosa. - Ah, é que não conheço nada do seu país. Eu m*l vinha para cá, quando meu pai era vivo. Então...- ele parecia pensativo – Pensei que pudesse me mostrar. - Mostrar? – perguntei, atônita – O senhor não quer um guia turístico? Eu posso encontra-lo. Ele riu, balançado a cabeça. - Não, quero que seja a senhorita. Gostei de você – ele disse, olhando para mim de forma desconcertante – Na verdade, fiquei muito feliz por ver que a senhorita sabe falar inglês e me entende. Tentaram várias secretárias para mim, esses três anos. Elas foram ótimas, mas são como robôs, sabe? Não são tão insolentes como você, mas a última quase me matou. E conversar era difícil. Elas pareciam fugir de mim. E você não está fugindo. - Talvez, porque o senhor me ameaçou de me demitir – alfinetei. Ele mordeu os lábios, com um olhar maroto. - Culpado – ele disse – Mas, eu não gostaria que se demitisse. Nem que saísse do seu cargo. Me dê uma chance. Tenho certeza que não vai se arrepender. Pisquei algumas vezes, duvidando disso. Eu iria me arrepender em breve. - E se eu não quiser? - Bom, eu vou ficar um pouco contrariado – ele comentou, estalando a língua – Seria melhor que aceitasse minha oferta. Não estava gostando da nossa conversa. - O senhor está me forçando a ficar. E isso e antiético. Gostaria de voltar para meu cargo. Ele me fitou, com os olhos estranhos de novo. E percebi que me avaliava mais uma vez, como um predador. - Eu acho que não. Eu sei que você precisa do plano de saúde. Deve ser bem importante, pelos gastos que tem. Fiquei pasma com sua argucia. - Andou procurando saber sobre mim? Ele assentiu. - Eu queria saber quem era a senhorita, antes de contrata-la. Saber se era de confiança. E conhecer mais sobre sua vida. Nada que o RH não possa me fornecer, é claro – Mesmo assim, achei ele um stalker. Ele olhou para o relógio de pulso dele, com pulseira marrom – Já está ficando tarde. Tenho outra reunião. Se importa de levar tudo isso para a cozinha? Obrigado. Ele abriu o laptop e não me deu mais atenção. Levei os salgados e doces que comprei, para a cozinha, além das nossas xicaras. Queria arrancar a cabeça dele fora. Por um momento, ele parecia doce e no outro, um maldito manipulador.
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