Eu consegui revisar alguns pontos do TCC em duas aulas, o restante fiquei de ver durante a semana, não havia mais nada a ser feito. Em menos de duas horas eu não conseguiria editar todo o conteúdo. Por mais que ainda estivesse zangada com Nathan, por ter me feito tanta raiva. Eu também fiquei estranhamente curiosa.
Queria, mais do que tudo, saber por que ele me tratou tão amigavelmente há pouco. E, ainda mais, porque reparou em mim, a ponto de notar meu apego ao chaveiro.
Entretanto, eu não tive tempo para questioná-lo, pois o professor não me dirigiu a palavra até o final da aula, apenas deu um visto no meu trabalho e me liberou. Também, com tantas meninas marcando em cima, não poderia dar brecha. Além do que, eu já tive que aturar os olhares de todas, só porque Nathan estava falando a sós comigo. Eu hein, sério que elas se interessavam por ele? Cara, certo, precisava admitir que o professor era bonitão e aqueles olhos eram incrivelmente atraentes. Mas daí a morrer de amores por ele, como todas aquelas garotas faziam, já era um pouco demais!
Tinha um outro professor, na turma de letras, que era bem mais o meio estilo: cabelo platinado, olhar marcante e não era um grosso. Só que este claramente não teria interesse algum em mim. Eu acho que o Kaleb devia ser bem mais velho que o Nathan, ou seja, não olharia para uma garota da minha idade. Não importava, ele era apenas meu amor platônico da faculdade.
— Droga! — resmunguei para mim mesma, ao tentar ligar o carro pela enésima vez.
Samanta sempre voltava de carona comigo; contudo, ela me deu um perdido e devia estar se pegando com aquele Samuel. Agora eu tentava a todo custo ir embora, sendo que meu carro fazia o favor de não funcionar!
Caramba, que dia mais infernal.
Sai do carro, decidida a ir de ônibus, só esperava que ainda tivesse ônibus àquela hora. Eu não morava tão perto da faculdade e só tinha uma opção de transporte além do carro.
Caminhava em direção ao ponto de ônibus, torcendo para que ele passasse logo, até avistar a silhueta de Nathan, vindo para o estacionamento da faculdade.
— Rafaela?
— Olha só, aprendeu meu nome. — ironizei e ele riu.
— Desculpe.
— Tudo bem, você não é o primeiro a ser babaca comigo. — resmunguei.
Nathan coçou a nuca.
— Eu fazia de propósito.
— O que?
— Eu gostava de te ver com as bochechas vermelhas de raiva, quando eu te chamava de Renata. — confessou um tanto envergonhado.
— Não estou acreditando nisso! — exclamei séria. — Você é o meu professor, deveria ser mais maduro do que eu, não o contrário.
Ele olhou para os pés, visivelmente arrependido.
— Desculpe, eu não sabia como chamar sua atenção.
— E por que você iria querer chamar minha atenção? — devolvi, sem entender nada do que estava acontecendo.
— Acho que eu já falei demais. — Nathan desconversou. — O que aconteceu com seu carro?
— Ele pifou. — Franzi o cenho pela mudança de assunto, mas não contestei. — Como sabe que eu vou embora de carro?
— Às vezes eu te vejo manobrando para sair do estacionamento. — ele olhou nos meus olhos e sorriu de canto.
— Ah, eu sou meio r**m nesse estacionamento apertado. — confessei a contragosto.
— Que nada. — Nathan contestou. — Você sai certinho.
— Bom, preciso ir, tenho que pegar o ônibus ainda. — Fiz menção de me afastar, só que ele tocou sutilmente meu pulso.
— Posso te dar uma carona, se quiser... — Deu de ombros.
— Você? — desdenhei.
— Eu.
— Por que isso, professor? — questionei, do nada ele começou a agir com educação comigo?
O que estava acontecendo?
— Porque... — iniciou inseguro. — Eu pensei bem em como tenho te tratado nesses dois meses, acho que não havia necessidade de tudo aquilo.
— Ah! — eu gargalhei feito uma desvairada. — Agora acha isso?
— Acho, inclusive, você pegou o caminho certo no TCC hoje. — Arregalei os olhos de surpresa. — É só continuar nessa linha de raciocínio.
— Espera, tem alguma câmera escondida aqui? — Nathan riu. — Eu fui pega em alguma pegadinha do campus? Tipo, o professor que elogia a aluna depois volta atrás?
— Não tem nenhuma pegadinha, você é talentosa, Rafaela. — Sua voz soou baixa e grave. — Só precisava se encontrar no texto.
— E me encontrei?
— Sim.
— c****e!
Ele uniu as sobrancelhas em confusão.
— Perdão?
— O senhor não sabe o que estou sentindo nesse momento, é quase um orgasmo intelectual!
Nathan ficou vermelho novamente.
Ué? Será que foi pelo o que eu disse?
— Peguei tão pesado com você assim? — questionou após o constrangimento inicial.
— Ô se pegou. — Coloquei a mão no coração bancando a dramática. — Estava quase desistindo de tudo e indo vender miçanga em alguma praia do Caribe.
Nathan riu de novo.
— Você é engraçada. — afirmou ainda mantendo um sorriso nos lábios.
— E você sorri. — observei curiosa.
— Eu não sou tão r**m quanto pareço. — defendeu-se demonstrando estar ofendido. — E, por favor, se não for pedir muito. Não me chame de senhor, faz com que eu me sinta um idoso caquético.
Eu que ri.
— Desculpe, é que não sei muito bem como chamá-lo fora da sala.
— Me chame só de Nathan, pode ser? — argumentou.
— Tudo bem então, Nathan. — experimentei, dando ênfase no nome, achando tudo aquilo muito engraçado e singular.
— Vamos? — ele indicou o carro.
Fiz que sim com a cabeça e o segui.
Ainda me sentindo estranha em minha própria pele. Que diabos aconteceu com esse ser humano para mudar da água para o vinho do nada? Chegamos e eu entrei em silêncio, passei o cinto de segurança e comecei a tamborilar os dedos no painel do carro.
— Aonde você mora? — A voz do Nathan me trouxe de volta à realidade.
— No Tatuapé, fica um pouco longe daqui. — expliquei, colocando o endereço no GPS.
Assim ficaria mais fácil para ele chegar.
— Vai todo dia embora sozinha? — Nathan deu partida no carro.
— Vou de carro, rapidinho eu chego. — ele assentiu. — Geralmente a Samanta vai junto comigo, só que hoje ela me deu um perdido.
— Eu a vi com o Samuel antes de vir pra cá.
— Pois é. — Fiz uma careta.
— Não gosta dele?
— Nada contra, nem a favor.
— Parece ser complicado ganhar sua simpatia, estou certo? — Nathan olhou de lado para mim, mas manteve a atenção na direção.
— Não muito, a menos que você ganhe minha antipatia de cara, aí fica meio difícil mesmo. — respondi displicentemente.
Nathan deve ter entendido como uma indireta.
— Como eu, né?
— Pode ser, você não fez muita questão de ganhá-la. — Fui sincera.
Ele soltou um suspiro.
— Ainda dá tempo de mudar as coisas? — ouvi em resposta.
— Por que isso agora? — indaguei, lembrando subitamente do que a Samanta me dizia.
— Eu só não quero mais que me veja como um carrasco.
— Certo, talvez ainda dê tempo então. — afirmei solicita.
— Que bom. — Senti até um quê de satisfação em sua voz.
Agora o bagulho ficou sério, o que diabos estava acontecendo aqui?
— E o seu estágio? - Nathan questionou, após alguns torturantes segundos de silêncio.
— Vai bem, nada tão assustador quanto você mencionou hoje. - brinquei.
— Sinto muito, minha intenção não era te assustar.
— Que isso, não me assustou, eu só achei que era uma completa incompetente e que poderia abandonar minhas chuteiras de jornalista, antes mesmo de começar. - respondi novamente em tom de brincadeira.
— Nossa! - ele exclamou pesaroso. - Me sinto péssimo ao ouvi-la dizer isso, você pode me desculpar?
— Relaxa, Nathan. - eu o encarei por um momento, notando sua mandíbula marcada, que lhe atribuía um certo quê de charme. - É como disse, eu não sei o que vou enfrentar, penso que seu tratamento foi bom para o meu amadurecimento.
— Você me surpreendeu agora. - ele devolveu o olhar, depois desviou para a pista. - Achei que me odiaria pra sempre.
— A vida é muito curta para se odiar pra sempre.
Nathan riu.
— Fico feliz em saber disso.
— Droga, é a Samanta. - falei mais para mim mesma, do que para ele.
— Sua amiga está te ligando?
— Sim.
— Por que não atende?
— Digamos que eu teria que mentir para ela e eu não gosto de fazer isso. - confessei dando de ombros.
— Por que teria de mentir? - inquiriu curiosamente.
— Posso ser sincera? - rebati olhando-o de lado.
— Claro.
— Sam acha que você tem uma queda por mim e se eu contar que peguei uma carona contigo, capaz de a faculdade toda saber e se tornar um boato, o que te prejudicaria. Enfim. - despejei tudo de uma vez só e suspirei.
Ao ouvir-me confessar tal pensamento, porém, Nathan começou a tossir descontroladamente e o carro até deu um leve solavanco.
— Samanta acha isso? - perguntou, ainda um pouco vermelho, enquanto fazia esforço para parar de tossir.
Esse é o problema com pessoas desbotadas, qualquer coisa ficam vermelhas, eu odeio isso. Quando era criança, eu corava por tudo. Bom, no caso de Nathan, acho que eu o assustei um pouco.
— Acha sim, por isso eu prefiro não contar sobre a carona.
— E o que você pensa sobre o assunto? - a pergunta me surpreendeu, confesso.
— Nada. - rebati prontamente. - Eu não acredito que tenha interesse em mim, para falar a verdade, acho você bastante sério para se interessar por uma aluna. - Nathan assentiu. - Se bem que, se dependesse delas...
— O que quer dizer?
— Não me diga que nunca percebeu todas as alunas se jogando em cima de você? - indaguei surpresa.
Nathan riu, parecendo envergonhado.
— Eu não tenho tempo para perceber essas coisas, e não seria ético da minha parte encorajá-las. - notei que ele se remexeu no banco, parecendo desconfortável.
— É proibido, né? - eu queria sondá-lo, para descobrir se teria alguma chance com o Kaleb.
— Estritamente proibido.
— Que pena. - falei baixinho.
— Pena? - ele me olhou curioso e, podemos dizer, com expectativa?
Não, estava ficando louca.
— Nada não. - desconversei.
— Tem interesse particular em alguém? - insistiu no assunto.
— Talvez. - mordi a língua, por ser tão boca aberta.
— Eu conheço?
— Acho que sim, ele é professor na turma de letras.
— Ah! - exclamou, apenas.
Silêncio.
— É o Kaleb, você sabe me dizer, se... - eu enrolei buscando coragem interna para perguntar o que queria.
— Se ele namora? - Nathan completou, impassível.
— Isso. - mexi no meu cabelo, um pouco constrangida por fazer esse tipo de pergunta ao meu professor.
— Não, não namora. - respondeu frio. - Bom, acho que chegamos.
— Obrigada pela carona, Nathan. - agradeci sem graça.
— Não foi nada, Rafaela. Boa noite. - concluiu, por fim, e o vi estalar os dedos da mão esquerda, como se refletisse sobre algo importante.
— Boa noite. - com isso eu desci do carro.
Nathan ainda esperou eu entrar em casa, para ir embora.
Mas não antes de cantar pneu.